Vereador por três oportunidades no município da Serra, o vereador comenta ainda sobre sua missão de comandar o diretório municipal de seu partido, em um momento de reconstrução do PSB no Espírito Santo.

– Então o deputado é otimista em relação à Assembleia?
– Otimista, otimista.
– E o que o deputado espera dela como resultado prático? Tem 12 anos que a Casa anda para trás. Fica claro que grande parte do plenário é subserviente ao governador Paulo Hartung (PMDB), sobram poucos, a não ser que haja alguma debandada. Além disso, a Assembleia é mal vista pela população, por seus antecedentes. Agora ela funciona com quatro CPIs. O que podemos esperar disso?
– Eu percebo que o pior momento da Assembleia é página virada. Os momentos em que o Estado virou motivo de chacota. Mas o perfil de boa parte dos deputados novatos é muito bom. Tenho percebido deputados de posição. Os que estão lá, os mais experientes, eu percebo que alguns têm muito conteúdo. Mas são apenas 50 dias de convivência, não consegui conhecer as reais intenções. É um colegiado, convivemos bem. Quanto às CPIs, os deputados novatos me fazem acreditar que a Assembleia fará um bom trabalho ao longo destes quatro anos, mesmo. Vemos o posicionamento do Amaro Neto [PPS], do Sérgio Majeski [PSDB]. Temos muitos deputados que foram presidentes de Câmara de Vereadores, prefeitos, e já chegam com entendimento da continuidade das leis, com conteúdo, e isso ajuda.
– E as CPIs?
– A do Pó Preto era inevitável. Ficamos preocupados porque abre em uma Câmara [Vitória] e em outra Câmara [Serra] também, e os relatórios vão ser sempre os mesmos e os atores. As outras CPIs são extremamente importantes, a do Transcol, a CPI dos Guinchos, principalmente essa questão, é muito importante.

– Em um momento fui surpreendido com uma decisão do plenário de que a composição seria com os membros da Comissão de Meio Ambiente. Eu topei e me propus a fazer a relatoria dos trabalhos da CPI. Isso foi a princípio bem receptivo e chegamos a conversar bastante, mas fui surpreendido com uma derrota em uma eleição, no momento da instalação. Me lancei candidato, justifiquei os motivos publicamente, mas fui voto vencido. Perdi por quatro a um, e naquele momento eu percebi que não era muito bem-vindo. Se me perguntar por que, não sei explicar. Não me senti bem. Senti que ia ficar com limitações em alguns momentos. Como o deputado Gilsinho Lopes [PR] tem uma luta reconhecida na área e estava presente, disse que renunciaria ao meu posto e pedi a sensibilidade dos membros para a indicação dele.
– Naquele momento, ainda existia o “blocão” e ele poderia ter sido indicado.
– Mas naquele momento, também não foi possível. E meu posicionamento era correto, porque foram desistindo, desistindo…passou por todas as bancadas, e chegou a oportunidade do deputado Gilsinho.
– Mas também não era assim, pegou muito mal. Ficou claro que não queriam o Gilsinho. Ele é membro por causa da opinião pública. O movimento contra o pó preto é muito forte, porque atinge diretamente a população.
– Eu entendo que a CPI do Pó Preto é a mais importante da Casa. Tenho acompanhado os trabalhos como membro da Comissão de Meio Ambiente. Anexei alguns documentos para ajudar e até já sugeri alguns atores importantes que devem ser ouvidos. Então, não vou me afastar dos trabalhos por hipótese nenhuma, porque sou membro da Comissão de Meio Ambiente. Outra coisa que pesou foi o meu compromisso de me dedicar à temática da Educação. Sou vice-presidente, pleiteei a presidência, mas consegui a vice.
– O deputado já acumulou umas “derrotazinhas”…
– Não é fácil, chegando novato e de um palanque que não elegeu o governador. O PSB é minoria na Casa, mas aos poucos vou mostrando minhas intenções e minha vontade de produzir, e vou superando. Na Comissão de Educação tive uma audiência pública aprovada para a apresentação do cumprimento das metas e da elaboração do Plano Estadual de Educação. Aí temos os debates da Escola Viva, que já provocamos lá dentro. A temática valores humanos, que já tivemos uma reunião com o secretário de Educação [Haroldo Correa Rocha], e é uma experiência muito bem sucedida na Serra. Quero debater à exaustão, até porque é um programa voluntário e com excelentes resultados.
– Vamos voltar à audiência pública da Escola Viva, no último dia 17. O plenário estava lotado, havia uma efervescência muito grande, e o deputado fez seis perguntas ao secretário de Educação. Algumas ele respondeu mais ou menos e outras deixaram ainda mais dúvidas. O deputado tem se reunido com os segmentos. O que mudou daquela audiência para cá?
– Quero registrar que eu me preparei para ser deputado e para pautar meu mandato na Educação. Sou filho de uma professora que dedicou quase 40 anos de sua vida à pasta, com experiência. Tenho relação com a comunidade escolar muito forte. Quando o projeto foi para ser debatido, eu já tinha lido por inúmeras vezes, já tinha reunido minha equipe, já tinha dividido isso com esse grupo de educadores e já tinha ponto de vista. Esperei o momento correto e coloquei seis gargalos, seis pontos que inviabilizam o início do projeto neste momento. Conforme você mesma relatou, ele teve dificuldade de pontuar.
– E depois da reunião, o que aconteceu?
– Logo em seguida, no dia 18, eu tive uma outra bela oportunidade de me reunir com cerca de 20 profissionais da educação, de escolas diversas, e conseguimos tirar mais 40 tópicos a serem esclarecidos. No dia 19, tive a oportunidade, pela Comissão de Cidadania, de participar de uma reunião com o Movimento Estudantil e com o Movimento Sindical e tivemos mais dúvidas. Nessa quarta (25), com a presença dos alunos se manifestando, e depois em uma conversa com eles, tive a oportunidade de externar o meu ponto de vista.
Do jeito que está, sem solucionar algumas questões pontuais, o meu voto é contrário. E disse, inclusive, os motivos. Todos nós queremos uma escola em tempo integral, funcionando bem, com estrutura. Mas começar no meio do ano é impossível. Fazer a transferência de alunos também não dá. Em uma escola da Serra, seriam transferidos quase mil alunos, na escola de Vila Nova de Colares. Isso mexe com o contexto da escola e com a cabeça dos alunos. Tem ainda a demissão de professores, porque o projeto fala claramente que só serão aproveitados profissionais efetivos. Só nesta escola de Vila Nova, seriam demitidos 37 professores. Isso não é correto. Não teriam condições de se recolocar no mercado no segundo semestre do ano. A estrutura das escolas é outro problema, enfim, é um projeto bem intencionado, mas ainda não mostra os motivos pelos quais merece ser aplicado.

– Esta audiência que o deputado quer promover, ainda na primeira quinzena de abril, também é sobre um tema que tem sido acompanhado com interesse pela comunidade escolar e deve gerar muito debate na Assembleia, não é?
– O Plano Nacional de Educação, já aprovado, estabelece regras claras para os estados e municípios. O prazo para os estados, e aí vou me prender ao Espírito Santo, vence agora no final de junho. A Assembleia nunca discutiu o Plano Estadual de Educação, esse debate está interno. Ele foi feito dentro da Secretaria de Educação, com os técnicos, foi estudado, houve seminário, mas nunca foi externado.
– Mas o Sindiupes afirma que a última reunião do Fórum Estadual de Educação para discutir o assunto foi em dezembro. De lá para cá não houve nenhuma discussão sobre isso…
– Pois é, mais um motivo. Eu aprovei esse requerimento na Comissão de Educação, apesar de alguma resistência, mas foi aprovado por unanimidade. Já estamos programando a audiência e queremos saber como anda a elaboração do plano e se o governo vai cumprir as metas, que prevê na meta seis, as escolas de ensino médio em período integral e no mínimo de 50%. Se o plano estivesse sendo discutido, talvez os erros na elaboração deste projeto não aconteceriam. Por outro lado, foi bom para a população que o projeto chegasse na Assembleia com bastante detalhes, porque ele possibilitou a análise e a detecção de erros. Se ele vai com um simples artigo “Fique criado a Escola Viva”, quem votaria contra? E aí a regulamentação ficaria por conta da Secretaria de Educação. Isso foi um ponto positivo .
– Mas isso foi acidental, porque havia a urgência e a Comissão de Educação poderia passar por cima e aprovar sem discutir…
– Ah, mas não passaria. Projeto dessa grandeza, sem a discussão prévia, não teria como. Eu entendo que a audiência era inevitável.
– A impressão foi de uma coisa feita às pressas, só para dar uma satisfação.
– Foi veloz. Fomos comunicados à tarde de que a audiência seria no dia seguinte de manhã.
– Talvez não se tenha esperado o efeito que aquilo teria.
– Por isso nós marcamos esta audiência do Plano Estadual de Educação com antecedência, para as pessoas possam se preparar.

– Surpreendeu o aspecto politizado dos alunos?
– Muito. Me surpreendeu bastante. Alunos que repreenderam a fala dos deputados na audiência, dizendo que sabiam o que queriam, sim. E eles pontuaram nessa quarta isso novamente. Nós sabemos o que queremos. Eles se pegam muito às estruturas das escolas. Eles estão em escolas com estruturas muito ruins e externaram isso com muita propriedade. E o próprio momento que o País vive, totalmente justificável. Estão todos com o sentimento à flor da pele, isso está muito aflorado, e contribuiu bastante e vai continuar contribuindo.
– Pelo jeito a Assembleia não vai ter folga. A sociedade parece disposta a acompanhar a Casa, como há muito tempo não se via…
– Tomara. Eu volto a dizer, existe um grupo de deputados muito focado em trabalhar.
– Quem são os deputados da área de Educação?
– O Majeski é professor da rede particular; Marcos Bruno [PRTB] da rede pública; eu sou filho de professora, não sou profissional da área; Luzia Toledo [PMDB] também fez magistério; Eliana Dadalto [PTC] é professora; e Guerino Zanon [PMDB] também.
– E o deputado sente que poderá haver uma unidade entre esse povo?
– Não (risos). Eu sinto que vão ser temas diversos, bandeiras diferentes, mas no final acho que tudo vai convergir para melhorar a educação no Estado.
– De certa forma é bom os deputados divergirem, aquece o debate.
– Eliana apresentou uma emenda interessante, que a Escola Viva não funcione em prédios da rede pública. É simples, mas é funcional, resolveria grande parte dos problemas.
– Alias, os dois pontos mais debatidos pelos estudantes são bem simples: que não sejam nas escolas da rede e que seja implantado no ano que vem.
– A Escola Viva tem de ser atraente ao aluno e eu tenho o sentimento que vai ser. Quando instalarem uma escola, corrigindo essas falhas, é natural que os alunos e os pais procurem essa escola. Deve ser assim, é natural que seja assim. Nós sabemos que obrigado, ninguém chega a conquista nenhuma.
– O deputado é do PSB, do ex-governador Renato Casagrande, e está em uma Assembleia com ampla base governista. Como é essa relação com a Casa e com o governo?
– Primeiro, volto a frisar o perfil dos novos deputados, me agrada. Me agrada muito, inclusive, a postura do deputado Envialdo dos Anjos [PSD] neste primeiro momento. Tem sido corajoso, mostra experiência. Minha primeira impressão é muito positiva. Ele fala: “Bruno, o direito é meu, a liberdade é minha, eu conquistei meu mandato”. E é um homem muito experiente, prefeito, deputado, conselheiro. Mas voltando à pergunta, a minha relação com os deputados é ótima. Só repudio, às vezes, atitudes muito midiáticas. Minha formação é na área de Administração de Empresas, tenho uma pós-graduação em Gestão Pública. Então, gosto muito de objetivar, de resolver, de achar solução para as questões. Me irrita às vezes ver um parlamentar só na teoria e de forma midiática. Temos deputados midiáticos, infelizmente. Minha relação com o governo é muito bem definida. Inclusive, vou assumir a presidência do PSB na minha cidade nos próximos dias. E vamos fazer do PSB na Serra o maior diretório do partido no Estado.

– Vocês estão perdendo na Serra a ex-vice-prefeita Madalena Santana…
– A Madalena, o próprio presidente, Luiz Carlos Ciciliotti, diz no jornal, está buscando algo melhor, ela deu o seu melhor. Isso mostra a minha intenção com o PSB, fazer o partido crescer, reconhecendo Renato Casagrande como uma das maiores lideranças deste Estado. Ele fez um excelente trabalho, que é reconhecido pela população. Todas as vezes que eu precisar fazer a defesa das conquistas do governo Casagrande, eu vou fazer. Toda vez que precisar dialogar em relação a críticas destrutivas, eu vou saber me posicionar. Agora isso não significa, e o próprio partido entende isso, que eu não deva ter uma relação institucional, pacífica, descente com o governador Paulo Hartung. Ele é o governador que os capixabas escolheram. Eu não votei no Paulo Hartung, votei no Casagrande, mas os capixabas escolheram o Paulo Hartung como governador.
Eu represento o Estado, mas sou morador e o único deputado de uma cidade que tem quase 500 mil habitantes. Uma cidade que tem 63 mil alunos na Rede Municipal de Ensino; que tem 25 mil famílias inscritas no Bolsa Família; que tem uma renda média familiar de pouco mais de R$ 680,00; que é a segunda mais violenta do Estado. Por outro lado, é uma cidade que contribui com 27,5% do PIB capixaba. Tenho que dialogar com o governo para melhorar a segurança, remodelar os DPJs, Instalar um novo Batalhão da Polícia Militar, melhorar as estruturas das escolas estaduais do município, construir novas escolas – temos alunos de Jacaraípe estudando em Bairro República [Vitória], uma diretora me disse que chegou a receber 17 pedidos de matrícula em um dia e conseguiu resolver só dois –, as grandes obras da cidade, temos que resolver o contorno do Mestre Álvaro, o contorno de Jacaraípe, o gargalo da mobilidade urbana em Carapina…se eu não dialogar com o governador, não vou cumprir o meu papel. Tenho uma boa relação com o governador Paulo Hartung, não tenho nenhuma dificuldade de dialogar com ele, e vou fazer isso no meu papel de deputado estadual.
– O seu prefeito, Audifax Barcelos, o que se comenta no mercado é que ele também está de saída do PSB.
– O Audifax tem me motivado a fortalecer o PSB Serra. Ele está focado nos resultados de sua gestão. Tem dito que estes próximos dois anos serão de colheita. Ele promoveu cortes profundos, drásticos, nesses dois primeiros anos, é um gestor experiente, e tem pedido para eu fortalecer o PSB local. Existem muitos rumores de convites da Rede Sustentabilidade, mas eu não vejo nada de concreto nisso. Tendo em vista as reformas possíveis em Brasília e a forma como o Congresso se posiciona para dificultar a criação de novos partidos, isso inviabiliza ainda mais a intenção de uma liderança que queira migrar de uma sigla para outra. Mas se ele tomar essa decisão, eu não o acompanharei, permanecerei no PSB.
– E esta possibilidade de o PSB se fundir com o PPS, como o deputado avalia?

– Sim, estamos em reconstrução. Fizemos um encontro logo após o processo eleitoral, foi um momento de profundas reflexões, em que o governador assumiu todas as responsabilidades sobre acertos e possíveis erros de estratégia. Todos nós reconhecemos a grande liderança que Renato é.
– Em matéria de erro estratégico, Casagrande é laureado no assunto…
– Mas ainda assim é uma liderança reconhecida e respeitada. Por onde passo, a imagem que as pessoas têm dele é de um homem sério, trabalhador. Fez um grande enfrentamento. Hartung é uma liderança difícil de ser batida.
– Mas ele foi muito bem na eleição, perdeu no interior…
– Ele deu trabalho. Achou que estava consolidado no interior. Reverteu a votação em Vitória. Chegou a estar 11% atrás na Serra e venceu no município, recuperou. Essa dedicação na Região Metropolitana, afrouxou no interior.
– Ele desconheceu a dinâmica do interior. Tem o prefeito e o ex-prefeito, ele escolheu o prefeito que estava desgastado, e o resto foi para o colo de Paulo Hartung.
– Isso. Esse encontro foi uma boa oportunidade para discutirmos essas questões. Depois partimos para o planejamento. Ocorreu o planejamento nacional do PSB, além do Renato Casagrande, participaram Gilmar Pericles e Guilherme Dias, e em seguida fizemos o planejamento estadual. O que me chamou a atenção foi a alegria das pessoas que participaram, a motivação nos grupos de trabalho, a presença do Renato, a presença do deputado federal, dos dois deputados estaduais. E nós traçamos um rumo, uma meta, que passa pelas eleições de 2016. A primeira é garantir o maior número de prefeituras possíveis, sabemos que haverá uma redução, isso é inevitável. A segunda é aumentar consideravelmente a bancada de vereadores por esse Estado afora. Esta é a estratégia do PSB, e agora teremos a instalação da Fundação João Mangabeira aqui no Estado. Isso vai proporcionar uma qualificação muito maior do nosso quadro de filiados e eleitos.
– E se Audifax deixar o partido, o deputado pode vir como candidato a prefeito na Serra?
– Eu vim para cumprir o meu mandato. Minha experiência foi toda no município, eu preciso criar boas relações na Assembleia, preciso criar um grupo ainda mais qualificado, experiente. A Assembleia é um momento da minha vida indispensável e que eu não vou abrir mão. Eu não tenho nenhuma pretensão de disputar a prefeitura da Serra neste momento. Apesar de ouvir nas ruas e entender que a cidade está cansando de suas duas principais lideranças [Audifax e Sérgio Vidigal, PDT]. Luciano Rezende [prefeito de Vitória pelo PPS] deu um belo exemplo de como fazer isso aqui na Capital, com sua eleição. Estou aguardando o meu momento no município da Serra, mas nunca escondi de ninguém a minha vontade de dar minha contribuição, podendo realizar, não só legislar pela cidade.

