No final de maio, um vídeo intitulado Como se constrói um salvador da pátria se tornou viral nas redes sociais. Nele, um locutor indicava os passos para o gestor se apresentar como essa figura. O vídeo produzido pelo Sindicato dos Servidores Públicos do Estado (Sindipúblicos) resumiu a “fórmula” da seguinte maneira: primeiro se faz críticas ao governo anterior dizendo que perdeu o rumo, logo em seguida se cria uma situação de crise, realiza cortes em áreas essenciais e em investimentos, para depois “aparecer com o dinheiro que escondeu”.
É exatamente isso que revela o balanço financeiro dos seis primeiros meses de governo Paulo Hartung (PMDB), que iniciou seu terceiro mandato em janeiro. De acordo com os dados da Secretaria da Fazenda (Sefaz), o Estado registrou um superávit de R$ 479,54 milhões no período. Apesar do tão propagado cenário de crise financeira em 2015, o patamar de arrecadação se manteve próximo ao registrado no ano passado, inclusive, com aumento nas receitas de impostos. Por outro lado, os investimentos tiveram uma grande retração.
Segundo o balanço publicado no Diário Oficial desta quinta-feira (30), as receitas correntes no primeiro semestre de 2015 foram de R$ 5,951 bilhões, praticamente o mesmo valor registrado no ano passado (R$ 5,950 bilhões). Chama atenção nos números que as receitas tributárias (impostos) e com valores mobiliários tiveram crescimento. Em relação à arrecadação de tributos, o Estado ampliou suas receitas de R$ 3,25 bilhões em 2014 para R$ 3,348 bilhões este ano, uma alta de 2,74%. Já as receitas com valores mobiliários, como por exemplo, os rendimentos com lucros e dividendos do Banestes, saltaram de R$ 198,39 milhões para R$ 273,77 milhões (+ 37,9%).
Por outro lado, as receitas de capital que incluem as operações de crédito, expediente que foi alvo de críticas de Hartung em relação ao antecessor, despencaram mais de 70% neste primeiro semestre – de R$ 557 milhões em 2014 para R$ 147,74 milhões (-73,47%). Somente levando em consideração as operações de créditos, as receitas caíram de R$ 517,59 milhões para R$ 110,55 milhões (- 78,64%). Tudo isso demonstra que o governo está reduzindo a opção por este tipo de financiamento que, em alguns casos, é mais vantajoso do que o uso de recursos próprios – outra afirmação que virou mantra da campanha de Hartung nos ataques contra o ex-governador Renato Casagrande (PSB).
Entretanto, as despesas com investimentos, mesmo com “recursos próprios”, caíram mais do que a metade em relação ao ano anterior. Nos seis primeiros meses de 2015 foram empenhadas – isto é, despesas reservadas no orçamento – R$ 567,89 milhões contra R$ 1,52 bilhão em 2014 (-62,72%). Quando se fala em despesas liquidadas, ou seja, aquelas efetivamente realizadas, esse número cai ainda mais – R$ 198,85 milhões em 2015 contra R$ 771,31 milhões no ano passado, uma redução de 74,21%.
Todos esses números refletem no superávit registrado nos seis primeiros meses do governo Hartung (R$ 479.544.129,54). No ano passado, o primeiro semestre do último ano de gestão Casagrande teve um déficit de R$ 371,35 milhões. Fato que também alimentou a intensa disputa política entre os dois, porém, superada as eleições, a preocupação se volta para os rumos da nova gestão. No entanto, a cartilha do “salvador da pátria” continua sendo aplicada à risca por Hartung.
No vídeo produzido pelo Sindipúblicos, o locutor cita como passos para a construção dessa imagem: a realização de cortes nos combustíveis de viaturas e internet da Polícia Militar, redução de convênios com hospitais, demissão de profissionais na área da saúde, criação de turmas com mais de 50 alunos dentro de sala, paralisação de obras em andamento, suspensão das transferências com recursos e o adiamento do reajuste dos servidores públicos.
Os episódios registrados desde o início do governo se somam a casos mais recentes, como o cancelamento dos projetos de mobilidade urbana (BRT, Quarta Ponte e Aquaviário) em andamento, o fim do contrato de controle de balneabilidade das praias na Grande Vitória, sem previsão de realização de nova licitação, e a deliberação de uma greve geral do funcionalismo público para o mês de agosto. “Os capixabas conhecem essa estratégia. Lá atrás [primeira Era Hartung] foi um drama, mas hoje é só uma farsa covarde e cruel”, crava o vídeo, que está cada vez mais respaldado pelos números da contabilidade oficial.

