domingo, abril 12, 2026
22.2 C
Vitória
domingo, abril 12, 2026
domingo, abril 12, 2026

Leia Também:

Hartung depende de Rose para fazer interlocução com governo federal

Além da musculatura política inflada e a capacidade de mobilização das lideranças políticas da senadora Rose de Freitas (PMDB) – com o prestígio de uma plateia de 61 prefeitos –, a solenidade de assinatura da ordem de serviço das obras do Aeroporto de Vitória, nessa quinta-feira (26), serviu para mostrar um dos grandes desafios do governador Paulo Hartung (PMDB) em seu terceiro mandato: estabelecer uma boa interlocução com o governo federal.
 
Rose de Freitas mostra uma musculatura e trânsito cada vez maiores com o governo federal. A atuação da senadora pode criar as condições para que o Estado finalmente deixe de ser baixo clero nas articulações em Brasília. Mas as expressões de contrariedade e desconforto do governador, ao lado da companheira de partido durante a solenidade desta quinta, mostra que Hartung se encontra em uma situação de escolha. 
 
Se quiser realmente ter acesso ao gabinete dos ministros e conquistar a atenção da presidente Dilma para o Espírito Santo, não vai conseguir isso mandando recado pelos representantes de Dilma, como fez com o ministro da Aviação Civil, Eliseu Padilha. Vai ter de lançar mão de um trunfo que o Estado tem hoje: a presidente da Comissão Mista do Orçamento (CMO), mas isso seria reconhecer o capital político de Rose de Freitas e criar formas para que ela ganhe cada vez mais destaque no cenário político do Estado, podendo representar uma ameaça para o seus planos em 2018. Mas talvez essa seja a única saída para Hartung neste momento.
 
O afastamento entre Hartung e o governo Dilma criou um abismo entre o Espírito Santo e Brasília. Houve seguidos episódios políticos em que o governador não caminhou com o PT no Estado. Em 2002, Hartung, no PSB, foi chamado a fortalecer o palanque de Lula no segundo turno e se absteve. A situação se repetiu em 2006, quando ele já estava no também aliado PMDB. Em 2010, tirou foto com Dilma em frente ao Palácio Anchieta, mas não fez campanha para a presidente. Depois da eleição de Dilma, sugeriu que a presidente eleita calçasse as sandálias da humildade. Em 2014 subiu no palanque de Aécio Neves e fez duras críticas ao governo do PT, constrangendo as lideranças regionais do partido que o apoiavam.
 
Durante a campanha do ano passado, Hartung não poupou críticas ao governo federal, afirmando repetidamente, como fez nessa quinta-feira, que o governo federal discrimina o Espírito Santo. Em sua trajetória política o governador não construiu pontes que facilitassem seu trânsito com Brasília. Mesmo sendo do mesmo partido do vice-presidente Michel Temer, ele não transformou isso em um instrumento para atrair o apoio político e institucional do governo federal.
 
Além de sua própria limitação no trânsito com o Planalto, seus aliados também não conseguem ser os interlocutores que o governo precisa com o governo federal. O senador Ricardo Ferraço faz parte da ala peemedebista oposicionista à presidente Dilma, e sua aproximação cada vez maior com o senador tucano Aécio Neves o coloca cada vez mais distante do Palácio do Planalto. 
 
O governador recentemente estabeleceu uma aliança política com o senador Magno Malta (PR), mas as pazes foram feitas no momento errado. Malta, que já teve uma relação muito próxima com Dilma Rousseff – chegou a fazer campanha para ela pelo País em 2010, quando o discurso religioso lhe garantia visibilidade em nível nacional –, rompeu com a presidente e não tem mais o mesmo capital político de quando se reelegeu, sem a ajuda de Hartung
 
De outro lado, não é segredo nos meios políticos a animosidade do governador com a senadora. Hartung teria tentado por várias vezes dificultar a eleição da peemedebista. Ficou patente durante a campanha que Hartung queria a eleição de João Coser para o Senado e apoiava clandestinamente o petista. Diante da atual conjuntura política, com o fortalecimento de Rose, Hartung teria de dar o braço a torcer e pedir socorro à senadora para conseguir ver atendidas suas demandas em nível nacional. 
 
Quanto a Rose de Freitas, será necessário ajustar ainda alguns pontos de sua estratégia política. A senadora aproveitou a solenidade para consolidar sua musculatura política, mas pecou ao fazer o desabafo na hora errada sobre o descrédito que lhe foi imputado, por parte da opinião pública e imprensa, de ser uma pessoa desinformada.
 
Todos esses elementos mostram uma mudança na conjuntura política do Estado e podem costurar um cenário político para 2018 em que o governador terá muito mais dificuldade para se movimentar, diante da clara evidência de que não é mais a única liderança em condições de fazer as articulações com a classe política do Estado, e com a vantagem de também ter a prerrogativa de buscar um caminho de diálogo com o cenário nacional. 

Mais Lidas