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​Pastores rejeitam ataques que demonizam opiniões contrárias a Bolsonaro

Usiel Carneiro e Kenner Terra são do Fórum Evangelho e Justiça, que reúne lideranças na Grande Vitória

“No mínimo, podemos chamar isso de desonestidade intelectual”. Assim se posicionaram os pastores Usiel Carneiro e Kenner Terra, integrantes do Fórum Evangelho e Justiça, que reúne lideranças evangélicas da Grande Vitória, para refutar ataque aos pastores progressistas, especialmente aqueles que são críticos do governo Jair Bolsonaro. Os líderes evangélicos rejeitam as críticas e citam análise elaborada por Franklin Ferreira, teólogo formado na Universidade Mackenzie, ligado ao presidente.

Ele é autor do livro Contra a idolatria do Estado, assumidamente conservador, com uma militância contra a esquerda e os evangélicos progressistas. Bolsonaro gravou um agradecimento ao pastor, referindo-se ao livro como uma “obra magnífica” que juntava “fatos históricos e a nossa Bíblia sagrada”. Franklin Ferreira vem desde a última década repudiando a proximidade de evangélicos progressistas com o então governo petista, passou da admiração a Bolsonaro à defesa política e teológica de sua campanha e, posteriormente, de sua gestão.

Crítico do “esquerdismo”, do “liberalismo teológico” e do “comunismo”, foi um defensor da Lava Jato, chegando a fazer uma convocação pública pela indicação do procurador Deltan Dallagnol para a Procuradoria Geral da República (PGR). Ele também é um dos fundadores e presidente da Coalizão pelo Evangelho, uma associação evangélica conservadora, majoritariamente calvinista, que funciona como a versão brasileira da estadunidense The Gospel Coalition, e da diretoria do Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR), que em julho deste ano esteve com Bolsonaro para reivindicar, entre outras pautas, a imunidade tributária nas doações que as igrejas fazem para suas obras missionárias no exterior.

Para os pastores Kenner Terra e Usiel Carneiro, a proposta de identificação dos progressistas de Franklin Ferreira é “na verdade, uma lista inquisitória obscura, cujo objetivo é demonizar a todos que não estão exatamente enquadrados na sua forma hiperfundamentalista de pensar a fé e escolhas políticas”. Eles destacam que “ultimamente, a expressão “progressistas” passou a ser demonizada e usada como instrumento de ataques pouco acurados”.

Por ser um conceito escorregadio e dificilmente delineável, pode significar qualquer coisa. Um exemplo dessa problemática imprecisão se encontra na definição proposta por Franklin Ferreira, que o aplica “a quem repudia a Bíblia como Palavra de Deus, não crê na trindade, desconsidera a salvação pela graça, rejeita a possibilidade da ação sobrenatural, etc. A lista feita é grande e mistura, de forma generalizante, uma série de pontos da teologia, como se liberais, neo-ortodoxos, neoconservadores, pós-liberais fossem a mesma coisa, permitindo colocar qualquer pessoa, sem nenhum critério, dentro dessa categoria”.

Usiel Carneiro e Kenner Terra rejeitam a análise de Ferreira, que, “para arrematar e ferir a sensibilidade espiritual dos evangélicos, afirma que os supostos progressistas “se submetem a uma Ideia (sic) e não à revelação”. Para quem não está muito acostumado com discussões epistemológicas, precisamos informar que esse tipo de imprecisão conceitual seria desconsiderado, tratado como calúnia ou senso comum – ou, dependendo da análise, mentira”.

“Franklin reclama que os fundamentalistas são acusados de racistas, fascistas e homofóbicos. Seria isso um absurdo? A história nos mostra que foram exatamente esses grupos cristãos que engrossaram as fileiras da Ku Klux Klan, eram escravocratas (alguns senhores e traficantes de escravos), apoiaram ditaduras (como os presbiterianos no Período de Chumbo) e até hoje aceitam passivamente, com as reservas necessárias para não serem incriminados, frases como ‘gays devem morrer’, proferia pelo pastor fundamentalista Steven Anderson”, destacam.

Os dois pastores do Fórum Evangelho e Justiça entendem que a análise de Franklin Ferreira é perversa, na medida em que demoniza o contraditório, e falsifica propositalmente o sentido do termo. “Resumidamente, a perspectiva progressista tenta ser, em suas múltiplas variações, uma terceira via. Ou seja, o progressista é crítico a qualquer fundamentalismo, busca manter a “mesa posta” para o diálogo e crê na importância da fé cristã madura e contextual diante de uma sociedade cansada, com razão, de posturas evangélicas pouco coerentes com o Reino”.

Portanto, o progressista, contrariando Franklin Ferreira, a definição de alguns, acredita no Estado Democrático de Direito, mesmo que reconheça suas limitações; iluminados pela vida e obras de Jesus e profetas, defende os Direitos Humanos como parte de sua missão, o que significa ecoar as memórias do Protestantismo; não encontra em nenhuma proposta político-partidária a encarnação do Reino, mas sempre será crítico a projetos que apoiem ditaduras, alimentem discursos de ódio, relativizem as causas da violências ou tenham pouca sensibilidade social.

Desse modo, apontam os pastores, “os grupos tratados como progressistas são plurais e podem, sem qualquer incoerência, preservar aquele conjunto de crenças negadas a eles por Franklin, ao mesmo tempo em que sejam dialogais. É preciso entender, de uma vez por todas, que as discussões teológicas e horizontes pastorais não se circunscrevem, obviamente, aos campos liberal e fundamentalista, e nem o mundo pode ser fechado entre extrema direita e extrema esquerda”.

Kenner e Usiel afirmam: “Em seu maniqueísmo característico, o fundamentalismo, seja ele de qualquer vertente, é incapaz de admitir um espaço de reflexão que se revele mais razoável, maduro ou livre do que o seu. Ele precisa desqualificar, estigmatizar, e assim prevenir a quantos puder para que parem de ouvir outros discursos, a fim de manterem as mentes cativas para si”.

O que o fundamentalista chama de apologética, na verdade, é a defesa de suas perspectivas como se fossem o único caminho possível. Dessa forma, maturidade e liberdade são características que lhe parecem ameaçadoras. O fundamentalismo rejeita revisões e perguntas que possam ficar sem respostas imediatas, e muito dificilmente lida com o básico da vida: a humanidade. No caso desse autor, o engodo é maior, porque seu público apoia o projeto político atual e já tendencia significativamente a análise”.

Destacam os dois líderes: “É exatamente com a postura progressista que nos identificamos e que em nada isso fere nosso respeito às Escrituras, nosso senso de dever cristão e dependência da Graça Divina. Na experiência de ampliar o espaço de reflexão da fé com a vida, seus desafios sociais e existenciais, temos confirmado, dia a dia, a grandiosidade do Evangelho, a centralidade de Cristo e a indispensabilidade do Espírito. Qualquer definição que desconsidere isso não passará de generalização ou falsidade teológica”.

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