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Rede de relações familiares de dono do maior pátio da Grande Vitória intriga deputados

Proprietárias do pátio que mais arrecada dinheiro com apreensão de veículos na Grande Vitória, as donas de casa Auxiliadora Tibério Gomes e Ângela Maria Santana Oliveira quase não falaram na sessão desta segunda-feira (3) da CPI da Máfia dos Guinchos na Assembleia Legislativa. Quem explicou mesmo o funcionamento da Central Park, sediada em Cariacica, foi Dionísio Gomes Júnior, filho de Auxiliadora e sobrinho de Ângela.
 
Essa relação de empresa familiar foi o primeiro elemento que atiçou a curiosidade dos deputados estaduais membros da comissão. As proprietárias legais da empresa são mãe e tia; mas quem manda de fato na Central Park é o filho/sobrinho, administrador por procuração. “Só não posso vender”, destacou ele.
 
Segundo Dionísio, a empresa foi criada em 2007 e credenciada no Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES) em 10 de outubro do mesmo ano. A procuração lhe foi concedida também em 2007. O que levou então duas donas de casa a se interessarem por pátios de estacionamento? Tal foi a pergunta que a deputada Janete de Sá (PMN) dirigiu a Auxiliadora e Ângela. Foi o único momento em que elas se pronunciaram em pouco mais de duas horas de oitiva.
 
Auxiliadora respondeu que ao filho, técnico em gerenciamento de sistemas, já tendo prestado serviço para outras empresas do setor, ocorreu a ideia de abrir um pátio e pediu auxílio financeiro dos pais. Auxiliadora aceitou. Ângela ofereceu a mesma resposta: também queria ajudar a empreitada do sobrinho. Auxiliadora complementou que soube do edital de credenciamento pelos jornais.
 
A deputada então dirigiu a questão em aberto para Dionísio: “Por que você não é o proprietário?”. Ele respondeu que era muito jovem: então com 24 anos, justificou que não tinha patrimônio suficiente para empenhar em processos de empréstimos e financiamentos junto a bancos para abrir a empresa. Considerou mais fácil fazê-lo em nome da mãe e da tia. Ambas, mais tarde, endossariam: o dono de fato é Dionísio.
 
Antes de comandar a Central Park, Dionísio já conhecia o segmento. Trabalhara por oito meses em três empresas operando o controle do banco de dados – registro de veículos que entravam, veículos que saiam, por exemplo. Seu pai, Dionísio Gomes, foi gerente-financeiro do Detran-ES entre 2004 e 2006, durante a gestão do atual secretário estadual de Ações Estratégicas, Evaldo Martinelli. Têm parentes na Polícia Militar: um tio, coronel da reserva, e uma tia, tenente-coronel, médicos da PM. 
 
Na divisão territorial de atuação dos pátios na Grande Vitória estabelecida pelo Detran-ES, os serviços da Central Park abrangem a região entre a Vila Rubim e as pontes da Passagem, Ayrton Senna e de Camburi em Vitória. Assumiu recentemente a área entre a Grande São Pedro e a Vila Rubim, operada por uma empresa que cerrou as portas. Gerencia também um pátio em Guarapari desde maio de 2014.
 
Se não é sócio da Central Park, Dionísio é sócio, agora com o pai, de uma empresa que desde 2010 presta serviço à Prefeitura de Vitória de guinchamento de veículos abandonados nas ruas da capital, que são levados para o pátio da Central Park
 
Hoje, a Central Park arrecada em média R$ 250 mil por mês, disse Dionísio à CPI. O mínimo arrecadado foi R$ 170 mil; o máximo, R$ 500 mil. Em função do verão, janeiro é o mês que registra maior arrecadação e maio, o de menor. No entanto, respondendo a mais um questionamento de Janete, Dionísio disse vagamente o valor do lucro mensal médio da empresa. Algo em torno de R$ 15 a R$ 20 mil. 
 
Ele se justificou com a explicação dos gastos com o financiamento de oito caminhões-guincho e pagamento dos cerca de 40 funcionários. Mas a resposta não contemplou a deputada, que solicitou o registro em ata de que o administrador do pátio desconhece o lucro médio da empresa que ele mesmo gerencia.
 
Outra informação oferecida por Dionísio franziu os cenhos dos deputados: três doações feitas em 2008 pela Central Park à Associação dos Servidores Policiais Militares do Batalhão de Trânsito (Assetran), entidade investigada pelo Ministério Público Estadual (2008) pela denúncia de recebimento de doações de R$ 3,8 milhões de várias empresas da Grande Vitória. Dionísio explicou que atendeu a um ofício da entidade que pedia contribuições, mas Dionísio não soube explicar o objetivo da doação. Também informou o valor das doações: duas de R$ 3 mil e uma de R$ 8.
 
A informação intrigou o deputado Enivaldo dos Anjos (PSD), presidente da CPI. Como uma empresa que arrecada entre R$ 15 e R$ 20 mil por mês doa R$ 3 mil ou R$ 8 mil? Mais adiante, o deputado Marcelo Santos (PMDB) perguntou se Dionísio em algum momento ficou constrangido com o ofício da Assetran. Dionísio respondeu que não.
 
O dono do Central Park negou que a empresa tenha contratado motoboys para dedurar veículos estacionados em local irregular em Vitória e Cariacica. Negou também que, como dono de pátio, seja informado com antecedência sobre hora e local de realização de blitze. Segundo ele, o serviço de guincho é solicitado via Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Ciodes).
 
Ao final da sessão, Enivaldo relatou um caso que depois classificou como “fato consumado de que o valor [de multas e encargos] é negociado” entre Detran-ES e empresas. Um cidadão teve sua motoneta apreendida. Quando se apresentou ao pátio para pagar o encargos e reaver o veículo, tomou um susto: teria que pagar pouco mais de R$ 11 mil. 
 
O cidadão reagiu e foi ao Detran-ES contestar o valor. Enivaldo disse que recomendou ao cidadão que não usasse seu nome, mas o cidadão usou. Resultado: em tempo recorde, a multa passou para R$ 700. Enivaldo não revelou o nome do pátio. O deputado fuzilou o Detran-ES: qualificou o serviço de guincho como “um negócio criminoso, que não oferece segurança jurídica ao cidadão”.  
 
 
A CPI solicitou declaração de Dionísio de que ele não tem parentesco com funcionários do Dentra-ES; o balancete da Central Park; o patrimônio inicial e atual da empresa; período de ocupação e cargos ocupados pelo pai no Dentran-ES; cargos dos tios na PM; comprovantes e finalidades do depósito à Assetran; data da fiscalização mais recente do Detran-ES ao pátio.

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