Rogério Medeiros e Renata Oliveira
Fotos: Leonardo Sá / Porã
Eleita com 12.345 votos, Eliana Dadalto (PTC) cumpre seu primeiro mandato de deputada estadual. Nascida em Rio Bananal, quando ainda se tratava de uma localidade do município de Linhares, no norte do Estado, a parlamentar não esconde seu interesse nas movimentações do município para 2016, embora se articule com cautela.
Eliana ganhou destaque em Linhares a partir de 2005, quando ocupou o cargo de secretária de Assistência Social de Linhares, na gestão do ex-prefeito José Carlos Elias (PTB). Esteve em sala de aula na gestão de Guerino Zanon (PMDB), mas voltaria à prefeitura em 2012, como vice-prefeita. Voltaria, se a relação com o atual prefeito, Nozinho Correa (PDT), não tivesse sido tão conturbada.
Recentemente, a deputada pediu desculpas à população linharense por ter acreditado no projeto de Nozinho. Hoje, em um cenário marcado pela desidratação política do pedetista e de seu aliado Luiz Durão (PDT); com José Carlos Elias (PTB) provavelmente fora do páreo, e o favorito na disputa, Guerino Zanon (PMDB), pendurado na Lei da Ficha Limpa, Eliana aparece como uma alternativa para a disputa à prefeitura.
Nesta entrevista a Século Diário, a deputada fala sobre sua trajetória política, a experiência na Assembleia, e a expectativa para a disputa eleitoral de 2016 em Linhares.

Século Diário – A deputada foi eleita pelo PTC, que é um partido pequeno no Estado, e teve vitória definida nas últimas urnas. Como foi essa eleição?
Eliana Dadalto – Minha eleição não foi fácil. Não tive apoio de nenhuma autoridade política. Eu tive apoio da população de Linhares e também dos municípios de Sooretama, Rio Bananal e outros que tinham certo contato comigo. O que me deu a vitória foi Deus. Cheguei aonde cheguei graças ao meu trabalho na área de assistência social. Os que se lembram do trabalho que realizei naquele setor me ajudaram, mas minha vitória foi Deus que me deu.
– A deputa se refere à passagem pela Secretaria de Ação Social da Prefeitura de Linhares, na gestão do ex-prefeito José Carlos Elias (PTB). Como foi esse trabalho? O que encontrou quando chegou à secretaria?
– Quando assumi não era nem secretaria. Era um departamento da Saúde, e depois de um ano, após estruturar, se transformou em Secretaria de Ação Social. Só tinha um programa que era o Peti – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Conseguimos a gestão plena depois de um ano, implantando quatro CRAS – Centros de Referência em Assistência Social. Eu nem dormia na época, porque tínhamos que fazer isso em um ano. Conseguimos e ainda mais duas extensões, que são os CREAS – Centro de Referência Especializada em Assistência Social, também chamado de sentinela. Conseguimos implantar o Pró-Jovem e o Nasi – Núcleo de Assistência Social Integrada. Eu lembro que quando assumi, Linhares tinha apenas três assistentes sociais na prefeitura. Um município daquele porte, com três assistentes sociais. Colatina na época tinha 22. Ao final da gestão, conseguimos chegar a 15. Foi um trabalho muito bonito.
– Isso foi em que período?
– De 2005 a 2008. Só para se ter uma ideia, o Bolsa Família conseguimos estruturar uma equipe para cadastramento, que não existia. Existia um cadastro aleatório nas escolas. Essa equipe foi para o interior e de duas mil famílias cadastradas, passamos para oito mil. Fazíamos casamentos comunitários. Isso continua até hoje, acham que assistência social é só isso.

– Aí em 2008, Guerino Zanon vence a eleição. O que acontece com Eliana Dadalto?
– Eu fui para uma sala de aula. Eu era uma microempresária. Tinha uma fábrica de roupas infantis, mas fechei a fábrica quando fui para a secretaria. Com a vitória de Guerino, eu pensei: bom, sou professora, vou voltar para a sala de aula. Fui dar aula em um bairro de risco social. E foi Deus que me colocou lá, também não foi fácil. Depois de uma experiência na secretaria, passei um ano e meio nessa escola. Eu pensava: por que Deus me colocou nesse lugar? Mas eu tinha que passar por aquilo para chegar onde eu estou. Hoje a minha bandeira é a colocação de assistente social e psicólogos nas escolas, e foi lá que percebi essa necessidade. Percebi que os professores não entendem nada da assistência social.
– E os alunos vão para a sala de aula cheios de problemas…
– Nós conseguimos tirar muitas famílias da situação de extrema pobreza, isso foi um avanço. Mas percebi que o comportamento da criança não mudou. Eu percebi que a escola não estava fazendo o papel dela de formar cidadãos críticos. O espaço da escola, que poderia transformar, não faz isso. O próprio professor rotula o aluno.
– A deputada vivenciou isso?
– Sim. Havia um aluno de 12 anos com problemas de comportamento. Ele queria chamar a atenção. Chegava na escola agressivo. Eu dava aula para alunos de 5ª a 8ª série. Ele estava na 5ª. Já havia repetido o ano, os professores já diziam que ele não tinha mais jeito. Chocou-me muito, um dia em que a diretora, sem conseguir contê-lo, chamou a polícia e ele foi levado para o DPJ. Aquilo me chocou. Então, comecei a bater de frente com o diretor e comecei a trabalhar com p aluno por conta própria. Fiz um levantamento sobre a vida dele, descobri que ele não tinha nem pai, nem mãe. Morava com o tio, que trabalhava o dia todo. A partir desse trabalho, ele passou a ter confiança em mim e começou a melhorar. No fim do ano, ele passou de ano. Então, percebi a importância de ter esse profissional na escola.

– A deputada apresentou projeto de lei nesse sentido?
– Apresentei emenda ao projeto Escola Viva, contemplando essa questão. Mais tarde, em 2010, esse menino me ajudou na campanha de deputada federal. Tive uma boa votação no bairro dele.
– A deputada teve 16 mil votos, não é isso?
– Foram 16.512 votos.
– Por que foi candidata a deputada federal e não estadual?
– Eu estava no PTB, junto com Zé Carlos. Falei com ele para ir candidato a deputado federal e eu estadual, mas ele não quis. Por isso, fui de deputada federal. Talvez tivesse me elegido antes. Talvez não. Com aquela votação, certamente teria sido eleita.
– Então, a deputada fez dupla com Zé Carlos Elias. Foi ele que te puxou?
– Ele fala que sim. Eu vejo que um ajudou o outro.
– Como foi a saída do PTB?
– Depois disso ficou um certo desconforto. Eu saí do PTB e fui para o PTC.
– E por que o PTC?
– Foi o único partido que me aceitou. Os outros partidos não aceitaram. Tentei ir para o PT, por que tenho uma identidade com as questões sociais, que o partido também tem. Mas em Linhares, os partidos têm seus manda-chuvas. Acredito que os partidos, principalmente os grandes, me viam como ameaça.
– E quando a deputada sai do PTB e vai para o PTC, leva uma fatia desse grupo?
– Sim, consegui levar um grupo grande comigo, tanto que estou aparecendo no cenário eleitoral para o próximo ano. Mas estamos aguardando para ver como ficará a situação dos partidos.
– Aí vem 2012 e a deputada se une ao grupo do atual prefeito, Nozinho Correa (PDT), que sai vitorioso das urnas, e aí… – E aí o projeto que tínhamos não se concretizou. E estou cada vez mais querendo mostrar quem é Eliana dentro do PTC, com uma postura independente. Eu ganhei a eleição sem apoio nenhum. Minha eleição foi com Deus e o povo.
– Recentemente, a deputada fez um discurso na Assembleia, pedindo desculpas à população do município por ter acreditado no projeto. Inclusive, a deputada foi aparteada pelo deputado Guerino Zanon (PMDB), que é de um grupo político adversário no município e a absolveu dessa culpa. Esse episódio teve um grande simbolismo político. Qual foi a repercussão do fato em Linhares?
– Teve uma repercussão muito grande. Na semana seguinte, eu saia às ruas e as pessoas vinham me parabenizar pela fala, por ter assumido essa posição. Mas, sempre tive essa posição. Nem todos acompanham a política, sempre comento isso, que a população devia acompanhar mais para saber o que está acontecendo. A gente percebe que as pessoas votam e depois não querem saber. Tem que acompanhar.
– Como foi sua convivência com o prefeito Nozinho Correa?
– Não tive mais convivência com o prefeito. Havia um acordo para que eu fosse a secretária de Ação Social, mas quando chegou lá ele não cumpriu o que havia prometido a mim e ao povo. Meu eleitorado ficou indignado com essa situação. Eu quero um dia chegar a ser prefeita de Linhares, mas quero que meu vice seja atuante. Ele nunca me ouviu, nunca debateu nada comigo. Ele havia se comprometido a me dar a Secretaria de Ação Social e isso, inclusive, era a minha proposta em palanque, de que seria uma vice atuante. Porque a partir do momento em que você assume uma secretaria, é diferente, mesmo que você seja um vice com gabinete.
– A deputada não teve sequer um gabinete?
– Não. Tentei ter meu gabinete e não consegui. Ele queria que eu administrasse a Assistência Social do jeito que eles queriam, com a mulher dele como secretária e eu administrando. Como eu não aceitei, ele disse, literalmente, para eu ficar em casa. Disse a ele que eu não iria ficar em casa, fui eleita para trabalhar, e vou trabalhar. Meu gabinete itinerante era meu carro, pago com meu combustível, eu pagava. Visitei as escolas, as unidades de saúde, colhia as demandas e fazia os encaminhamentos à prefeitura.
– E politicamente, que postura tomou com o prefeito?
– Foi de distanciamento. Mas falava para a população sobre a minha situação, com o meu gabinete itinerante. Nas inaugurações, quando tinha, porque foram poucas, eu não estava presente. Eles nem pronunciavam meu nome.
– Mas a deputada nunca foi para o embate com ele?
– Não, nunca fui.
– E como surge essa candidatura a deputada estadual em 2014?
– Surgiu com o povo me incentivando e eu resolvi tentar para ver como eu estava. Recebi apoio da Igreja Católica, mas não de forma explicita. Foi mais pé no chão mesmo. Andei muito.
– A deputada tem algum apoio na Câmara de Vereadores?
– Não. Não tive o apoio de nenhum vereador, de nenhuma liderança comunitária. Não estou falando que foi Deus quem me deu esta vitória? Foram 12.345 votos que precisava para vencer.
– E é interessante que sua história é muito parecida com a do vice de Colatina, Cirilo de Tarso (PCdoB), com quem disputou essa vaga até as últimas urnas.
– E foi de virada, por 410 votos. Foi 1% das urnas, quando abriram as urnas de Rio Bananal, que foi onde nasci, houve essa mudança.
– É candidata a prefeita?
– Olha, vamos ouvir a população. Se eu sentir que a população quer o meu nome, não vou me omitir.
– Mas não é só a população, seu feeling é que vai dizer. Até porque a próxima eleição de deputada vai depender disso. Precisa aquecer o eleitorado…
– Estou disposta.

– E como está vendo a experiência na Assembleia?
– Estou aprendendo muita coisa, desenvolvendo bem. Tive experiência de gestão em secretaria, mas nunca no legislativo. Já conseguimos fazer duas audiências públicas. Presido a Comissão de Assistência Social, consegui essa confiança da Casa. Sou suplente na Saúde e requisitei outra audiência sobre a questão da saúde pública em Linhares, que será no dia 14. No dia 15 teremos uma sessão solene, sobre o Dia do Assistente Social.
– A deputada pegou uma Assembleia quente, com sete comissões especiais, cinco CPIs, discussões acaloradas no plenário. Está gostando?
– Sim. Estou gostando de ver. Tem que ter essa discussão mesmo. Tem muitos deputados novos, que querem mostrar trabalho, dizer para quê veio. Nós, parlamentares, temos que mostrar um quadro novo. As pessoas não acreditam mais em política, nós estamos desacreditados. Por isso, tem de mudar.

