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‘Vai ser a força do governo contra a força do ex-governo’

Fotos: Leonardo Sá / Agência Porã

O ex-presidente da Câmara de Vitória, Ademar Rocha (PTdoB), não vai disputar a eleição do próximo ano, talvez seu filho, Rafael Rocha, dispute, mas esse é um assunto que ainda vai ser discutido em família. Mesmo sem mandato, porém, ele tem uma visão muito ampla do cenário político de Vitória. 

 
Nesta entrevista a Século Diário, o ex-vereador faz um apanhado do que pode vir pela frente na disputa de 2016. Ele acredita em uma disputa polarizada e indireta entre o governador Paulo Hartung (PMDB) e o ex-governador Renato Casagrande (PSB), em um cenário pulverizado de candidaturas a prefeito. 
 
Mas não será uma disputa fácil. Ademar acredita que será necessário andar muito para convencer o eleitor, sobretudo, depois da decepção com a promessa de mudança do atual prefeito Luciano Rezende (PPS), que chega desgastado na disputa.

Para a Câmara de Vitória, ele acredita em uma grande renovação, e tudo vai depender da capacidade dos partidos de fazer boas coligações. Articulação que já começou, com bastante antecedência do pleito.

 

Século Diário – O processo eleitoral do próximo ano já está em adiantada fase de articulação. Como observador dos movimentos políticos de Vitória, de fora, porque não está no mandato, mas por dentro como articulador, como vê o horizonte de 2016 na Capital?
 
Ademar Rocha – A primeira coisa que vejo é que  se tratará de uma eleição de dois turnos, pela quantidade de candidatos que devem se apresentar para o pleito. Nós temos uma candidatura muito forte de Lelo Coimbra (PMDB) ou do Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB), eu não acredito que saiam os dois. O deputado federal Carlos Manato (SD) tem demonstrado, desde a eleição passada, a disposição de sair candidato . Temos o Capitão Assumção (PRB), que também colocou o nome dele para ser candidato. Vamos ter uma candidatura do PT, e aí eu acho que não será uma candidatura competitiva, vai ser mais para tentar eleger uma bancada de vereadores, e naquele mesmo modelo da candidatura ao governo do Estado, uma candidatura para não fazer mal a ninguém. Então, vai ter dedo de alguém para fazer isso com o PT, para tirar esses votos do PT para não migrarem para Luciano Rezende (PPS). Na eleição passada, Luciano Rezende ganhou com os votos do PT, no segundo turno.

 

– Porque ele estava disputando com o candidato do PSDB.

 

– Isso. Tem o Serjão Magalhães [de saída do PSB] também. Então, eu vejo que será uma eleição de segundo turno. Quem são esses atores no segundo turno, a gente não sabe. Na avaliação de quem está andando pela cidade e que votou pela mudança, o sentimento é de que essa mudança não aconteceu até agora. Há muita gozação nos bares e restaurantes. Tem gente  – que eu me reservo a não dizer o nome – que vai lançar candidatura com música do inverso da mudança. Frustrou a expectativa. 
 
– O prefeito vai fragilizado para a disputa…

 

– Muito. Há muita dificuldade do Luciano Rezende na política partidária. É só ver os partidos que ele perdeu. O movimento que ele fez com o vice-prefeito Waguinho [Ito], de tirar do PR, e outros movimentos que ele fez, errou a mão. Fora outros presidentes de partido que ficaram com ele na eleição e que têm dito que não ficam com ele em 2016, nem que a vaca tussa. 
 
– Acha que o maior erro dele foi político ou administrativo?

 

– Ele tem o erro político, não faz política partidária, não sabe fazer. E na área administrativa, ele sofreu um baque na queda de receita e concomitante a isso não teve gestão para suprir. Está tentando agora, mas acho que há um espaço muito curto de tempo. 

– Vitória não parece ser um município com grandes problemas urbanos que exijam um montante muito grande de recursos, se comparada aos demais municípios da Grande Vitória…

 
– Vitória é um Oásis se comparada a Cariacica, Vila Velha, Serra. Até pela quilometragem quadrada. Faltou equipe para arranjar soluções para sair da crise. Tirar o “s” da crise e ficar com o crie. E ele vai ter muita dificuldade. Em uma eleição com Luiz Paulo ou Lelo, Manato, Capitão Assumção, Serjão…E tem um candidato, que fizeram uma pesquisa interna aí, que apareceu muito bem, o diretor do Detran [Departamento Estadual de Trânsito], Fabiano Contarato. Então, se vêm esses personagens todos, não se sabe quem irá para o segundo turno. 

 

– No PSDB, o nome do deputado Sérgio Majeski também aparece bem, mas o partido geralmente prefere apostar em fórmulas mais antigas. 

 

– Seria uma novidade. Mas vai ser uma eleição também de andar. Quem tiver serviços prestados à população, terá mais chances de ganhar. 

 

– Outro elemento que vai contar muito é a influência das lideranças estaduais, ou seja as movimentações do governador Paulo Hartung (PMDB) e do ex-governador Renato Casagrande (PSB). Lelo, por exemplo, depende do governador…

 

– Sim. Diferentemente do Luiz Paulo, que tem uma trajetória própria. Tem serviço prestado. Lelo vai ter que andar de mãos dadas com Hartung, assim como Luciano vai ter de andar de mãos dadas com Renato Casagrande. Aí vai ser a força do governo contra a força do ex-governo. 
 
– Casagrande teve uma votação muito forte na Capital, emparelhou com Hartung. Hartung venceu, mas está com a popularidade em baixa. Como fica essa equação?

 

– Renato Casagrande tem o contrapeso de Luciano, que está muito mal. O governo não está bem, está pegando uma crise também, mas é um governo que tem nome, que já mostrou poder de recuperação. Qual a força que ele vai ter? Qual o tamanho? Qual a quantidade de dedos que ele vai colocar nos candidatos? Casagrande vinha com força, apoiando Luciano, mas é o reverso, vai pegar o contrapeso de pegar um prefeito.
 
– Uma coisa seria ele disputar, outra é apoiar o prefeito…

 

– Exatamente. Até porque esse negócio de transferência de votos em Vitória já ficou provado que não cola. Eu tenho colocado que, nos últimos 30 anos, o eleitor está qualificado a votar. São sempre candidatos de centro-esquerda que vencem em Vitória, você não vê candidato de direita vencer. Veja: Vitor Buaiz, Paulo Hartung, Luiz Paulo, João Coser e Luciano Rezende. É diferente de Cariacica, Vila Velha. Tem outro candidato aí, que já plantaram notinhas, que é o Amaro Neto. 
 
– Ele mora em Vila Velha, mas se vier, arrebenta, não é?

 

 – Vai dar trabalho. Mas, como falei, sem querer desqualificar os outros eleitores, o eleitor de Vitória é qualificado, vota mais consciente, a renda per capta é maior, e acaba refletindo. Então, não sei como o eleitorado de Vitória se comportaria com o Amaro Neto. Ele seria muito bem votado, mas não sei se atingiria a classe A e B. Nas classes C, D e E, ele vai ser bem votado. 
 
– Vamos supor que o acordo entre Casagrande e Luciano venha a azedar até o próximo ano, e ele saia candidato em Vitória. Acredita que isso seria possível?

 

– Eu acho mais provável que Casagrande venha a ser candidato na Serra. Se Audifax Barcelos sair do PSB, fica um buraco aberto lá e ele não terá mais compromisso com Audifax. Se o prefeito sair, estará saindo pela mão de alguém. Jabuti em cima do coqueiro ou é enchente ou é mão de gente. Ele saindo, Casagrande está livre para disputar a eleição na Serra. Não acredito que Casagrande dispute a eleição em Vitória. Mas em política, pode tudo. Se tiver que apostar, aposto que não. É mais fácil ser na Serra.

 

– E quais as chances de o governador Paulo Hartung sair vencedor nessa disputa? Na eleição passada ele perdeu.

– É o que eu falei, a administração de Luciano está mal. Ele tem total chance, só tem que escolher o candidato certo. Quem é o candidato dele? É o Contarato? É o Luiz Paulo? É o Lelo? Se ele escolher o candidato certo, com certeza será vitorioso, não tenho dúvida disso.

 

– Uma teoria que se monta e desmonta é de a senadora Rose de Freitas (PMDB) ser candidata em Vitória. Ela não tem o partido na mão para isso…

 

– Acho difícil também. Ela se elegeu senadora, sair com dois anos de mandato…

 

– E o acordo dela com o suplente, o empresário Luiz Pastore (PMDB)?

 

– Mas aí é mais pra frente. Terão ainda duas eleições municipais no mandato dela. Eu não acredito que ela saia com dois anos de mandato no Senado. Não prestou ainda serviço que refletisse a votação que teve. Ela tem que estar lá, mostrando para a população capixaba porque foi eleita, e ninguém é mais competente que ela para isso. Agora, se eu tenho um partido na mão com uma estrutura mais ou menos, tem que disputar a eleição de qualquer jeito. Até porque não perde nada, ganha. Quem disputa a eleição em Vitória ganha dois anos depois, fica a marca. Com um partido na mão, eu não teria dúvida em sair candidato em Vitória. É perder ganhando. E com esse monte de candidato aí, quem disse que não pode ir para o segundo turno?

 
– Especificamente sobre o PSDB. O partido tem o Luiz Paulo, que desta vez está mais presente no Estado, tem o vice-governador César Colnago, e tem o deputado Sérgio Majeski, que poderia ser uma novidade, mas não tem apoio interno. Qual é o caminho para o  ninho tucano?

 

– Acho que o PSDB escolhe um nome via pesquisa. E uma pesquisa hoje em Vitória entre Luiz Paulo, César e Majeski é jogo duro. Mas é preciso saber também quem é que tem chegada. Não adianta você sair bem agora, e não ter  chegada. 

 

– O Luiz Paulo saiu bem na disputa…

 

– Mas aí teve falhas na campanha, teve outras coisas, o oba-oba do já ganhou, foram erros cometidos que não serão mais cometidos agora. Mas temos três nomes muito fortes pelo PSDB, que é o Luiz Paulo, o César e o Majeski.

 

– Dois já perderam…

 

– Dois já perderam: César e Luiz Paulo. Tem que ver a pesquisa e fazer uma avaliação de chegada. 

 

– Voltando à questão de o PT lançar uma candidatura para não incomodar ninguém: o partido precisa fazer a defesa do governo Dilma, e se houver uma candidatura do PSDB em Vitória, fatalmente vai ter que se colocar na disputa. Além disso, precisa se fortalecer no Estado, porque está muito desgastado, e disputar a prefeitura de Vitória, claro, garante um bom posicionamento do partido. Mas como o PT pode montar um palanque em Vitória?

 

– Vai ter de lançar candidatura. Não pode ser o coadjuvante, só tomando pancada. 

 

– Mas seria muito arriscado lançar uma candidatura “Roberto Carlos”.

 

– Eu não tenho dúvida de que será uma candidatura laranja. Não tem jeito, até para acomodar umas situações dentro do governo. Hoje você tem o PT dentro do governo do Estado e o Paulo Hartung botando a mão em alguém como fica o PT dentro do governo, com a candidatura batendo no PSDB? Acho que vai acontecer, e do mesmo teclado do governo do Estado.

 

– E como fica essa parceria entre Hartung e João Coser, da eleição passada? Isso reflete na eleição de 2016?

 

– Sim. O PT está no governo. Está bom para todo mundo.

 

– Mas vai ficar estranho o governador apoiar o candidato do PT, o candidato do PSDB…

 

– Paulo não vai apoiar o candidato do PT, não. Vai ter a mão do Paulo nesse arranjo. A candidatura do PT vai ser para fazer uma boa chapa de vereadores e defender o governo Dilma, e ponto. Até porque, com chance de eleição no Espírito Santo, eu só vejo um lugar: Cariacica, com Helder Salomão. 
 

 

– Que não vai disputar…

 

– Mas vai sofrer pressão. E a companheirada? Helder vai sofrer uma pressão violenta para disputar a eleição de Cariacica.  
 
– E como fica a Câmara para 2016? O senhor não é candidato, não é?

 

– Não, eu não sou candidato. Tem o meu filho que quer ser candidato, Rafael Rocha. Vamos ter de discutir isso em família, avaliar se é bom para ele. Não tenho dúvida que vai ser bem votado se vier candidato, até porque tem o recall do pai, que teve 20 anos de mandato, o sétimo mais votado, e não furou a legenda. Tem vereador com pouco mais de mil votos e eu tive mais de três mil votos. Mas são os desígnios de Deus e foi bom, porque estou descansando. Mas em relação à  Câmara, a renovação vai ser violenta. Passa de 50%.

 

– Esse desgaste do eleitor com os gestores municipais chega também aos vereadores?

 

– Chega. Mas o que vai ocorrer, e já está acontecendo, como foi na eleição passada, são candidatos que tiveram votação alta, como foi meu caso, de Sérgio Sá, Aloísio Varejão e uma gama de gente, ficar de fora,  e entrar os vereadores com votação baixa. Isso acontece com a movimentação dos partidos. Tem partido que não tem vereador e quem tem mandato vai de se juntar e morrer agarrado. 
 
– Essa história que o senhor sempre fala, da escolha das coligações?

 

– Sim. O dever de casa agora é a formação das coligações. Havendo coligações, já tem oito, dez partidos se juntando, conversando há mais de ano.

 

– O presidente da Câmara, Namy Chequer (PCdoB), quando deu entrevista aqui, destacou o tamanho da Câmara, que acaba dificultando a representatividade da cidade e a renovação. Concorda com isso?

 

– Não. Tanto é que renovou 50% em 2012. Na verdade o que eles querem agora é passar para 23 vereadores e não têm coragem. Eu sempre fui contra. Acho que 15 vereadores representam bem a cidade, até porque eu chamo de 15 senadores, porque têm muita força, mas não sabem usar a força que têm. Não sabem o que é o peso de um voto. Tem vereador lá que está há três anos sendo subserviente e que vai ter a resposta nas ruas. Eu sempre tive meu espaço na prefeitura, mas sempre mantive minha independência, sempre tive um voto consciente. Nunca fui subserviente a ninguém, diferentemente de uma Câmara hoje, que com exceção de alguns, três ou quatro, é completamente subserviente.  

 

– E na eleição do ano passado, alguns vereadores disputaram e não obtiveram êxito. Então, não é só a coligação, tem a questão da postura…

 

– Quem se deu bem na eleição passada e teve votações expressivas, foi quem fez oposição. E vai acontecer novamente em 2016. Na verdade, se quiser mudança mesmo, a tal falada mudança, só se mudar de Vitória. O que você vê aí é ciclovia, que na verdade são pedaços de ciclovia, não liga nada a lugar nenhum. A verdade é essa. 
 
– E quais o grupos que vê com condições de boa articulação? O PSB está desgastado, o PT está desgastado, o PMDB é difícil saber…

 

– O PMDB tem um problema muito grande. Ninguém faz partido ali. Cada um faz para si. Falta alguém dentro do PMDB para organizar uma chapa de vereador, organizar o partido. Quem fazia isso bem era Huguinho Borges. Depois de Huguinho, eu fui pra lá, organizei, e nós elegemos metade da Câmara. E aí depois não teve ninguém que fez partido. Eu não tenho dúvida de que o PMDB terá dificuldade em furar legenda, mesmo com a força que tem. Se não fizer um trabalho correndo, a partir de ontem, para organizar as candidaturas no PMDB, não fura a legenda com os candidatos que tem. 

 

– E os outros?

– Vejo pouca gente fazendo partido. O menino do PRP, Marcos Alves, se organiza bem. Tem um grupo de pré-candidatos dentro da região de São Pedro procurando para onde vai migrar todo mundo. Temos pedaços de partido ainda. 

 

– Ainda está tudo muito incipiente neste sentido?

 

– Quem vai ter uma chapinha ainda boa é o PPS, e aí Luciano usou bem a questão do poder. Ele pegou o pessoal do PPS e colocou no governo, e vai repetir essa chapa. 

 

– Mas o desgaste dele não prejudica o candidato na rua?

– Tem isso também. Mas vai ter chapa. Diferentemente dos demais, que até agora não estou vendo. Está todo mundo com dificuldade de fazer chapa. 

– PSB está isolado?

– Completamente. E vai perder vereador também. Na hora que abrir essa janela ou criar a Rede, vai ser uma debandada geral do PSB. Vai murchar, desidratar. E isso aí o governo vai fazer bem. 

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