Sexta, 17 Setembro 2021

Brasil atravessa o maior colapso sanitário e hospitalar da história, avalia Fiocruz

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O Brasil atravessa "o maior colapso sanitário e hospitalar" de sua história, na avaliação da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz). A conclusão é do Observatório Covid-19 da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) e consta no boletim extraordinário publicado nessa terça-feira (16).

Neste momento, ressalta a Fiocruz, das 27 unidades federativas, 24 estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS) iguais ou superiores a 80%, sendo 15 com taxas iguais ou superiores a 90%. Em relação às capitais, 25 das 27 estão com essas taxas iguais ou superiores a 80%, sendo 19 delas superiores a 90%.
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O Espírito Santo e a capital Vitória estão no risco mais alto, em vermelho no mapa. Apenas Roraima e Rio de Janeiro estão em amarelo, este último, no entanto, com tendência de agravamento do quadro e taxa de ocupação de leitos de UTI em 79%.

No boletim, os pesquisadores defendem a adoção rigorosa de ações de prevenção e controle, como o maior rigor nas medidas de restrição às atividades não essenciais, com ampliação do distanciamento físico e social, uso de máscaras em larga escala e aceleração da vacinação.

"Esse conjunto de ações se faz necessário de forma coordenada e com monitoramento do panorama epidemiológico nos estados, até que a vacinação seja intensificada e atinja uma ampla cobertura vacinal. Também é importante a comunicação efetiva dos riscos de transmissão, cuidados necessários e a justificativa das medidas", afirma a entidade.

A publicação desta edição do boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz se deu simultaneamente ao anúncio, pelo governador Renato Casagrande (PSB), da quarentena de 14 dias em todo o Espírito Santo, devido ao risco extremo atingido em função da ocupação de 91% dos leitos de UTI dedicados aos doentes pelo coronavírus.

Alinhada com as recomendações da Fiocruz nesse momento trágico da pandemia em território brasileiro, a epidemiologista e professora-doutora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel afirma que "as medidas anunciadas pelo governo do Estado são insuficientes diante do colapso em que nós estamos".

Integrante do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE), que assessora tecnicamente o governo do Espírito Santo no enfrentamento da pandemia de Covid-19, a cientista descreveu, em suas redes sociais, a gravidade do quadro atual: "colapso significa que não vai ter leito, que as pessoas vão morrer na porta dos hospitais, das unidades de saúde, como nós acompanhamos acontecer no mundo e aqui no Brasil. Estamos vendo isso acontecer em outros estados. Isso é colapso. Colapso é não ter leito para ninguém, nem para aqueles que podem pagar, nem pra aqueles que podem comprar um hospital. Não tem leito que o dinheiro possa comprar. Nós estamos nesse colapso", alertou.

Um ponto que precisa ser revisado urgentemente, salienta Ethel, é a lista de atividades essenciais estabelecidas no Decreto nº 4838-R, de 17 de março de 2021. Em número de 24, elas incluem atividades hoteleiras e religiosas.

"As atividades consideradas como essenciais precisam ser revistas. O que nós precisamos agora é exigir do governo federal que ele tenha um plano pra ajudar os micro e pequenos empresários, ajudar as pessoas. O auxílio de R$ 150 é insuficiente", conclamou. "Os governos estaduais precisam brigar por isso. Ninguém faz uma medida de confinamento, de quarentena compulsória, porque quer. Faz porque não tem opção, porque a única estratégia é essa num momento em que a gente não tem vacinas", pontuou.

Também refletindo as recomendações da Fiocruz, Ethel Maciel destaca a necessidade de o Estado induzir algumas atitudes por parte das empresas, como ampliar a frota de ônibus, no caso específico do transporte coletivo – no Espírito Santo, o governo afirma que, apesar da esperada redução da demanda, devido às medidas de restrição de atividades sociais e econômicas, vai garantir 100% da frota do Transcol circulando na Grande Vitória – e, de forma mais geral, que todas as empresas, na medida do possível, reduzam o número de trabalhadores por turnos, para "diminuir a interação social" dentro das organizações e empresas.

Sobre as medidas relacionadas diretamente à gestão da saúde, é preciso ampliar a testagem e reduzir o tempo de espera dos testes diagnósticos, "que estão demorando muito", para que se possa "isolar as pessoas positivas o mais rápido possível".

Máscaras filtrantes

O uso de máscaras é outro ponto de destaque nas recomendações da Fiocruz. "Nós precisamos de recomendações oficiais sobre utilização de máscaras", salientou, reafirmando a necessidade da adoção em larga escala das máscaras filtrantes – Peça Facial Filtrante (PPF2) ou N95. Como o SUS não está fazendo a distribuição dessas máscaras, a recomendação é para que todos que possam comprar, que o façam para uso pessoal e de familiares. E todas as empresas que puderem, que as distribuam para seus empregados.

"Nós precisamos de mudanças que já sabemos cientificamente que são efetivas para prevenir a infecção", rogou a cientista.

De fato, o boletim da Fiocruz traz dados sobre o uso correto de máscaras. As de pano com multicamadas podem diminuir entre 70%-80% o risco de infecção. O uso delas ou das máscaras PFF2 ou N95 por 80% ou mais da população proporciona uma redução muito acentuada da transmissão, mas se somente 50% da população utilizá-las, a redução será mínima.

"A combinação de elevados percentuais de uso de máscaras combinadas com medidas de distanciamento físico e social tem resultado em maior controle da transmissão. Se regulamentações governamentais sobre o uso de máscaras são importantes, sozinhas são insuficientes, devendo ser realizadas campanhas sobre a importância do uso e como usar, além da distribuição gratuita de máscaras em larga escala", recomenda a Fiocruz.

Reduza as interações diárias

Diante de medidas ainda insuficientes por parte dos governos estaduais, em função, em grande medida, da falta de apoio do governo federal, o apelo é para que as pessoas diminuam o número de interações por dia. "Se é possível ir ao trabalho de bicicleta, vá de bicicleta, evite o transporte coletivo. Se você pode trabalhar de casa, negocie com seu empregador. Nós precisamos que, todos que puderem, reduzam o número de pessoas que encontram por dia. É isso que a gente precisa fazer pra diminuir essa transmissão acelerada do vírus e poupar vidas".

Recordes de mortes e casos diários

O Observatório Covid-19 da Fiocruz aponta que a última semana apresentou números recordes de casos e de óbitos pela doença. "Foram registrados no País uma média de 71 mil casos diários e 1,8 mil óbitos por dia na última semana epidemiológica (7 a 13 de março)". O Painel Covid do governo federal dessa terça-feira (16) mostrou que, em 24 horas, houve 2.841 mortos e 83.926 casos novos no país, totalizando 282.127 e 11.603.535 até o momento.
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Nas três últimas semanas (desde 21 de fevereiro, Semana Epidemiológica 8/2021), o número de casos cresce a uma taxa de 1,5% ao dia, e o número de óbitos por Covid-19 aumenta em 2,6% ao dia, "valores elevados se comparados à primeira fase da pandemia no Brasil", ressalta a Fundação, que menciona o agravamento da condição de saúde também de pessoas não contaminadas pelo SARS-CoV-2, mas que não estão podendo acessar o serviço de saúde já colapsado pela pandemia; bem como os graves adoecimentos dos trabalhadores da saúde, exauridos pelas jornadas excessivamente longas e as más condições de trabalho, sem sequer poder contar com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados.

Com base na Carta dos Secretários Estaduais de Saúde à Nação Brasileira, a Fiocruz elenca medidas urgentes a serem adotadas no país: proibição de eventos presenciais como shows, congressos, atividades religiosas, esportivas e correlatas em todo território nacional; suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país; toque de recolher nacional a partir das 20h até as 6h da manhã e durante os finais de semana; fechamento das praias e bares; adoção de trabalho remoto sempre que possível, tanto no setor público quanto no privado; instituição de barreiras sanitárias nacionais e internacionais, considerados o fechamento dos aeroportos e do transporte interestadual; redução da superlotação nos transportes coletivos urbanos; e ampliação da testagem e acompanhamento dos testados, com isolamento dos casos suspeitos e monitoramento dos contatos.

O exemplo de Araraquara 

O boletim ressalta ainda o exemplo do município de Araraquara, em São Paulo, que conseguiu sair do estado crítico com a adoção de um lockdown. "Entre 21 de fevereiro e 10 de março (17 dias), a média móvel diária de novos casos de Covid-19 caiu de 189,57 para 108, uma redução de 43,02%". Em relação às internações hospitalares, "entre a semana epidemiológica que vai de 15 a 21 de fevereiro (início do lockdown), e a que vai de 1◦ a 7 de março (14 dias depois), houve uma redução de 28,78% de novos casos por semana epidemiológica".

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