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Sexta, 23 Outubro 2020

Internados na rede pública tiveram oito vezes mais chance de morrer

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"As pessoas [com Covid-19] internadas na rede pública hospitalar [do Espirito Santo] tiveram uma chance superior a oito vezes de morrer, quando comparadas àquelas internadas na rede privada". O motivo principal está em um estado de saúde pregresso mais fragilizado pelo acompanhamento não satisfatório de doenças pré-existentes, especialmente cardíacas, renais, hepatites, diabetes mellitus, imunológicas, infecção pelo HIV, neoplasias, tabagismo e neurológicas crônicas. 

A conclusão é do estudo Fatores associados ao óbito hospitalar por Covid-19 no Espírito Santo, elaborado pelos pesquisadores Ethel Maciel, Etereldes Gonçalves, Ricardo Tristão Sá, Rita de Cássia Duarte Lima, Bárbara Reis-Santos e Eliana Zandonade, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); Pablo Jabor e Pablo Lira, do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN); e Elda Bussinger, da Faculdade de Direito de Vitória (FDV). 

O estudo analisou as pessoas cujos desfechos hospitalares se encerram até 14 de maio. Das 889 que haviam se internado nos hospitais capixabas até a data, 200 receberam alta e 220 foram a óbito, sendo a primeira internação ocorrida em 26 de fevereiro e o primeiro óbito em 20 de março.

No perfil das pessoas internadas, destaca-se que 57,1% eram do sexo masculino, 46,4% tinham mais de 60 anos de idade e 81,7% residiam na região metropolitana de Vitória. A maioria, 57,9%, foi notificada por instituição privada, e 61,7% apresentaram pelo menos uma comorbidade. A média de idade foi de 47,4 anos para o grupo das pessoas que receberam alta e de 66,5 anos para o grupo de pessoas que foram a óbito.

Revelaram-se como principais fatores associados ao óbito: a faixa etária mais alta, ser notificado por instituição pública, o número de comorbidades e a existência de algumas doenças prévias, sendo possível observar que indivíduos notificados por instituições públicas eram mais velhos (mais de 60 anos) e apresentavam mais comorbidades.

De posse dos dados, os pesquisadores calcularam as chances de morte de duas formas diferentes, a primeira levando em consideração se a instituição de internação era privada ou pública, e a segunda desconsiderando esse aspecto.

O exercício evidenciou que "não foi o fato de estar internado em uma instituição pública ou privada que determinou o desfecho 'óbito' e sim as condições prévias à entrada no sistema de saúde, entre as quais as comorbidades associadas à Covid-19, como tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão e obesidade, entre outras", enfatizam os autores.

Da mesma forma, argumentam, foi observado maior número de comorbidades e média de idade superior em casos atendidos por instituições públicas e que evoluíram para óbito. "Se é razoável supor a presença de maior número de comorbidades entre pessoas de maior média de idade, também é preciso questionar se, de fato, indivíduos provenientes da rede pública chegaram em estado mais grave, se a prevenção e controle das comorbidades nas instituições públicas é menos adequada", argumentam os cientistas.

Sob essa perspectiva, salientam, "conclui-se que o SUS [Sistema Único de Saúde], dotado de capilarizada rede de Atenção Primária, tem papel fundamental na prevenção e controle dessas doenças", acentuando a importância de reconhecer "que todos os brasileiros utilizam o SUS, alguns de forma exclusiva, outros como complementação aos planos privados por eles contratados".

A população mais vulnerável do ponto de vista socioeconômico, afirmam os cientistas, encontram "mais dificuldade para perceber a importância do autocuidado, do acesso aos serviços de saúde e aos níveis de maior complexidade no SUS como seu direito adquirido".

Ao enfatizar as causas históricas dessa vulnerabilidade, os pesquisadores remontam ao período entre fins da década de 1970 e os primeiros anos 1980, quando o Estado "sofreu da ausência de políticas sociais e de um planejamento territorial-urbano adequado", o que favoreceu "o encadeamento de processos e fatores de aprofundamento da desigualdade territorial, da degradação urbana e da qualidade de vida e saúde na cidade".

No cenário nacional, os autores enfatizam como causas do aprofundamento das desigualdades sociais e da menor possibilidade de acesso ao SUS, o "desfinanciamento, da ordem de R$ 1,7 bilhões, promovido entre os anos de 2014 e 2015, agravado pela Emenda Constitucional (EC) nº 95, publicada em 2016, que estabeleceu, entre outras medidas, o teto do gastos públicos com saúde, implica evidentes restrições à consecução das atividades regulares do SUS, dificultando ainda mais uma resposta adequada à pandemia".

A pandemia de Covid-19, alertam os pesquisadores, "enfatiza a necessidade de criar mecanismos legais, para pleno financiamento do Sistema Único de Saúde, de forma à Nação Brasileira estar mais preparada para as próximas situações de crise sanitária, previsíveis em um mundo cada vez mais globalizado".

Aglomerados subnormais

Atualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Espírito Santo é o segundo estado com maior percentual de pessoas vivendo em situações precárias, nos chamados aglomerados subnormais: 26,1%, atrás apenas do Amazonas, com 34,59%.

Em uma pesquisa no Painel Covid-19 Síntese por Município, Cariacica aparece com 61% de aglomerados subnormais, o maior percentual entre os municípios mais populosos da Grande Vitória: Vitória (33,16%), Serra (36,31%) e Vila Velha (29,98%). 

Santa Maria de Jetibá, com sua economicamente baseada na agricultura familiar, tem apenas 0,48% e o município menos populoso do Estado, Divino de São Lourenço, tem 4,08%, percentual mais próximo de capitais do sul do país, como Curitiba/PR (6,49%) e Florianópolis/SC (6,81%). Manaus, a capital do Amazonas, estado no triste primeiro lugar do ranking, aparece com 53,38%, e as duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, estão bem abaixo da capital capixaba, com 12,91% e 19,28%, respectivamente.

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