Domingo, 26 Junho 2022

'Não podemos errar de novo. Teremos outras pandemias e a Covid ainda está aí'

ethel_secom Secom/Gov ES
Secom/Gov ES

O que precisa ser feito diante da decisão do governo federal de decretar o fim do estado de emergência em Covid-19, à revelia da Organização Mundial de Saúde (OMS)? A questão foi discutida na tarde desta quarta-feira (20) em um webinar promovido pelo Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com o tema "A pandemia de Covid-19 em transição", liderado pelo coordenador do Observatório, Carlos Machado, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da entidade (Ensp/Fiocruz).

A partir do aprendizado obtido nesses dois anos pandêmicos, os pesquisadores se propuseram a abordar questões como: "há a possibilidade de uma regularidade em termos de casos e, possivelmente, um período endêmico à frente? Com o avanço da vacinação, é possível esperar novas ondas? Com a queda de casos, internações e óbitos, podemos considerar que o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional está próximo?".

Uma das quatro palestrantes do debate, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e doutora em Epidemiologia Ethel Maciel apoiou a reivindicação feita nessa terça-feira (19) pelo Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass), presidido pelo secretário capixaba, Nésio Fernandes, para que seja criado um plano de transição, durante um período de 90 dias, para que estados e municípios possam se adequar à próxima fase da pandemia, para a qual o País caminha graças ao avanço da vacinação. 

"Não basta revogar o decreto, é preciso um plano de transição! Precisamos preparar terreno para o fim da pandemia e a convivência com o vírus. É urgente uma coordenação nacional para a implantação de medidas operacionais com um período de 90 dias para essa estruturação. A gente não pode errar de novo. Teremos outras pandemias e epidemias e a própria Covid que ainda está aí", expôs Ethel Maciel no evento da Fiocruz.

A cientista mencionou a estimativa global de que mais de 50% da população já tenha entrado em contato com o vírus, havendo ainda as pessoas vacinadas e a imunidade híbrida, em que o organismo já contraiu a doença e também recebeu o imunizante. "Mas ainda não sabemos a duração dessa imunidade, depende do impacto de novas variantes", ressalvou, acrescentando ainda dificultadores específicos do SARS-CoV-2, especialmente a existência de grande número de infectados assintomáticos e de reinfecções com muito mais frequência do que as provocadas por outros vírus. 

'Recursos extraordinários precisam ser ordinários'

"A grande preocupação com a revogação do decreto é o fechamento das estruturas criadas para o combate à pandemia. Nós precisamos da garantia de manutenção das estruturas criadas, os profissionais contratados, os laboratórios estabelecidos para o monitoramento da Covid...os recursos extraordinários precisam ser ordinários", defendeu. 

Outras ações urgentes que precisam ser tomadas antes da revogação do decreto, prosseguiu, têm como destaque a criação de um Instituto Nacional de Monitoramento de Emergências em Saúde Pública, que tenha investimento robusto, seja interdisciplinar e tenha autonomia, para não ficar à mercê de desmandos políticos. 

Além disso, é preciso implantar uma estratégia de vigilância de Síndromes Respiratórios Agudas Graves (SRAGs) integrada à Covid e, acima de tudo, "fortalecer o SUS [Sistema Único de Saúde]". Dentro dessa estratégia, precisa ser viabilizada a disponibilidade de medicamentos efetivos no SUS; e a criação de protocolos de atendimentos em todos os níveis de atenção à saúde (primária, secundária e terciária/hospitalar). 

"É uma vergonha o Brasil não ter ainda um protocolo de atendimento para todos os níveis de atenção à saúde: que medicamentos utilizar, como aferir a gravidade da doença...os protocolos foram feitos por um grupo de trabalho, mas não estão disponíveis. A gente não sabe sequer como a vacina contra Covid vai ser incorporada no calendário nacional de vacinação!", exclamou, enfatizando a urgência em promover campanhas efetivas sobre necessidade de doses de reforço semestrais ou anuais. 

A vigilância epidemiológica foi outro ponto enfatizado pela epidemiologista. É preciso fortalecê-la em todas as instâncias da saúde – realizando avaliações periódicas a cada 90 dias, como adotado em países desenvolvidos – para rastrear a disseminação e a evolução da Covid-19, detectar e caracterizar as novas variantes e, dessa forma, adotar medidas sociais e de saúde pública necessárias.  

A lição do Zika vírus

Mencionando a fala anterior sobre o zika vírus, feita pelo coordenador do Programa de Computação Científica da Fundação (Procc/Fiocruz), Daniel Villela, Ethel salientou a importância de implantar serviços para atendimento das sequelas da Covid. "Hoje há muitas crianças com sequelas do zika vírus e com dificuldade de conseguir atendimento, porque não foram criados serviços específicos pra dar continuidade a essa emergência de saúde pública. A emergência foi revogada e as crianças ficaram desassistidas", apontou. 

A acadêmica falou ainda sobre a lamentável e falsa dicotomia criada no Brasil entre economia e saúde pública, "entre o 'fique em casa' e o 'abre tudo, por conta da economia'". "Foi o pior dos nossos erros", sublinhou. A ciência, afirmou, tem produzido muito conhecimento e esse conhecimento precisa ser aplicado em benefício da população, sem desvios políticos que descaracterizem a possibilidade de sucesso das medidas. "São mais de 249 mil artigos científicos publicados sobre Covid-19 nesses dois anos, ou seja, mais de 340 artigos por dia!". 

Devido a essa falsa dicotomia, o Brasil estacionou na primeira das quatro fases da pandemia, negligenciou as duas seguintes, e está querendo saltar diretamente para a quarta fase, de transição para o fim da emergência pandêmica e o estabelecimento de uma fase de endemia. 

Capacidade de resposta

"O País sempre teve excelentes sanitaristas, sempre fomos muito bons em fazer vigilância epidemiológica e assistência primária. Mas na pandemia houve um enfraquecimento. Estados tiveram que trabalhar sozinhos, sem coordenação nacional, e investiram basicamente em leitos hospitalares, que é a medida mais cara e contrária à forma como a OMS recomendou desde o início e que alguns países fizeram: teste, isolamento precoce, rastreamento dos contatos", explanou.

Numa pseudo Fase 3, o Brasil privilegiou a abertura de comércios, serviços e igrejas, e abandonou a Educação. "Foi colocado um grande esforço na economia e nenhum na educação. As escolas foram as últimas a voltar, porque não tiveram nenhum investimento".  

E assim, tropeçando, errando e insistindo em erros primários e cruéis, o Brasil chegou a atual Fase 4, de transição, caracterizada pelo crescimento da vacinação e pela chegada de medicamentos eficientes para tratamento da doença, mas com expectativa de uma possível nova onda. 

"Precisamos ter capacidade de responder aos próximos cenários", alertou. No momento, no entanto, o mundo ainda discute quais os consensos primordiais. "Nós não temos consenso internacional, isso está sendo construído. Quais são os parâmetros aceitáveis para a mudança de pandemia para endemia? Essa é a maior dificuldade para entrarmos de fato na fase endêmica. Mas estamos na transição".

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Comentários: 1

Seu Madruga em Quarta, 20 Abril 2022 23:44

Cala a boca, “especialista”.

Cala a boca, “especialista”.
Visitante
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