quinta-feira, abril 9, 2026
26.2 C
Vitória
quinta-feira, abril 9, 2026
quinta-feira, abril 9, 2026

Leia Também:

Fórum aponta falha do Estado após PM afastado voltar a matar LGBTs

Luiz Gustavo Xavier do Vale era investigado por morte de mulher trans em Cariacica

“A permanência na corporação de um agente já investigado sinaliza uma autorização implícita para a violência. A reincidência não é um erro isolado, mas prova de que as instituições falham em monitorar e afastar perfis problemáticos”. A avaliação é da coordenadora do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros no Espírito Santo (Fonatrans-ES), Agatha Benks, sobre o caso do policial militar que matou duas mulheres em Cariacica, nessa quarta-feira (8), e que já era investigado pela morte da mulher trans conhecida como Lara Croft, em 2022.

O episódio, que ocorreu no bairro Cruzeiro do Sul, reacendeu o debate sobre violência institucional e o papel das forças de segurança, com o agravante de a ocorrência ter sido efetivada para resolver um problema pessoal. O autor dos disparos, o cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, estava afastado das atividades operacionais desde o primeiro caso, mas seguia atuando internamente.

Mesmo nessa condição, ele deixou o posto para atender a ocorrência envolvendo sua ex-companheira, que terminou com as duas vítimas fatais. As circunstâncias levantam questionamentos sobre o controle interno da corporação e os critérios adotados para monitoramento de agentes sob investigação, denuncia o Fonatrans.

Redes sociais

Para o fórum, o caso não pode ser analisado de forma isolada. A reincidência, segundo o movimento, evidencia falhas estruturais no acompanhamento desses militares e aponta para uma negligência institucional que pode ter consequências fatais. “Há uma crítica constante sobre como as academias de polícia preparam – ou deixam de preparar – os agentes para lidar com a diversidade”, aponta Agatha.

O fato de um policial investigado voltar a se envolver em caso similar mostra que o treinamento em direitos humanos é insuficiente ou meramente protocolar, sem impacto real na conduta operacional”, completa. Ela classifica a situação como resultado de uma negligência atravessada por preconceito. “Houve negligência reforçada de LGBTfobia, com o extermínio de uma mulher trans e de mulheres lésbicas por um único policial”, reforça.

Em 2022, ele foi responsável por atirar contra a mulher trans conhecida como Lara Croft, no bairro Alto Lage, também em Cariacica. Na época, a versão apresentada foi de que a vítima teria tentado atacar os agentes com um barbeador. Moradores da região, no entanto, contestaram e afirmaram que a abordagem foi violenta e sem justificativa. O caso foi denunciado ao Ministério Público Estadual (MPES) e segue em tramitação na Justiça, sem desfecho até o momento.

A demora no andamento do processo também é alvo de críticas. Para o Fonatrans, a lentidão reforça a sensação de impunidade e contribui para a repetição de episódios de violência. “Foi um caso de negligência, transfobia e transfeminicídio”, define a porta-voz do fórum, ao comentar a morte de Lara.

A atuação das forças de segurança no Espírito Santo é vista pelo movimento como marcada por contradições. Apesar de avanços pontuais em protocolos e investigações, persistem denúncias de abusos, especialmente contra travestis e mulheres trans. “Há relatos recorrentes de abordagens violentas contra travestis e mulheres trans nas periferias”, afirma a coordenadora.

Agatha Benks cobra mudanças na política de segurança pública. Foto: Acervo Pessoal

Esse cenário contribui para um efeito direto: o afastamento dessa população dos canais formais de denúncia. “O medo da polícia faz com que essa população evite denunciar, por receio de acabar sofrendo outra violência”, afirma. A consequência é a subnotificação de casos, que dificulta a construção de um retrato fiel da violência enfrentada pela população LGBT+ no Estado.

Dados recentes apontam uma redução significativa nos homicídios no Espírito Santo. Em 2025, o Estado registrou 796 assassinatos, o menor número desde o início da série histórica, iniciada em 1996. Foi a primeira vez em quase três décadas que o total ficou abaixo de 800 casos anuais. Apesar da queda, o Fonatrans alerta que os números não refletem toda a complexidade da violência.

“Os homicídios são crimes mais difíceis de esconder, mas a subnotificação continua sendo um problema crítico para outros tipos de violência. Isso mascara a real sensação de insegurança”, avalia Agatha, que considera que a redução nos índices gerais não necessariamente significa que grupos historicamente vulnerabilizados estejam mais protegidos.

Diante do caso, os movimentos sociais cobram mudanças estruturais na política de segurança pública. “O que estamos cobrando é uma segurança pautada nos direitos humanos e comprometida em combater as violências contra a população LGBTQIA+”, ressalta Agatha. Para o fórum, também é necessário rever a forma como a segurança pública se relaciona com essa população. A lógica, segundo Agatha, precisa deixar de ser repressiva. “A segurança só será efetiva quando deixar de ser vista como força de repressão e passar a ser uma rede de proteção que reconheça a vulnerabilidade específica desses corpos”, defende.

O caso também expõe a ausência de políticas públicas estruturantes voltadas à população trans no Brasil, observa a liderança. “O desafio hoje não é mais apenas o reconhecimento da existência, mas a criação de mecanismos práticos que garantam sobrevivência econômica e segurança física”, pontua.

Entre as principais lacunas apontadas estão a ausência de uma lei federal de identidade de gênero; a falta de políticas de empregabilidade; e a inexistência de uma rede ampla de acolhimento para pessoas expulsas de casa. Também são citadas a necessidade de protocolos específicos para atendimento policial, investimentos no processo transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS), e políticas educacionais que combatam a evasão escolar. Outro ponto crítico é a ausência de políticas voltadas ao envelhecimento dessa população, cuja expectativa de vida no Brasil ainda é considerada baixa, reflexo de um histórico de exclusão e violência.

Mais Lidas