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Morte de Dante Michelini reacende disputas sobre Caso Araceli

Renomeação de avenida em Vitória deverá entrar novamente em pauta na Câmara

Arquivo

A Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES) confirmou, nesta quinta-feira (5), a identidade de um homem de 75 anos encontrado decapitado em um sítio de Meaípe, em Guarapari, na última terça-feira (3). Apesar de não ter sido divulgado oficialmente o nome da vítima, a própria família informou que se trata de Dante Brito Michelini, o Dantinho, que chegou a ser condenado em 1970 pelo assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo. A morte de Dantinho, cujo corpo apresentava sinais de violência, reacende disputas em torno do Caso Araceli.

Nesta quinta-feira, poucas horas após as notícias sobre o falecimento, o vereador de extrema direita Armandinho Fontoura (PL) protocolou na Câmara de Vitória o Projeto de Lei 27/2026, propondo a troca do nome da avenida Dante Michelini.

A avenida de Camburi homenageia a família de dois dos principais envolvidos no crime brutal: o próprio Dantinho e seu pai, Dante de Barros Michelini. Paulo Constanteen Helal, o Paulinho, também estava entre os acusados do crime. Entretanto, ao contrário da reivindicação histórica para que a via receba o nome de Araceli Cabrera Crespo, Fontoura propôs a renomeação para… “Avenida Governador Gerson Camata”.

Armandinho justificou dizendo que Gerson Camata é uma “figura de grande relevância histórica, política e social para o Espírito Santo e para o Brasil”, tendo sido “o primeiro governador eleito diretamente no Espírito Santo no período da redemocratização, exercendo mandato entre 1983 e 1986, além de ter representado o Estado no Senado Federal por aproximadamente 24 anos”.

Assim, segundo o vereador, “homenageá-lo em Vitória não é apenas um tributo, mas um ato de educação cívica. Uma avenida que carrega seu nome conta uma história, inspira futuras gerações e fortalece nosso vínculo com personalidades que moldaram nosso caminho coletivo. É manter viva a memória de um líder que, do município ao Senado Federal, sempre representou o Espírito Santo com destemor e paixão”.

Entretanto, essa não é a primeira vez que se tenta mudar o nome da avenida. Em 2018, chegou a ser aprovado na Câmara a realização de um plebiscito para que a população de Vitória votasse sobre o tema diretamente, mas que acabou vetado pelo prefeito da época, Luciano Rezende (do PPS, hoje Cidadania). Em 2023, o então vereador André Moreira (Psol) tentou retomar o debate sobre o assunto.

Em comunicado à imprensa, Armandinho comentou que o Caso Araceli “é uma chaga aberta na cidade de vitória e a mudança será um combate frontal contra estupradores e pedófilos”. Mas não explicou a razão de não escolher justamente o nome da vítima para o seu projeto de rebatizar a avenida.

No Caso Araceli, a influência das famílias dos acusados é apontada como principal fator para que eles escapassem impunes de um crime bárbaro. Se a proposta de Armandinho for aprovada, em vez da sonhada reparação simbólica, a renomeação apenas servirá para exaltar mais um “poderoso”, mesmo que nesse caso não se trate de um criminoso.

Denúncia à OEA

Para além da reparação simbólica, 50 anos após o crime, em 18 de maio de 2023, o assassinato de Araceli foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH) e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase-ES) cobram “reparação histórica” e que o Estado brasileiro seja responsabilizado internacionalmente por omissão e violações.

O movimento de Direitos Humanos requer à OEA que o Estado Brasileiro apresente ações como a obrigação de investigar o caso; imponha medidas disciplinares, administrativas ou penais às ações ou omissões de funcionários estatais que tenham interferido na investigação; e estabeleça medidas de reparação integral dos direitos humanos de crianças e adolescentes no enfrentamento às violências sexuais contra a população infanto-juvenil.

Em 15 de maio do ano passado, o MNDH reforçou a denúncia à OEA. Segundo o movimento nacional, mesmo depois de mais de 25 anos da aprovação da Lei 9.970/2000, que institui o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – em referência ao dia da morte de Araceli -, “ainda há muito a ser feito para o enfrentamento efetivo das violências sexuais no Brasil”.

O caso

Araceli tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada. A menina morava em Bairro de Fátima, na Serra, de onde saiu para ir à escola, na Praia do Suá, em Vitória. Após sair do colégio, foi vista por um adolescente em um bar entre o cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória. Depois disso, Araceli não foi mais vista. À noite, o pai, Gabriel Sanchez Crespo, iniciou as buscas.

Em 24 de maio, dias após o desaparecimento, o corpo de uma criança foi encontrado desfigurado e em avançado estado de decomposição em uma mata atrás do Hospital Infantil, em Vitória. Diante dos fatos apresentados pela denúncia do promotor Wolmar Bermudes, a Justiça chegou a três principais suspeitos: Dante de Barros Michelini, conhecido como Dantinho; seu pai, Dante de Brito Michelini; e Paulo Constanteen Helal, todos membros de tradicionais e influentes famílias do Espírito Santo.

A acusação alegou que Araceli foi raptada por Paulo Helal no bar que ficava entre os cruzamentos da rua Ferreira Coelho e César Hilal, após sair do colégio. Além disso, foi afirmado que no mesmo dia, a menina teria sido levada para o Bar Franciscano, na Praia de Camburi, pertencente a Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob o efeito de drogas. Devido ao excesso de substâncias em seu corpo, Araceli teria entrado em coma e levada ao hospital, local onde já chegou morta. Paulo Helal e Dante Michelini teriam jogado o corpo da menina em uma mata atrás do Hospital Infantil.

Na época, chegou a ser apontado que Dante Michelini se apoiou em suas ligações e influência com a polícia local para dificultar as investigações. Além disso, testemunhas-chave do processo morreram durante as investigações.

Após a prisão, os três foram condenados em primeira instância, mas depois absolvidos pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJES), sob alegação de “falta de provas”. Na denúncia feita à OEA, consta que o sargento José Homero Dias, quando estava prestes a finalizar as investigações, foi morto com tiros nas costas, e assim o caso ficou esquecido por algum tempo.

Recorda ainda que Clério Falcão, vereador que se elegeu deputado estadual com a promessa de levar o caso Araceli ao fim, conseguiu a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia. A CPI concluiu que houve de fato omissão da polícia local, interessada em manter distantes de suas investigações os reais assassinos, que eram figuras de prestígio.

Agora, mais de 50 anos depois, é a morte de Dantinho que terá que ser desvendada. Segundo a Polícia Civil do Estado, em nota para Século Diário, “o caso segue sob investigação da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Guarapari. Até o momento, nenhum suspeito foi detido e detalhes da investigação não serão divulgados, no momento”.

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