Delegado-geral José Arruda afirma que cabeça foi encontrada em canal de Guarapari

A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) prendeu o acusado de assassinar Dante Brito Michelini, o “Dantinho”, um dos investigados por raptar, estuprar e matar a menina Araceli Cabrera Crespo em 1973. Willian Santos Manzoli, de 28 anos, confessou o crime. Ele é da Bahia, e estava em Guarapari desde o fim do ano passado.
Em comunicado à imprensa nesta quarta-feira (11), o delegado-geral da PCES, José Darcy Arruda, afirmou que a polícia localizou um “rapaz” na tarde dessa terça (10) que “supostamente poderia ter sido o autor do crime”. “Ao ser interrogado”, relatou Arruda, “ele confessa o crime e, de fato, foi ele o autor”. A cabeça decepada foi encontrada em um canal de Guarapari, a cinco metros de profundidade, após diligências realizadas na manhã desta quarta-feira.
Em coletiva de imprensa, os representantes da Polícia Civil disseram que o homem cometeu o crime por “vingança”, no dia 20 de janeiro. O suspeito praticava pequenos furtos na região e tinha sido encontrado dormindo no sítio de “Dantinho”, que o bateu com pauladas. Depois disso, o homem teria sido alvo de deboches entre outros criminosos na boca de fuma por ele ter apanhado de um “estuprador”.
Com isso, ele planejou voltar até o sítio, de acordo com a PCES. Após cortar a cerca e entrar no local, encontrou com “Dantinho” e entrou em luta corporal com ele, momento em que começou a decepar a vítima quando ele ainda estava vivo. Depois, fugiu com uma bicicleta que pegou emprestado de outra pessoa com a cabeça em uma sacola, que depois jogou no canal.
O suspeito acabou preso por descumprimento de medida protetiva no dia 28 de janeiro. As investigações chegaram até ele após analisar possíveis autores de furtos na região e o encontrarem no presídio com feridas pelo corpo. Todo o relato do homem foi corroborado pelos vestígios encontrados.
O corpo de “Dantinho” Michelini foi encontrado decapitado e parcialmente queimado em um sítio de Meaípe, no último dia 3. O caso reacendeu as disputas em torno do Caso Araceli. Nessa segunda-feira (9) a Câmara de Vereadores voltou a discutir propostas que visam a renomeação da avenida Dante Michelini.
A avenida Beira-Mar, em Vitória, foi denominada Dante Michelini por meio da Lei 1.701/1967, fazendo referência ao influente comerciante de Vitória que teria “doado” a área ao Poder Público. Seis anos depois, ocorreu o crime brutal contra a menina Araceli Cabrera Crespo, de apenas 8 anos.
Na época, o promotor Wolmar Bermudes chegou a três principais suspeitos: Dante de Barros Michelini, conhecido como “Dantinho”, e seu pai, Dante de Brito Michelini, neto e filho do homem que deu nome à avenida, respectivamente; e Paulo Constanteen Helal. Todos em membros de tradicionais e influentes famílias do Espírito Santo.
A acusação alegou que Araceli foi raptada por Paulo Helal no bar que ficava entre os cruzamentos da rua Ferreira Coelho e César Hilal, após sair do colégio. Além disso, foi afirmado que no mesmo dia, a menina teria sido levada para o Bar Franciscano, na Praia de Camburi, pertencente a Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob o efeito de drogas. Devido ao excesso de substâncias em seu corpo, Araceli teria entrado em coma e foi levada ao hospital, local onde já chegou morta. Paulo Helal e Dante Michelini teriam jogado o corpo da menina em uma mata atrás do Hospital Infantil.
Os três chegaram a ser condenados em primeira instância, mas depois foram absolvidos pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJES) por “falta de provas”. A investigação também enfrentou diversos obstáculos, inclusive mortes misteriosas de testemunhas-chave.
Ao longo dos anos, cresceu a luta para que a avenida Dante Michelini trocasse de nome, como forma de reparação simbólica pela impunidade. O assassinato de Araceli também foi denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH) e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase-ES) cobram “reparação histórica” e que o Estado brasileiro seja responsabilizado internacionalmente por omissão e violações.
Mais de 50 anos depois, “Dantinho” também morreu de forma violenta. Entretanto, ao contrário do Caso Araceli, o mistério sobre a sua morte, ao que tudo indica, foi rapidamente solucionado.

