Terça, 16 Agosto 2022

'Projeto da Casa Cor causará danos ao patrimônio cultural', diz Instituto de Arquitetos

forte_sao_francisco_FotoLeonardoSa Leonardo Sá

O Instituto de Arquitetos do Brasil no Espírito Santo divulgou um manifesto "pela proteção do Forte de São Francisco Xavier", em Vila Velha, em que aponta preocupação com o projeto "Casa Cor 2022 – Vista do Forte". A entidade afirma que a iniciativa propõe uma intervenção que "na análise técnica dos arquitetos deste instituto, causará danos ao patrimônio cultural".

Leonardo Sá

Conforme consta nas redes sociais do evento, as arquitetas Natiele Dalbó e Patrícia Palhano irão assinar um ambiente na Casa Cor Espírito Santo. "O grande diferencial do ambiente premiado em relação aos demais da mostra é que o projeto não será desmontado, ele ficará como instalação permanente no Forte São Francisco Xavier, mesmo depois de terminada a mostra", afirma.

A Casa Cor Espírito será realizada de 21 de setembro a 20 de novembro, no 38° Batalhão de Infantaria, localizado na Prainha. No local serão construídos cerca de 40 ambientes projetados por arquitetos. O projeto, segundo informações do site do evento, "compreende uma área extensa do 38º BI, que envolve diversos imóveis, entre eles o Forte São Francisco Xavier da Barra".

Com base nas imagens do projeto, publicadas nas redes sociais, o Instituto analisa que "a estrutura proposta secciona a compreensão do edifício como um todo, alterando a imagem consolidada do bem". Ressalta ainda que "o elemento proposto muda a escala da edificação, achatando a muralha dos canhões, projetando-se sobre ela e se impondo sobre ela, destacando-se na paisagem e interferindo na visibilidade do bem cultural que resulta ocultado pela estrutura proposta. Este novo elemento atrai o olhar do espectador para si e coloca em pano de fundo o mais importante elemento de um forte: sua muralha com seus canhões".

O manifesto prossegue dizendo que "a estrutura é ainda toda engastada na parede da fachada do forte". E questiona: "mas aguentaria esse edifício de três séculos, o peso desta nova estrutura chumbada nas suas paredes e no seu piso? Qual o impacto que esse engastamento pode causar nas paredes do ponto de vista da estabilidade?".

O Instituto também aponta que no pátio do forte há uma "estrutura proposta que se sobrepõe visualmente sobre a edificação, concorrendo com ela, seccionando-a, mudando a sua escala".
Casa Cor

Alguns dos riscos da intervenção, denuncia o manifesto, são perda do material construtivo; alteração da tipologia arquitetônica com modificações de vãos, cômodos etc; perda de vestígios arqueológicos relevantes que demonstrem a evolução da construção ao longo dos séculos; comprometimento da estrutura, como fundação, muralhas e paredes); e risco de morte aos usuários, uma vez que, segundo o Instituto, o projeto não foi analisado pelo Corpo de Bombeiros e, assim, "não temos garantias que aquela estrutura é segura para os futuros usuários do forte".

Além de não ter sido analisado pelo Corpo de Bombeiros, o Instituto de Arquitetos enfatiza que se desconhece que tenha sido feita análise do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) "no que tange à interferência na visibilidade e na ambiência do bem tombado, Outeiro e Convento de Nossa Senhora da Penha". A entidade também afirma desconhecer "a apresentação da referida proposta ao Conselho de Patrimônio da Prefeitura Municipal de Vila Velha e seu parecer – caso tenha sido apresentado".

"Para tudo isso, é preciso que haja projeto e não apenas uma proposta com imagens de 'como ficará' o forte após a intervenção. Projeto com Registro de Responsabilidade Técnica [CAU] e Anotação de Responsabilidade Técnica [CREA] dos profissionais autores dos projetos arquitetônico e complementares". 

É destacado ainda que não há "um projeto que siga as orientações do Icofort/Icomos para o bem militar". O Instituto defende que, para que a edificação seja preservada "para esta e para as futuras gerações", é preciso a contratação de uma equipe multidisciplinar com capacitação comprovada para desenvolver o projeto de intervenção do forte, de acordo com os preceitos do Icofort Icomos; apresentação do registro de responsabilidade técnica do projeto; apresentação dos órgãos competentes, para análise, parecer e aprovação – se assim couber, incluindo o Iphan, Prefeitura de Vila Velha, Corpo de Bombeiros; e debate com a sociedade, notadamente, com os moradores do Sítio Histórico da Prainha, em audiência pública.

Histórico

Conforme consta no manifesto, foi feito um pedido de tombamento exclusivo para o Forte de São Francisco Xavier da Barra em cinco de julho deste ano, não havendo, até o momento, manifestações contrárias ao tombamento nesse processo. Em 14 de julho, após ser constatada a proposta de intervenção da Casa Cor, "iniciativa que fere os preceitos definidos e referendados nas cartas patrimoniais internacionais e nas diretrizes de intervenção do Iphan, foi solicitado, em caráter de urgência, o tombamento do Forte", destacando que "o bem já se encontra sob proteção legal, até que seja tomada a decisão final, depois de o processo ser devidamente instruído, ter a aprovação do tombamento pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e a homologação ministerial publicada no Diário Oficial".

O Forte de São Francisco Xavier teve sua construção iniciada no fim do Século XVII e concluída na primeira década do Século XVIII. Em 1726, o Engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho conduziu uma reforma na edificação, mantendo o caráter circular que tem hoje. Essa concepção arquitetônica circular teve como referência projetual os fortes de São Lourenço da Cabeça Seca, em Portugal; e de São Marcelo, em Salvador.

O Forte de São Francisco Xavier da Barra foi o primeiro elemento defensivo da Capitania do Espírito Santo, defendendo a entrada da Baía de Vitória para impedir o contrabando do ouro das Minas Gerais.

Veja mais notícias sobre Cidades.

Veja também:

 

Comentários: 2

Breno em Quinta, 04 Agosto 2022 15:14

No porto essa Casacor acabou com tudo, antes tinha uns galpões com banheiros e apesar de aparente abandono ainda tinham uso para a comunidade portuária, depois da casacor ficou só em escombros, e eles tem esse papo mentiroso de legado após o uso: tudo mentira! Destruição após o uso!!!

No porto essa Casacor acabou com tudo, antes tinha uns galpões com banheiros e apesar de aparente abandono ainda tinham uso para a comunidade portuária, depois da casacor ficou só em escombros, e eles tem esse papo mentiroso de legado após o uso: tudo mentira! Destruição após o uso!!!
Peterson Vieira em Sexta, 05 Agosto 2022 05:11

isto e verdade...ele tem que fazer em locais particular

isto e verdade...ele tem que fazer em locais particular
Visitante
Terça, 16 Agosto 2022

Ao aceitar, você acessará um serviço fornecido por terceiros externos a https://www.seculodiario.com.br/