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A eleição de 2014 será decidida no clique?

Há muitas teorias em torno de qual será o papel das redes sociais nas próximas eleições. Muitos especialistas em marketing político digital apostam todas as fichas que as redes sociais farão a diferença no pleito de 2014. Outros já não vão com tanta sede ao pote. Acham que as redes sociais terão um papel importante, mas ponderam que a ferramenta está sendo superestimada no Brasil.
 
Para fomentar essa discussão, Século Diário entrevistou nos últimos dois fins de semana dois estudiosos de comunicação que defenderam posições opostos sobre a importância das redes sociais nas eleições de 2014. 
 
O diretor da Agência Criativa, Roberto Figueiredo, na entrevista do dia 30 de novembro, é da corrente que crê no estouro das redes sociais para as eleições do ano que vem. O publicitário lembra que hoje no Brasil mais de 110 milhões de pessoas habitam neste universo digital. “É algo espetacular, não tínhamos isso. Devido ao baixo custo da internet, dos equipamentos e smartphones, hoje praticamente todo mundo das classes A, B e C está, de alguma maneira, plugado na internet. Esses números mostram a importância que as redes sociais terão na eleição de 2014. O poder de mobilização das redes sociais, que já foi mostrado nas manifestações de junho deste ano. Foi a primeira vez que uma população inteira foi mobilizada fundamentalmente pelas redes sociais. Não tenho nenhuma dúvida de que a influência delas em 2014 será avassaladora”. 
 
O professor da Ufes, Roberto Garcia Simões, não é tão otimista. O especialista em Políticas Públicas, na entrevista do último 7, questiona: “Será que não estamos superestimando esse processo?”. Mais à frente ele pondera: “As redes sociais abrem uma cunha nesse processo, mas eu não sei o tamanho dessa cunha neste momento”, confessa.
 
No decorrer das entrevistas ambos vão decupando o assunto e mostrando o quanto as redes sociais podem ser determinantes no processo eleitoral de 2014. 
 
Por exemplo, Simões defende que o fator educacional pode limitar a eficácia das redes. “O sujeito lê uma notícia política, mas não compreende. O analfabetismo funcional é muito grande. Então, sem dúvida tenderá a crescer, as redes abrem nova possibilidade de informação, mas, ao mesmo tempo, há esses limites. Uma agravante no caso brasileiro”. 
 
Figueiredo acredita que há três fatores que podem superar qualquer barreira. Ele afirma que a troca de informação, a capacidade de mobilização das redes e a interatividade podem influenciar a eleição. 
 
Se Simões e Figueiredo divergem quanto ao poder decisório das redes sociais nas próximas eleições, concordam que a eficácia da ferramenta, em maior ou menor grau, vai depender muito do candidato. 
 
Roberto Figueiredo diz que as redes podem ser uma oportunidade ou ameaça para o candidato. Ele exemplifica que o candidato sem dinheiro em caixa pode se valer da criatividade para ganhar visibilidade. A produção com custo baixo veiculado via Youtube, por exemplo, é uma alternativa. “As mensagens de propaganda política que as redes sociais permitem aos pequenos candidatos sem recursos equilibram o jogo econômico na eleição”. 
 
De outro lado, o publicitário alerta que candidatos tradicionais, que viveram há décadas blindados pela “imprensa amiga” podem ter suas imagens destruídas quase que instantaneamente. “Todo mundo que foi blindado, que criou imagens falsas, vai ser desmascarado neste período do ano que vem. As redes sociais vão triturar alguns políticos tradicionais e permitir o aparecimento de lideranças absolutamente novas e que tenham relação com as redes”, prevê Figueiredo. 
 
O professor Roberto Simões ainda não consegue vislumbrar as tais “lideranças novas” que se identificariam com as redes. “No Espírito Santo, eu não vejo nenhuma candidatura que tenha as redes como centro. Elas estão passando, mas não vêm representar esse novo. Os que poderiam surgir, foram rapidamente para a velha política. Eu não vi ninguém colocar uma proposta que fosse ao encontro desse movimento.”
 
Ele compara o processo brasileiro com o italiano. Simões cita o movimento que Beppe Grillo está fazendo nas redes sociais. “Na Itália, se acha que há um conjunto significativo de privilégios para os políticos. O grupo de Grillo não esperou a reforma política, colocou nas redes as diretrizes para quem se candidatar pelo grupo. Coisa que não se insinua aqui. É utilizar as redes em certo sentido da democracia direta, de que não precisamos esperar um projeto de reforma política do Congresso Nacional para fazermos e avançarmos na política institucional”. 
 
O que Simões quis dizer é que não temos ninguém aqui no Espírito Santo parecido, nem de longe, com o perfil do político italiano. As ideia de Grillo para as redes sociais são realmente avançadas para os padrões brasileiros. “Nós queremos que as leis sejam discutidas no parlamento, mas também na internet. Hoje, a burocracia substituiu a democracia. A comunidade de cidadãos tem de se tornar o Estado.” É nessa linha de pensamento que Grillo constrói os valores do Movimento Cinco Estrelas (MV5), criado em 2009.
 
O MV5 saiu das últimas eleições italianas como terceira maior força. O político, que é seguido por uma legião de “grillinos”, tem o blog mais lido na Itália atualmente, e é visto como fenômeno na Europa e também fora dela.
 
A sensação italiana defende ideias nada conservadoras. O partido se identifica como democrático, formado por cidadãos “virgens” em política Na bandeira do partido, as cinco estrelas representam os seguintes ideais: educação, saúde, segurança energia e transporte.
 
Mas as inovações do partido não se resumiram às postagens nas redes sociais durante a campanha. Não ficaram só no blá, blá, blá de oportunistas que querem usar a rede como trampolim eleitoral.
 
Os parlamentares eleitos pelo MV5, logo de cara, reduziram seus salários em até 85%. O dinheiro que sobra está sendo destinado a um fundo de ajuda a microempresários. Quem votou no partido não se arrepende. Ao contrário, enche a boca para falar que a política na Itália, até a chegada do MV5, era uma coisa para poucos. “Não queriam que o povo de participasse das decisões. Isso mudou”.
 
Neste ponto Simões tem razão. Estamos anos luz do modelo de política idealizado por Beppe Grillo.

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