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A fábula que Esopo não escreveu

Burro, o adjetivo,  é sinônimo de tolo, idiota; burrice é antônimo de inteligente. Grande injustiça, pois  na verdade o burro substantivo é um animal muito inteligente. No entanto, ninguém fica orgulhoso se for chamado de burro, apesar do equino trabalhar pesado. Chamar o burro de burro é burrice do homo sapiens.
 
O cachorro, cognominado o melhor amigo do homem, é o animal de estimação preferido por maiores e menores. Vemos por aí cachorros sendo tratados com regalias que muitas crianças não têm, mas ninguém quer ser chamado de cachorro, e cão é um dos nomes do diabo. Mais uma grande injustiça.  
 
Outra injustiçada é a galinha, coitada, que presta tão bons serviços à raça humana.  E tem seus derivados, pois o frangote, ou o galeto, é um dos pratos preferidos da nossa culinária informal. Mas chamar alguém de frangote não é elogio, e pode dar  briga. O oposto do frangote é  o galo, senhor do galinheiro e o primeiro despertador que tivemos. Mas é ofensa dizer que o sujeito tá cantando de galo.
 
O homem gosta de metáforas, comparações, alusões, e os animais estão aí mesmo para nos dar bons exemplos. Memória de elefante é um elogio para quem tem boa memória, e a assertiva tem fundamento. Estudos científicos confirmam que os elefantes não esquecem nem perdoam, odiando para sempre quem os maltrata. Eles lembram de treinadores e tratadores que os maltrataram mesmo anos depois de afastados, e são os animais que mais matam treinadores.
 
Na pirâmide da inteligência, os humanos estão no topo, seguidos dos macacos, elefantes e golfinhos. O cérebro dos elefantes é mais denso que o humano, e a parte associada à memória é mais desenvolvida. Vivendo numa sociedade matriarcal, Dona Elefanta é a responsável pela segurança da tribo, e pode reconhecer quem é confiável. Essa habilidade é muito importante porque eles têm uma ordem social  bastante complexa.
 
Pesando cinco quilos, o cérebro elefantino é o maior do reino animal. Aristóteles, que sabia das coisas, disse que “Esses  animais superam todos os outros em sagacidade e inteligência”. Eles mantêm uma memória genética dos caminhos usados geração após geração. Cada tribo tem seu cemitério, o lugar de morrer, e vão para lá quando pressentem o fim. Isso quando não são covardemente assassinados  por causa do precioso marfim.
 
E temos ainda o olho de águia, designando quem enxerga muito bem. A expressão tem justa causa, pois a águia tem a visão mais nítida do reino animal, 4 a 8 vezes mais forte que a nossa. Os olhos são do tamanho do nosso e ela pode ver um coelho a mais de 3 km de distância. Ela pode identificar cinco cores diferentes de esquilos, e localizá-los mesmo escondidos. Apesar de tantas qualidades, ninguém quer ter memória de elefante ou olhos de águia, trabalhar feito burro de carga e ter vida de cachorro.

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