Apesar de o secretário de Segurança André Garcia exaltar a queda das taxas de homicídios em2013, segundo ele, em cerca de 6% em relação a 2012, a realidade mostra que a impunidade prevalece no Estado. De outro lado, o sistema prisional, que deveria ressocializar os infratores, funciona como uma porta giratória, que devolve para a sociedade seres humanos “piorados”: mais violentos, desumanos e cruéis.
A seção policial dos jornais desta sexta-feira (3) traz uma notícia inusitada que reflete bem a realidade criminal do Espírito Santo. Realidade que contrasta com o discurso otimista de Garcia, que tenta dourar a pílula.
Um assalto a uma loja de produtos agropecuários, ocorrido nessa quinta-feira (2), no bairro Riviera da Barra, em Vila Velha, ilustra a sensação de impunidade dos bandidos e a vulnerabilidade da população, entregue à própria sorte.
Após roubar cerca de mil reais, celulares etc, um dos assaltantes montou numa égua e saiu a galope. O comparsa preferiu empreender fuga em uma bicicleta.
Pouco tempo depois, até pela peculiaridade dos “veículos” utilizados na fuga, os dois assaltantes foram facilmente localizados e presos.
A parte mais inusitada da história, no entanto, não é o modus operandi utilizado no crime, mas as declarações que os bandidos deram à imprensa. Debochados, os jovens assaltantes — 19 e 22 anos — estavam muito tranquilos e não demonstravam um pingo de arrependimento.
O “cavaleiro” confessou que usa a égua para puxar areia, e que teria aproveitado o animal para cometer o assalto. Ele justificou ainda que sua casa alagou com as chuvas. Acrescentou que estava roubando para comprar roupas e alimentos. Agora, tudo é culpa das chuvas.
O comparsa foi ainda mais direto. Admitiu que roubou para “curtir” uma festa.
Mais assustador que a banalização do ato criminoso em si, é a visão que esses jovens bandidos têm da polícia, da Justiça e do sistema prisional. Veja a ousadia: “Roubei para ir para o baile. Não dá nada. Daqui a uns oito meses estamos na rua de novo e só Deus sabe”. O comparsa complementa: “Não me arrependo. Se eu 'for embora' e precisar do dinheiro novamente, novamente eu vou assaltar para ter o dinheiro”.
As declarações revelam o sentimento de impunidade dos dois assaltantes. Eles se referem à condenação como algo natural de quem faz opção pela vida do crime. Estimando que em cerca de oito meses estarão “liberados” novamente para praticar novos delitos. Sabem também que o sistema prisional é incapaz de recuperá-los. Ao contrário, talvez na cadeia eles façam novos contatos com a rede criminosa e saiam de lá bandidos mais graduados.
O comerciante assaltado, de outro lado, ficou chocado e atemorizado com as declarações da dupla. Ele sabe que passa a ser um alvo vulnerável. Nada lhe garante que no próximo assalto, e há uma grande probabilidade de isso ocorrer, o crime acabe em latrocínio e altere os seis pontos conquistados por Garcia.
O secretário precisa tratar a criminalidade no Espírito Santo com os dois pés bem fincados no chão. Não adianta preparar gráficos coloridos no Power Point para exaltar uma queda que mantém o Estado com índices de guerra civil.
Mais do que dados estatísticos, é a sensação de violência iminente, por parte da população; e a de impunidade, por parte dos bandidos, que irão definir os índices de criminalidade no Estado.
Quando a sociedade reconquistar a paz e os bandidos tiverem a certeza de que os crimes serão rigorosamente punidos, o secretário não precisará mais ficar construindo gráficos e fazendo contas mirabolantes para tentar convencer a população de que a violência está retrocedendo. Instintivamente, todos saberão.

