Manifestantes cobraram implementação do passe livre enquanto aumento era votado

O Conselho Gestor do Transporte Público Metropolitano (CGTRAN) aprovou, nesta sexta-feira (9), o reajuste das tarifas do Sistema Transcol, que opera o transporte coletivo da Grande Vitória. Com a decisão, a passagem paga pelos usuários em dias úteis passou de R$ 4,90 para R$ 5,10, o que representa um aumento de 4,08%. Aos domingos e feriados, o valor foi reajustado de R$ 4,30 para R$ 4,50, variação de 4,65%. O serviço Bike GV sofreu aumento de R$0,10 e passou a custar R$ 2,45. O reajuste passará a valer neste domingo (11).
O reajuste entrou em vigor após discussão do conselho, mesmo diante de críticas de estudantes e movimentos sociais, que se mobilizaram em frente à sede do Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES), em Vitória, onde acontecia o debate. Manifestantes denunciaram que o aumento aprofunda desigualdades sociais e atinge de forma mais dura a juventude negra, periférica e a classe trabalhadora da Grande Vitória, que dependem diariamente do transporte público.
De acordo com planilha apresentada pela Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), o aumento foi fundamentado na elevação do custo por quilômetro rodado, que passou de R$ 9,6 em janeiro de 2025 para R$ 10,1 em janeiro de 2026, alta de 4,42%. A tarifa técnica, que representa o custo total do sistema e serve de base para o cálculo do subsídio público, também teve reajuste de 4,42%, passando de R$ 6,9 para R$ 7,2. Os dados se baseiam em parecer técnico produzido pela Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb-ES), que gerencia um contrato de concessão de 35 anos das empresas que operaram o sistema de transporte coletivo da região.
A conselheira Maria Isabel cardoso, representante do movimento estudantil no colegiado, destacou que a organização tem caráter consultivo e que a decisão seguiu cláusulas contratuais firmadas com as empresas operadoras (Expresso Santa Paula, Serramar, Vereda, Viação Praia Sol, Viação Serrana, Viação Grande Vitória, Nova Transportes, Santa Zita, Unimar e Viação Satélite).
“O secretário [de mobilidade urbana, Fábio Damasceno] justifica que esse reajuste decorre de uma previsão do contrato de concessão firmado em 2014, que já previa reajustes anuais baseados em fatores como o preço do diesel, custos operacionais e investimentos na frota. Quando foi feito o acordo, já estava previsto que todo ano teria reajuste de acordo com o valor do diesel, aquisição de novas frotas e outros custos”, explicou.

Entre as justificativas apresentadas pela Semobi para o aumento estão a elevação do preço do diesel, a redução da jornada de trabalho dos motoristas — que implica a contratação de mais profissionais — e o reajuste salarial da categoria, que foi de aproximadamente 6%. Esses fatores, segundo o governo, impactaram diretamente o custo operacional do sistema.
Outro ponto discutido no encontro foi a defasagem de um balanço contratual que deveria ser realizado a cada dois anos e está há cerca de seis anos sem atualização. “Esse balanço não necessariamente resulta em aumento da tarifa. Ele pode ser absorvido pelo subsídio do governo do Estado”, explicou. De acordo com ela, a Secretaria de Mobilidade informou que pretende refazer esse levantamento, mas ainda não há garantia de que eventuais custos adicionais serão repassados à população.
Durante a reunião do CGTRAN, estudantes e movimentos sociais realizaram um ato em frente ao DER-ES contra o reajuste e em defesa da implementação de um Sistema Único de Mobilidade, nos moldes do Sistema Único de Saúde (SUS), com adoção progressiva da tarifa zero. O Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (DCE-Ufes) afirmou que a decisão ignora a precariedade do serviço prestado à população. Entre as principais críticas estão a superlotação, a má conservação da frota, os longos tempos de deslocamento e a redução da oferta de ônibus nos fins de semana, especialmente em bairros periféricos de municípios como Serra, Cariacica e Vila Velha.
Para o DCE, a discussão sobre tarifa deve ser tratada como política pública e não apenas sob a lógica econômica. A entidade defende a ampliação do passe livre estudantil e a implementação da tarifa zero no transporte público metropolitano. “Transporte público é direito, não mercadoria. O aumento penaliza quem já enfrenta dificuldades para se deslocar”, afirmou a entidade em nota.
A mobilização desta sexta-feira também retomou reivindicações históricas de movimentos sociais, como a realização de uma auditoria no contrato vigente, que prevê reajustes anuais até 2044, e a construção de um plano gradual para viabilizar a tarifa zero no Sistema Transcol. As organizações argumentam que o Espírito Santo segue distante do debate nacional sobre novas formas de financiamento do transporte público, mesmo diante de experiências pontuais de gratuidade adotadas em datas como eleições e durante a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

