Segunda, 18 Outubro 2021

A vontade, a curiosidade e o diálogo necessários para a verdadeira inclusão

acampamento_serra_23o_dia_entrada_maes_eficientes_somos_nos Mães Eficientes Somos Nós

A verdadeira inclusão na Educação de crianças e adolescentes com deficiência é possível e beneficia a toda a sociedade. Importante afirmar esse fato, ao relatar uma mobilização de mães que já dura 23 dias e promete se encerrar apenas diante do atendimento mínimo dos direitos garantidos a seus filhos na legislação brasileira.

Acampadas na Prefeitura da Serra desde o dia nove de agosto, dezenas de integrantes do Coletivo Mães Eficientes Somos Nós (MESN) driblam o cansaço e afirmam que a pauta é muito objetiva: só voltam para casa mediante a contratação dos profissionais em Educação Especial em número suficiente para que seus filhos possam frequentar as aulas presenciais estabelecidas como obrigatórias na rede municipal desde o dia dois, seguindo a determinação estadual em vigor desde 26 de julho.
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"É como se as nossas crianças fossem lixos. Não maltratam as crianças, mas é uma invisibilidade, é como se nós não estivéssemos aqui. Foi naturalizada nossa presença aqui. É desumano. Desumanizaram a gente", descreve Lucia Mara Martins, coordenadora estadual do Coletivo. "A gente pede o mínimo do mínimo do mínimo", reconhece, com base na experiência de 30 anos de militância coletiva e na experiência própria dos três filhos com deficiência.

Os relatos de negativas em receber os alunos com deficiência, em diversas escolas, contrapõem a alegação da prefeitura de que já fez o que era quantitativamente possível para professores especialistas (490 em atividade) e cuidadores (150) e que, para conseguir atrair os estagiários para as vagas ainda abertas, vai subir o valor da bolsa paga aos estudantes. Mas, se as crianças são enviadas de volta para casa, então o que foi feito não é suficiente. Seja quantitativa ou qualitativamente. Contra os fatos, não há argumentos, mas pode haver diálogo, bom senso e um pouco de curiosidade técnico-política em saber se os vizinhos estão conseguindo lidar melhor com a situação, que é desafiadora em escala nacional e histórica.

Na escola do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), onde os filhos de Lucia passaram, e na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde estudam, eles vivenciaram e vivenciam a verdadeira inclusão. "No Senai os professores preparavam aulas especiais para os alunos com deficiência, mas eram pra todos e ajudavam a todos a entenderem melhor as matérias", conta. E no contraturno, arremata, o trabalho tem que complementar ao que é ensinado no turno, para que o aluno especial consiga vencer as barreiras e de fato acompanhar a aprendizagem ofertada na escola.

"A gente sabe que tem que ser assim, que a lei determina essa inclusão", afirma. Mas esse patamar, quando reivindicado na Serra, onde residem a maioria das mães do Coletivo, foi considerado inviável, tendo como contraproposta o investimento, mais barato, em estagiários e cuidadores, novamente, o município seguindo diretriz estadual.
Divulgação CREI/PMSMJ

A curiosidade jornalística levou Século Diário a conhecer a experiência de Educação Inclusiva de Santa Maria de Jetibá, município da região serrana, com 40 mil habitantes e forte cultura pomerana, onde a exposição da gestão da Educação Inclusiva nos últimos seis anos – atravessando já dois mandatos políticos diferentes – coincide com a descrição da experiência no Senai e na Ufes feita pela coordenadora do Mães Eficientes Somos Nós.

É um pouco mais custoso que o trabalho feito na maioria das redes municipais e na estadual, mas "a gente vê como um investimento na potencialização dos nossos alunos. Enxergamos as potencialidades e as possibilidades do ensino", posiciona Joziane Jaske Buss, coordenadora do Centro de Referência de Educação Inclusiva (CREI) da Secretaria de Educação de Santa Maria de Jetibá.
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Se um pode, todos podem. "Já estamos aqui há 23 dias. Amanhã vão ser 24, depois 25...se precisar vamos fazer a ceia de Natal. Mas só saímos quando nossos filhos puderem voltar para a escola. Discutimos hoje se deveríamos mudar a estratégia, mas entendemos que, se a prefeitura quer nos invisibilizar, as pessoas que vêm aqui nos veem e entendem o que a gente está passando. Vamos continuar", garante Lucia, em nome do Coletivo.

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