Pedido de exoneração de Cíntia Braga da rede estadual repercute nas redes sociais

O pedido de exoneração da professora de História Cíntia Braga da rede estadual de ensino no Espírito Santo tem repercutido nas redes sociais. Cíntia, que também é cineasta, falou abertamente sobre o tema em publicação no perfil no Instagram na última sexta-feira (20), que recebeu diversos comentários de apoio de outros professores. Dois colegas, Ériton Berçaco e Vinicius Machado, também fizeram publicações em suas mídias pessoais exaltando a atitude dela.
Chamou a atenção o fato de uma profissional ter pedido exoneração de um cargo público, e mais ainda por ela ter decido tornar a informação pública. Além disso, as críticas de Cíntia ecoam questionamentos de diversos outros educadores do Estado sobre a influência de fundações empresariais no perfil pedagógico implementado pela Secretaria de Estado da Educação (Sedu) – o que pesquisador Israel Frois chama de “fast food educacional”.
Cíntia Braga era concursada no cargo de Professor B desde 2018, tendo atuado no Ensino Médio da escola estadual Hunney Everest Piovesan, localizada no bairro Campo Grande, em Cariacica. Em conversa com Século Diário, Cíntia, que é mãe de uma menina com Transtorno do Espectro Autista (TEA), estava de Licença para Interesse Particular (LIP) nos últimos dois anos.
O estopim para o seu pedido de exoneração foi saber que seria retirada da cadeira fixa na escola em que atuava. Apesar de a alteração de lotação ser algo previsto no regramento da Sedu, Cíntia considerou como uma retaliação por suas críticas. Além disso, as mudanças impactariam na sua rotina atual.
Motivações pessoais à parte, Cíntia destacou na postagem que o anúncio de sua saída serviu como demarcação de uma postura política e crítica diante de um estado de coisas geral da Sedu, e que muitos colegas também estão insatisfeitos pelos mesmos motivos, mas “vivem à sombra do medo”. Ela afirma que só “recebeu hostilidade” por toda a dedicação ao ensino.
Na visão de Cítia Braga, o projeto educacional capixaba se baseia em “currículo de coaching”, com aulas sobre empreendedorismo e planos preparados por instituições como a Fundação Lemann. Ela defendeu ainda que “a gente não pode viver numa farsa. De números falsos, de índices falsos e de uma atuação absolutamente antidemocrática. A começar pela falta de gestão democrática”.
Em seu pedido de exoneração, divulgado junto com a postagem, ela escreveu que “tive que me submeter a planos de ensino enlatados diretamente da SRE [Superintendência Regional de Educação]. Tive que presenciar a substituição de livros de literatura por manuais de educação financeira, pautados pela Fundação Lemann. Tive que realizar retrabalhos, como uma planilha que repetia o conteúdo do Sedes [Sistema Educacional de Gestão Escolar], concebida ao bel prazer da superintendente. Tive que enfrentar sozinha (pois os colegas professores vivem à sombra do medo) decisões autocráticas, tais como a imposição do Currículo Estadual em detrimento da BNCC [Base Nacional Curricular Comum], que é referência para o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]”.
Cíntia prossegue dizendo que “tive que aceitar goela abaixo, alunos aprovados com mais de 50% de faltas, e outros crimes gravíssimos contra a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional]. Tive que passar por formações constrangedoras, de tão vazias de reflexão e recheadas de tecnicismo travestido de inovação, completamente alheias ao nosso objeto principal: a educação. Tive minha inteligência subestimada, meu talento desperdiçado, minha competência ignorada, tudo, para ao fim atender aos desmandos de uma política de governo autoritária, elitista e eleitoreira”.
Na postagem nas redes sociais, a professora de História menciona ambições eleitorais de pessoas envolvidas com área educacional no Estado. O atual secretário estadual de Educação, Vitor de Angelo (PSB), é pré-candidato nas eleições deste ano. Ao longo do seu período de atuação na rede estadual de ensino, Cíntia Braga também fez reclamações à Ouvidoria da Sedu, mas não obteve aceitação.
“É muito triste ver uma pessoa depois de tanto estudo, tanta dedicação, tanta burocracia para passar em um concurso público chegar ao ponto de pedir exoneração”, lamentou Ériton Berçaco em postagem de apoio nas redes sociais. No ano passado, o próprio Ériton foi exonerado do cargo de diretor Escola Estadual Marcondes de Souza, localizada em Muqui, no sul do Estado, em um processo que levantou questionamentos sobre uma possível perseguição.
“O grande alcance do vídeo, especialmente entre profissionais da educação, não aconteceu por acaso. A identificação com o sofrimento da Cíntia é forte porque ele não é individual, é coletivo. O que ela expressa representa o sentimento de muitos de nós”, escreveu o professor Vinicius Machado, coordenador estadual do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), em postagem nessa segunda-feira (23).
‘Tubarões da educação’
O Espírito Santo tem se destacado em diversos indicadores nacionais na área da Educação, como a posição de 1º lugar entre as redes estaduais de ensino do Brasil na etapa do Ensino Médio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2024. Entretanto, em entrevista para Século Diário no ano passado, o pesquisador Israel Frois afirmou que os números são “enganosos”.
“Em relação à questão do fluxo escolar, por exemplo, o que nós temos visto na rede é a aprovação compulsória – praticamente não tem reprovação na rede estadual. Ao mesmo tempo, temos uma overdose de avaliações, treinamentos e de rotinas pedagógicas vinculadas à Língua Portuguesa e à Matemática, que são as disciplinas cobradas nessas avaliações externas. O que está sendo feito no Estado não é educação integral, e sim uma preparação para essas avaliações, de modo a construir plataforma política”, comentou.
Israel, que é professor de Geografia na rede estadual de ensino, defendeu em junho do ano passado a tese “Os tubarões do capital nos mares da educação capixaba: vinte anos da atuação do movimento empresarial Espírito Santo em Ação (2003-2023)”, em que analisa a influência da entidade empresarial ES em Ação na gestão pública estadual. Ele realizou a pesquisa no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Na tese, Israel Frois destaca que o ES em Ação começou a influenciar na gestão estadual a partir de 2003, quando Paulo Hartung (PSD) chegou ao poder no Governo do Estado, e a influência foi só crescendo desde então, inclusive nos mandatos do sucessor Renato Casagrande (PSB). Ao ponto de a entidade empresarial assumir o papel de executora de políticas públicas educacionais, oferecendo formações para profissionais do ensino com viés assumidamente mercadológico.
Na tese, Israel destaca ainda o contexto de implantação de políticas como a do Escola Viva. Fazendo coro à propaganda midiática de crise fiscal, a gestão do então governador Paulo Hartung – hoje no PSD – implementou diversos cortes em investimentos estatais na educação, contratando até mesmo consultorias financeiras privadas para identificar os espaços que poderiam surgir nas despesas com as escolas regulares para, então, redirecionar os recursos para o Escola Viva.
Segundo a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes), o período do terceiro governo Hartung (2015-2018) foi marcado pela redução de 68% dos investimentos na educação, com o fechamento de 41 escolas públicas e 6,5 mil turmas, o que deixou mais de 60 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos fora da escola.

