Dados da Sesa mostram avanço no tratamento, mas desigualdades regionais persistem

No Espírito Santo, 20,7 mil pessoas vivem com HIV/Aids e estão em tratamento com antirretrovirais na rede pública e privada no Espírito Santo, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) referentes até 31 de outubro deste ano. O levantamento também aponta que, somente em 2024, 1.074 novos casos foram notificados, 256 entre mulheres (23,84%) e 818 entre homens (76,16%).
No ano anterior, o total havia sido de 1.106 notificações, incluindo 272 mulheres e 831 homens. Cinco crianças também foram diagnosticadas neste ano. Os números são preliminares e foram extraídos do sistema e-SUS Vigilância em Saúde. Ainda segundo a Secretaria, entre janeiro e a primeira quinzena de outubro, 152 pessoas morreram no Estado em decorrência de HIV/Aids.
Além dos dados epidemiológicos, a Sesa divulgou números referentes às estratégias de prevenção. Atualmente, 4,5 mil pessoas acessam a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) no Estado. Há 35 serviços aptos a ofertar PrEP e 96 pontos que fornecem Profilaxia Pós-Exposição (PEP). As duas medidas integram a chamada “prevenção combinada”, um conjunto de ações articuladas que a secretaria resume na “Mandala da Prevenção”, que inclui testagem, tratamento, PrEP, PEP e distribuição de preservativos internos, externos e gel lubrificante em toda a rede pública.
A enfermeira Elaine Soares, referência técnica de HIV da Coordenação Estadual de IST/Aids, ressalta que os avanços no acesso e na qualidade do tratamento fazem com que viver com HIV hoje não seja sinônimo de adoecimento. “A pessoa que vive com HIV e que faz o tratamento correto com antirretroviral mantém sua carga viral indetectável, além de não adoecer devido à imunossupressão, e não transmite o vírus nas relações sexuais. Da mesma maneira, a gestante, nas mesmas condições, dificilmente transmite para o bebê”, explica. Para ela, “o segredo está no acesso precoce ao pré-natal, testagem, tratamento e acolhimento sem discriminação”.
‘Desafios persistentes’
Apesar dos avanços, organizações da sociedade civil apontam desafios persistentes. A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+) destaca que o estigma, a desinformação e a falta de suporte em saúde mental continuam sendo barreiras importantes para a adesão ao tratamento e à prevenção. A organização reconhece, entretanto, alguns avanços técnicos importantes, como a implementação progressiva do Dovato, medicamento de dose única diária indicado para pessoas com HIV a partir de 35 anos, que reduz efeitos colaterais e melhora a adesão.
O vice-presidente da rede, Thiago Rodrigues, também cita a elaboração de uma linha de cuidado para lipodistrofia e a oferta de preenchimento facial, consideradas demandas históricas do movimento, já em fase final de encaminhamento pela Sesa. Contudo, a rede alerta que retrocessos regionais persistem. Em Linhares, no norte do Estado, por exemplo, serviços foram desestruturados a ponto de faltar até tubos de ensaio para coleta, obrigando empréstimos de municípios vizinhos.
Ele também avalia que o Espírito Santo ainda está distante da meta 95-95-95 proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU), que prevê 95% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, 95% dessas em tratamento, e 95% com carga viral indetectável. Embora os dados oficiais indiquem números próximos, ele afirma que, na prática, há muitas pessoas fora da adesão e sem acompanhamento contínuo. A RNP+ estima que o Estado tenha cerca de 23 mil pessoas vivendo com HIV, mais do que o registrado oficialmente, considerando aquelas que não realizaram testagem.
Nos Serviços de Atenção Especializada (SAEs), outro desafio é a falta de equipes multidisciplinares completas. A recomendação do Ministério da Saúde é que os SAEs contem com profissionais de psicologia, assistência social, ortopedia, ginecologia e psiquiatria, além do infectologista. “Nenhum SAE do Estado segue essa orientação”, aponta, o que faz com que pacientes dependam da atenção primária, onde encontram barreiras adicionais.
A juventude é hoje um dos grupos mais vulneráveis, aponta Isaque Oliveira, coordenador estadual da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. Segundo dados parciais apresentados pela Sesa em reunião com a sociedade civil, a faixa etária entre 15 e 29 anos segue sendo a mais afetada, especialmente entre homens bissexuais e homens que fazem sexo com homens (HSH).
Entre as políticas que não avançaram em 2024, está a gratuidade no transporte público para pessoas vivendo com HIV, proposta apresentada em 2023 pelo deputado João Coser (PT) e que permanece parada. A rede pretende retomar o diálogo com a Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória (Ceturb) no início de 2025. Embora cidades como Linhares, Aracruz e Colatina, no norte e noroeste capxiaba, já ofertem gratuidade ou descontos, Vitória não cumpre uma determinação do Ministério Público para restabelecer o passe-livre para esse público.
Acesso à Prep e Pep
A desigualdade regional no acesso aos serviços também afeta a população LGBTQIA+ vivendo no interior, como destaca o nutricionista Denner Mantovaneli. Segundo dados atualizados da Sesa, 26 dos 31 SAEs e CTAs do Estado estão habilitados a ofertar PrEP, e os demais estão em fase de adequação de estrutura, capacitação de equipes e logística de fornecimento de medicamentos. Durante a etapa estadual da 4ª Conferência LGBTQIA+, em agosto deste ano, ele apontou que a PrEP e a PEP ainda estão concentradas nos grandes centros, dificultando o acesso a quem vive em regiões afastadas.
O vice-representante estadual da RNP+, Thiago Rodrigues, afirma que a ampliação da PrEP avança, mas ainda de forma desigual. De acordo com ele, apenas cerca de 8% dos municípios capixabas oferecem PrEP na atenção primária, o que representa “um avanço tímido, considerando que o Espírito Santo é um estado pequeno”. Ele defende que o acesso deveria ser mais rápido e descentralizado.
Em âmbito nacional, o Brasil atingiu 96% de diagnósticos entre pessoas vivendo com HIV em 2024, cumprindo a segunda das metas da ONU para eliminação da Aids como problema de saúde pública até 2030. O avanço é atribuído à ampliação da PrEP, que exige exames prévios e, portanto, amplia a testagem. Ainda assim, o Ministério da Saúde reconhece desafios como reconectar pessoas que abandonaram o tratamento, combater desigualdades regionais e ampliar em 142% o número de usuários de PrEP até 2027.
‘Dezembro Vermelho’
Nesta segunda-feira (1º), o Dia Mundial de Luta contra a Aids marca o início da campanha “Dezembro Vermelho”, dedicada à mobilização em torno da prevenção, do tratamento e do enfrentamento ao estigma. Criada em 1988 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A cor representa o símbolo internacional de solidariedade e apoio às pessoas que vivem com a doença e de memória às vidas perdidas.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) destaca que a “Mandala da Prevenção” representa o conjunto de estratégias integradas de prevenção ao HIV, conhecidas como “prevenção combinada”. Entre elas, estão realizar o teste rápido nas Unidades Básicas de saúde; tratar, para manter o sistema imunológico eficiente e impedir a transmissão do vírus para outras pessoas; acessar o PEP e PrEP; e usar preservativos.

