Sexta, 24 Setembro 2021

São Mateus foi a cidade que mais desmatou a Mata Atlântica no ES entre 2019 e 2020

mata_atlantica_leonardo_sa-0244 Leonardo Sá

Sete municípios reduziram a cobertura florestal nos anos de 2019 e 2020 no Espírito Santo. São Mateus, no norte, foi o que mais desmatou (29 hectares), seguido por Pancas (11 ha), no noroeste; Fundão (10 ha), na Grande Vitória; Linhares (9 ha) e Aracruz (8 ha), no norte; e Santa Maria de Jetibá (5 ha) e Marechal Floriano (3 ha), na região serrana, totalizando 75 hectares de Mata Atlântica a menos no território capixaba.

Os sete integram a lista de 439 que registram desmatamentos no período no Brasil e correspondem a 15% do total de 3.429 municípios que compõem a Mata Atlântica brasileira. Juntos, eles somam 13 mil hectares desflorestados, sendo que 70% da área desmatada se concentra em apenas 100 municípios de nove estados: Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Rio de Janeiro.

Os dados são do Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica com a cooperação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, unidade vinculada ao Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação (INPE/MCTI).

No final do mês passado, às voltas com o Dia Nacional da Mata Atlântica, comemorado todo dia 27 de maio, a SOS já havia divulgado dados parciais do Atlas, com os números nacionais e estaduais, onde o Espírito Santo recebeu um triste destaque, sendo o estado com o maior crescimento da área desmatada no país, em relação ao período de 2018 a 2019: 462%. Apenas São Paulo também registrou desflorestamento acima de 400%.

No levantamento atual, o município brasileiro com maior redução de cobertura florestal foi Bonito/MS, famoso pelo ecoturismo: com 416 hectares derrubados. Em seguida vêm Águas Vermelhas (MG), com 369 hectares desflorestados, e Wanderley (BA), com 350. Em cada um desses três municípios, o ritmo do desmatamento foi o correspondente a mais de um campo de futebol de por dia.

O levantamento foi realizado por meio de imagens de satélite e tecnologias na área da informação, do sensoriamento remoto e do geoprocessamento. O projeto é fruto de um acordo de cooperação técnica pioneiro com o INPE, estabelecido em 1989.

Eucalipto só cresce no ES

Enquanto a Mata Atlântica continua sendo desmatada no Espírito Santo e o programa Reflorestar, iniciado em 2011, alcança resultados tímidos diante da demanda, o monocultivo de eucalipto é o uso do solo que mais cresce no Estado, conforme apresenta a primeira edição do Atlas da Mata Atlântica, lançada em 2018, com dados entre 2007 e 2015. Uma nova edição do Atlas é aguardada para este ano, segundo anúncio feito no Dia do Meio Ambiente de 2020.

Ao contrário de outras monoculturas que já protagonizaram a destruição do bioma no Estado – pastagens e cana-de-açúcar, principalmente – que mostraram redução de sua área ocupada, o eucalipto segue em franca expansão.

Em campo, é possível observar os impactos da expansão dos eucaliptais, com avanço da desertificação, que atinge não mais apenas o norte e o noroeste do Estado, que primeiramente foram preferidos pela Aracruz Celulose para fornecerem matéria-prima barata para sua fábrica.

Isso no início dos anos 1960, quando os correntões de ferro derrubaram milhares de hectares de floresta primária, espalhando o cheiro da morte, segundo testemunhos de quilombolas, indígenas e camponeses que habitavam essas regiões e ainda resistem em seus territórios tradicionais, apesar da falta de apoio estatal e da continuidade dos ataques, violências, perseguições, cooptações e grilagens feitas pela empresa.

Hoje como Suzano, a maior corporação mundial do setor, a papeleira segue cobiçando e destruindo outras regiões, incluindo as montanhas, como se pode ver em municípios como Santa Teresa e da região do Caparaó.

E, recentemente, lançou-se num programa nacional para elaboração dos planos municipais da Mata Atlântica, em parceria com a Fundação SOS e o Instituto Brasileiro de Árvores (Ibá), que representa as empresas da área e é presidido pelo ex-governador Paulo Hartung. 

Todos perdem com o desmatamento

"O desmatamento afeta diretamente a vida de cada pessoa que habita esses municípios", explica Luis Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da SOS Mata Atlântica. "Além de fazer com que as cidades se tornem cada vez mais quentes, a redução das áreas verdes ameaça a disponibilidade e a qualidade da água. A crise hídrica que vivemos hoje é um reflexo disso. No caso de Bonito, os danos podem ser ainda graves, pois coloca em risco o turismo que move a economia da cidade", alerta.

Os dados nacionais e por estado foram divulgados em maio no Atlas da Mata Atlântica, mostrando que o desmatamento entre 2019 e 2020 nos 17 estados que compõem o bioma caiu 9% em relação ao observado no período anterior. Por outro lado, em relação a 2017-2018, quando foi atingido o menor valor da série histórica (11.399 hectares), houve um crescimento de 14%.

Luis Fernando lembra que praticamente a totalidade dessa devastação é ilegal: o bioma, que hoje mantém apenas 12,4% da sua vegetação original, é protegido pela Lei da Mata Atlântica, que proíbe o desmatamento a não ser em raras situações – como a realização de obras, projetos ou atividades de utilidade pública.

"Qualquer área desmatada na Mata Atlântica, por menor que possa parecer, é uma perda enorme. Não só deveríamos ter parado de destruí-la como já precisávamos ter dado um passo além, que é reverter parte das áreas degradadas por meio do reflorestamento", afirma o diretor. Segundo ele, esse trabalho de recuperação é essencial para a sociedade e a economia brasileiras, já que na região vivem 70% da nossa população e estão concentrados 80% do PIB. "E também é fundamental para o planeta como um todo. Restaurar a Mata Atlântica, além de ser importante para conservar a biodiversidade e mitigar a emissão de gases-estufa, é uma forma de colaborar para que o mundo alcance o cenário de redução de 1,5°C de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris", explica.

Cartilha escolar

Todas as informações estão disponíveis no site www.aquitemmata.org.br que, de forma prática e lúdica, apresenta mapas interativos e gráficos com as informações atualizadas sobre o desmatamento e o estado de conservação de florestas, mangues e restingas nos 3.429 municípios da Mata Atlântica. A SOS Mata Atlântica preparou ainda a cartilha Aqui Tem Mata?, um guia para estimular nos espaços escolares o diálogo sobre o meio ambiente e a Mata Atlântica – sua história, situação, biodiversidade e a importância de protegê-la. O relatório completo do Atlas da Mata Atlântica 2019-2020 pode ser acessado em www.sosma.org.br e em www.inpe.br.

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