Há um cenário inconsistente na nova Assembleia Legislativa, que tomou posse no início deste mês. Em duas semanas de atividade legislativa, já é possível observar as incertezas que povoam o plenário da Casa e a imprevisibilidade do futuro da legislatura.
De um lado está uma maioria submissa ao Palácio Anchieta. Temerosos de um poder que não se sabe se o governador Paulo Hartung (PMDB) realmente tem, os deputados preferiram não arriscar. Aderiram de corpo e alma e estão vulneráveis à resposta do eleitorado ao desempenho do governo. Se Hartung for bem, os deputados vão bem. Se Hartung for mal, coitados deles.
As medidas antipáticas de austeridade, que por enquanto estão se focando em miudezas, podem trazer desgaste. E em alguns momentos será preciso reagir. A primeira delas foi enfrentada essa semana. O corte de viaturas da Polícia Militar às vésperas do Carnaval é uma medida que pode trazer desgaste político ao governador.
Mas diante da repercussão, os governistas se anteciparam para tentar blindar o governador, jogando a responsabilidade no comando da PM e na Secretaria de Segurança. Esse papel de advogados do diabo pode custar caro e as medidas de corte inevitavelmente vão respingar no chefe do Executivo e de quem estiver do lado dele.
Há ainda os deputados em isolamento, em resumo, aqueles que estiveram no palanque de Renato Casagrande (PSB) ou estiram mais engajados no grupo de deputados que pregava a independência da Casa. Estão sendo obviamente tratorados, excluídos dos debates, relegados a cargos de menor importância, colocados de lado para ver se a população se esquece deles.
Esses, porém, estão denunciado o golpe e ficam também sujeitos às interpretações dos eleitores. Se o governo sair pela tangente do episódio do golpe da CPI do Pó Preto, esses deputados perdem espaço, mas se a população fizer a conexão entre o ocorrido e as manobras políticas que envolvem a guerra sem fim entre Hartung e Renato Casagrande, podem ser vitimizados e sair ganhando com isso.
Tudo vai depender da postura dos parlamentares e da visão de oportunidade. Devem saber o momento certo de avançar e de recorrer, de falar e de calar, aquecendo e esfriando o cenário político para conseguir o espaço e encaixar o discurso certo, na hora certa. Com um parlamento de maioria novata, isso parece ser uma tarefa difícil, mas nem todos os novatos na Assembleia são neófitos na política.

