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‘Milagre capixaba’

Como já se tornou corriqueiro, Paulo Hartung (PMDB) voltou a abusar das frases feitas, muitas pinçadas de almanaques de gestão, para construir sua narrativa. No balanço de 2016, apresentado na manhã desta terça-feira (27), no Palácio Anchieta, não foi diferente. Mas o discurso saiu um pouco da curva, no momento em que o governador (em duas ocasiões) citou o refrão de “Argumento”, de Paulinho da Viola. Ainda procurou inspiração na Bíblia para propor o “milagre do pão”.
 
O tom predominante era de otimismo, “pero no mucho”. Hartung comemorou os resultados do seu governo. Destacou que estava fechando as contas no azul, com R$ 40 milhões em caixa, mas foi logo avisando que o cofre continuará fechado em 2017. “É preciso [como o velho marinheiro, de Paulinho da Viola] levar o barco devagar”. E acrescentou: “Ainda não saímos do nevoeiro”. 
 
No seu discurso de pouco mais de uma hora, Hartung deixou a modéstia de lado para exaltar os resultados do seu governo. Aliás, está era exatamente a tônica do seu discurso: registrar que a guerra continua, mas que seu governo venceu pelo segundo ano seguido a sangrenta peleja contra o dragão da crise. A narrativa construída ainda na campanha ao governo em 2014 destaca que as contas do Estado foram “irresponsavelmente desorganizadas na gestão anterior”. Sem citar o nome do ex-governador Renato Casagrande (PSB), ele lembrou que assumiu o Estado com um déficit de R$ 1,3 bilhão, corrigiu o orçamento de 2015 para a realidade, e conseguiu reorganizar as contas graças a um ajuste fiscal severo. 
 
A narrativa supervaloriza sua gestão. Mas não bastava ao governador afirmar que está vencendo o dragão da crise, mas exaltar que esse não é um dragão qualquer, mas aquele de sete cabeças. “É a pior crise dos cem, cento e vinte anos”, valorizou.
 
Hartung queria mostrar que tirou o Estado do fundo do poço, fez um ajuste fiscal digno de manual de gestão, que deveria (ou deve) servir de modelo para o resto dos gestores do País, começando por Temer, passando por prefeitos e governadores. Ele fez questão de enfatizar que seu feito é único ao comparar a saúde financeira do Espírito Santo com a de outros estados: “Meteram o pé na jacá”, ironizou, se referindo aos colegas governadores que estão com a corda no pescoço e os pés no cadafalso.
 
Antes que os críticos de plantão dissessem que ele conseguiu os resultados, sacrificando investimentos sociais, Hartung se antecipou. Recorreu aos resultados de “programas-vitrines” (Escola Viva e Ocupação Social) para não ser acusado de negligenciar a área social, uma das nódoas indeléveis dos seus dois primeiros governos. 
 
Tanto o Escola Viva quanto o Ocupação são dois programas risíveis em termos de alcance e resultados, mas que têm cumprido o propósito de mostrar que o governo é “socialmente responsável”. Hartung também inclui no pacote de realizações sociais cerca de 200 leitos criados na saúde para exaltar que ainda reservou recursos para investir em áreas-chave.
 
Em seguida, volta a repetir que os resultados positivos não significam o afrouxamento da política de austeridade. Muito ao contrário, ele vislumbra um 2017 ainda difícil e avisou que vai arrochar os gastos o quanto for preciso para não permitir que as contas desandem. Hartung sempre lembra que “ainda estamos próximos do precipício”. E adverte: “Não dá pra fazer dança de roda na beira do precipício”. 
 
Manter essa advertência é estratégico para justificar que o cofre seguirá trancado em 2017. O alerta serve de recado para os prefeitos eleitos. Hartung repetiu que pode ajudar com conselhos. Falando quase como um consultor, ele disse que pode colaborar, orientando os novos prefeitos a se manterem na margem de segurança do precipício. 
 
Inspirado, Hartung incluiu o “criar” aos dizeres da bandeira do Espírito Santo e aconselhou: “Crie, trabalhe e confie”. Depois trocou os versos de Paulinho da Viola e os conceitos tirados dos manuais de gestão pelos escritos bíblicos. Ele queria explicar como pretende distribuir os parcos recursos de forma igualitária entre os 78 prefeitos: “(…) como um pai que tem muitos filhos e pouco pão”. Pronto, o Milagre dos Pães de Jesus acabara de ganhar uma versão nova na “parábola” de Hartung. Agora só falta replicar o “milagre capixaba” para o resto do País.

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