Futebol, política e a memória de um povo
Por José Carlos Pigatti
Há debates que atravessam gerações. Alguns dividem famílias, amigos, rodas de conversa e as intermináveis discussões nas redes sociais. Hoje, uma das maiores polarizações do futebol mundial gira em torno de dois gigantes da era contemporânea: Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
De um lado, os admiradores da genialidade quase mágica de Messi. Do outro, os defensores da disciplina, da determinação e da impressionante capacidade de superação de Cristiano Ronaldo. Ambos são extraordinários. Ambos merecem reconhecimento. Mas, para nós brasileiros, existe uma verdade que transcende essa disputa.
Pelé é eterno.
E essa eternidade é mais forte do que qualquer polarização esportiva ou política.
O futebol nunca foi apenas futebol. O Brasil sabe disso melhor do que ninguém.
Ao longo da história, o esporte foi utilizado como instrumento político por diferentes projetos de poder. Nos regimes fascistas da Europa, transformou-se em propaganda. A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália de Mussolini, e os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, sob o regime nazista, foram exemplos extremos da tentativa de transformar conquistas esportivas em demonstrações de superioridade política.
Durante a Guerra Fria, a disputa continuou. Atletas soviéticos e ocidentais carregavam nos ombros não apenas suas bandeiras nacionais, mas a responsabilidade simbólica de representar sistemas econômicos e modelos de sociedade em conflito.
A política contaminou o esporte. E o esporte também influenciou a política.
Nas democracias contemporâneas, essa mistura continua acontecendo, muitas vezes de forma espontânea. Tudo parece ganhar uma leitura ideológica: músicas, filmes, amizades, hábitos de consumo e até a preferência por jogadores de futebol.
Não por acaso, alguns estudos e pesquisas de comportamento sugerem que pessoas com inclinações mais progressistas costumam admirar Messi por sua discrição, seu jogo coletivo e sua aparente simplicidade. Já Cristiano Ronaldo costuma ser associado por muitos à meritocracia, à disciplina individual e à busca incessante pela excelência.
Mas talvez essa interpretação diga mais sobre a sociedade atual do que sobre os próprios atletas.
Messi é um fenômeno raro da natureza. Um talento que desafia explicações. Ronaldo é um exemplo impressionante de dedicação, esforço e mobilidade social. Ambos representam qualidades humanas admiráveis.
Talvez a verdadeira lição seja justamente reconhecer que o talento precisa do trabalho e que o trabalho floresce melhor quando encontra oportunidades.
No Brasil, porém, existe outro elemento nessa conversa.
Durante muitos anos, setores da direita sequestraram simbolicamente a camisa da Seleção Brasileira, tentando apresentar-se como os únicos representantes do patriotismo e do sentimento nacional. Foi um erro que a esquerda demorou a enfrentar.
A camisa verde e amarela nunca pertenceu a um partido, a uma corrente ideológica ou a um candidato. Ela pertence ao povo brasileiro.
Pertence ao trabalhador que acorda cedo.
Pertence à mãe que sustenta sua família.
Pertence à juventude das periferias.
Pertence aos aposentados, aos estudantes, aos agricultores, aos servidores públicos e aos empreendedores.
Qualquer candidato, seja de direita, de centro ou de esquerda, pode aparecer usando as cores da Seleção. O problema não está nas cores. O problema surge quando alguém tenta monopolizar símbolos que pertencem à nação inteira.
A bandeira é do povo.
A camisa é do povo.
A Seleção é do povo.
E talvez seja justamente essa dimensão popular que explique por que o Brasil não se entrega completamente à rivalidade entre Messi e Ronaldo.
Metade gosta de um.
Metade gosta do outro.
Mas, no fundo, existe uma sensação compartilhada: falta um brasileiro nessa disputa.
Porque nossa memória coletiva continua habitada por gigantes.
É preciso lembrar aos mais jovens que o Brasil é o único país pentacampeão do mundo. Foram gerações de atletas que construíram uma das histórias mais belas do esporte mundial, conquistando as Copas do Mundo de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.
Foram homens que transformaram o futebol em arte e fizeram o povo brasileiro sorrir em tempos difíceis.
Foram heróis populares.
E entre todos eles existe um nome que continua iluminando a história.
Pelé.
O Rei não pertence apenas ao passado. Ele pertence ao futuro. Sua trajetória continua lembrando que um menino negro, nascido em condições humildes, foi capaz de se tornar um dos maiores símbolos da humanidade.
Em tempos de polarização, talvez a maior lição seja esta: admirar a grandeza sem transformar tudo em trincheira política.
Messi e Cristiano Ronaldo são extraordinários.
Mas Pelé é eterno.
E enquanto o Brasil sonha com o Hexa, que nossos atletas honrem a memória daqueles que vieram antes, vistam a camisa da Seleção com orgulho popular e levem novamente ao povo brasileiro a alegria de ver sua história continuar sendo escrita nos gramados do mundo.
Porque a camisa amarela não é de um grupo.
É de uma nação inteira.
E a esperança, assim como o futebol, sempre pertence ao povo.

