Punição para a motorista foi apenas o segundo caso do tipo no Brasil, diz cicloativista

“Esse ciclo aqui precisava ser encerrado, e aí eu fico um pouco mais aliviada e com o coração um pouco mais tranquilo. Eu precisava encerrar esse ciclo. Foi muito importante voltar a viver. Ainda que a perda da Luisa, a ausência dela, me traz muita saudade, mas continuar a vida, e tentando trabalhar em função de outros que passam por essa situação também, de outras pessoas. O crime no trânsito não pode ficar impune”.
Assim se manifestou Adriani Silva após a condenação da corretora de imóveis Adriana Felisberto Pereira, responsável pelo atropelamento que matou a sua filha, a modelo Luisa da Silva Lopes, então com 24 anos, em 15 de abril de 2022. Adriana, já encaminhada ao sistema prisional, recebeu sentença de 28 anos e dez meses de prisão, além de ter que pagar R$ 500 mil por danos morais à família.
Para o cicloativista Hudson Luppi, que era amigo de Luisa, a resolução do caso, quatro anos após o crime, significa muito para a luta pela segurança cicloviária em geral: esse foi apenas o segundo caso de culpabilização de motoristas que atropelaram ciclistas no Brasil. O primeiro está relacionado à socióloga Marina Harkot, morta em São Paulo em 2020. José Maria Jr., que a atropelou, também foi a júri, após ter sido comprovado que ele bebeu, dirigiu em alta velocidade e não prestou socorro à vítima. Condenado em 2025, foi preso em abril deste ano após cinco meses foragido.
“É um precedente importante para fazer com que outros casos que, infelizmente, eventualmente aconteçam, sejam tratados da mesma forma e enquadrados como homicídio doloso”, comenta Hudson. O cicloativista critica também a tentativa de culpabilização da vítima estabelecida como estratégia de defesa. Os advogados de Adriana argumentaram que havia baixa visibilidade no local, Luisa estava com blusa preta e atravessou com o sinal fechado para pedestres – apesar de ter ficado comprovado que a ré bebeu várias doses de vodka antes de pegar o volante, trafegava em alta velocidade e, segundo os próprios agentes de segurança que atenderam a ocorrência, demonstrou “frieza” após o crime.
“A avenida Dante Michelini é uma das mais bem iluminadas, comparada com outras de Vitória. E a gente sabe que aquele ponto ali, em frente ao Clube dos Oficiais, tem uma questão que é muito importante, que é o fato de o tempo semafórico ser muito reduzido. Então é normal as pessoas não descerem da bicicleta para atravessar a rua a pé”, argumenta.

Violência em alta no trânsito
A violência no trânsito está em alta no Espírito Santo. O número de internações de ciclistas no Estado passou de 373, em 2024, para 565, em 2025, um aumento de 51,5%. No caso dos pedestres, em 2024, foram 1.239 internações, passando a 1.777 em 2025, em elevação de 43,4%. Os dados foram divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) em maio, a partir de levantamento da Vigilância de Acidentes de Transporte Terrestre. Ainda que os motociclistas representam 65,8% das pessoas internadas no Estado devido à violência no trânsito, existe uma preocupação crescente quanto à situação de ciclistas e pedestres.
A popularização das bicicletas elétricas têm aumentado ainda mais a preocupação com a violência no trânsito. De acordo com o painel do Observatório da Segurança Pública da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), desde 2024, foram registrados 804 sinistros (ocorrências diversas) relacionados às bikes elétricas, com 70 lesões graves e nove vítimas fatais. Somente nos primeiros sete meses de 2026, foram 456 sinistros, 50,49% a mais do que todo o ano de 2025 (303). O maior número de ocorrências da série histórica diz respeito a acidentes entre carros e ciclistas. Vila Velha é a cidade com maior número total de sinistros (276).
Mas a violência está em alta no trânsito como um todo. De acordo com o Observatório, entre 2024 e 2025, o número de mortes aumentou de 986 para 1.012 (2,63%). No primeiro semestre de 2026, foram 498 vítimas fatais, contra 466 ocorridas em igual período do ano passado (6,86% de aumento). A maior parte dos acidentes está relacionado a colisões (51,47%), e os atropelamentos de pedestres ficam em segundo lugar (15,08%). Nesse caso, não há dados específicos referentes a ciclistas em geral.
Demandas
Falando sobre a segurança cicloviária na capital do Estado, Hudson Luppi aponta que a única novidade nesses quatros anos desde a morte de Luisa Lopes foi, de fato, a condenação judicial da mulher que a atropelou. “Não houve melhorias. Não teve redução de velocidade em lugar nenhum de Vitória, nem na avenida principal e nem nas vias arteriais mais importantes. Existem vias que já são marcantes pela alta velocidade do tráfego, como a própria Dante Michelini e a Fernando Ferrari, que inclusive têm vários bike ghosts [monumentos em homenagem a ciclistas mortos]”, comenta.
Além da redução da velocidade, segundo Hudson Luppi, um dos pontos que precisa ser melhorado é o reduzido tempo semafórico para pedestres e ciclistas. As faixas de pedestres também são pequenas. O cicloativista critica ainda o fato de que, na atual gestão municipal de Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Cris Samorini (PP), praticamente não houve aumento do sistema cicloviário. Além disso, Hudson aponta o baixo número de ações de fiscalização de infrações, bem como insuficiência programas de educação no trânsito.
A pressão popular foi determinante para a condenação de Adriana Felisberto Pereira, como ressalta Hudson Luppi. Questionado se existe a expectativa de novas manifestações relacionadas ao tema, Luppi afirma que o momento pede uma pausa.
“Os R$ 500 mil de indenização não pagam uma vida, diante de tudo o que a família da Luisa sofreu, e 28 anos de prisão é muito pouco em relação ao que a Luisa tinha para viver. Mas, no momento, a gente precisa descansar um pouco. Passamos esses quatros anos batalhando para fazer esse processo andar, combatendo opiniões preconceituosas e a culpabilização da vítima. A gente precisa ter o direito ao luto. A condenação representa o fim do velório e o início de fato de um luto”, completa o cicloativista.

