Pesquisadora denuncia defasagem e mais de R$ 99 mil não cobertos pela bolsa Capes
A defasagem da bolsa destinada a pesquisadores brasileiros em doutorado-sanduíche no exterior levou a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e professora do Centro de Idiomas da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), Rafaella Machado, a recorrer a uma vaquinha para conseguir realizar parte da pesquisa nos Estados Unidos. Para os nove meses em que permanecerá em Boulder, no Colorado, ela calcula que terá de desembolsar mais de R$ 99 mil, enquanto a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) deverá custear cerca de R$ 77 mil.
A diferença, segundo ela, não está relacionada a gastos considerados supérfluos, mas principalmente ao custo de vida no local onde fará a pesquisa. O cálculo foi feito a partir de documentos fornecidos pela própria universidade que a receberá, incluindo despesas com moradia, seguro-saúde e outros custos necessários à permanência no país. “O cálculo deu mais de R$ 99 mil, que eu vou ter que bancar. Esse é o valor que eu vou ter que bancar”, explica. Segundo ela, nesse valor ainda não estão incluídas despesas como a viagem ao Rio de Janeiro para obtenção do visto, roupas específicas para o inverno e algumas taxas pagas no Brasil.

A pesquisadora afirma que o valor da bolsa do Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE) permanece em US$ 1.300 mensais desde 2010, enquanto os custos nos países de destino aumentaram. No caso dela, o documento emitido pela universidade norte-americana estima um custo de vida superior a R$ 3 mil mensais. “Então, isso dá mais de R$ 30 mil para viver os nove meses. Esse foi o principal custo. Por quê? Porque não tem reajuste no valor da bolsa do PDS que é há 16 anos desde 2010, mas o custo de vida aumentou desde então”, afirma.
A situação vivida pela pesquisadora faz parte de uma reivindicação mais ampla de pesquisadores selecionados pelo PDSE. Em junho deste ano, bolsistas encaminharam uma carta aberta ao governo federal solicitando a revisão dos valores pagos pelo programa. Segundo a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a mobilização reuniu 541 assinaturas e 189 relatos de pesquisadores que apontaram dificuldades para custear moradia, alimentação, transporte, seguros, taxas universitárias e exigências migratórias.
A entidade defende a atualização das bolsas de acordo com a inflação e o custo de vida dos países de destino, além da ampliação do adicional de localidade, do reembolso integral das passagens aéreas e da criação de uma reserva técnica para despesas obrigatórias. Rafaella afirma que passou a conhecer a dimensão coletiva do problema somente depois de ser aprovada para o doutorado-sanduíche. “As pessoas não sabem disso”, diz. Para ela, o desconhecimento sobre as condições financeiras do programa faz com que muitos pesquisadores descubram as dificuldades apenas depois da aprovação.
Outro problema apontado pela pesquisadora é o adicional de localidade, destinado a estudantes que realizam atividades em cidades consideradas de alto custo. Ela afirma que Boulder não está contemplada entre as localidades que permitem o recebimento do benefício e que já fez uma solicitação à Capes. “Mesmo assim ainda existem muitas cidades que têm um custo altíssimo de vida e mesmo assim a gente não tem direito ao adicional localidade”, afirma. Rafaella também relata ter pesquisado decisões judiciais envolvendo o benefício e encontrado o caso de um estudante que tentou obter o adicional judicialmente, mas não conseguiu.
Para a doutoranda, as regras atuais acabam criando uma barreira econômica para o acesso à internacionalização da pesquisa. “Acredito que é só pessoas que têm família que podem bancar (…) e conseguem ter acesso a fazer um doutorado fora do país”, afirma. A própria trajetória profissional de Rafaella é marcada pela tentativa de conciliar trabalho e formação acadêmica. Antes de ingressar no doutorado, ela acumulou jornadas de trabalho e, já durante o curso, chegou a reduzir sua carga para 25 horas semanais para conseguir frequentar as disciplinas. Ainda assim, relata ter enfrentado dificuldades para obter uma redução adicional de jornada. “Apesar dos meus esforços, que não foram poucos até então, há sempre um empecilho institucional. Tem sempre uma instituição que parece que está dizendo: olha, esse lugar não é para você”, relata.
A pesquisa que vai ser desenvolvida nos Estados Unidos trata da construção discursiva de gênero e sexualidade na formação linguística de professores de inglês. Rafaella pretende investigar os retrocessos ocorridos nos últimos 15 anos e discutir a formação de professores para abordar essas questões na educação. A experiência com o Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE), entretanto, fez com que a pesquisadora passasse a questionar as condições materiais oferecidas pelo programa.
Para ela, políticas públicas de incentivo à educação e à pesquisa precisam garantir condições concretas para que os beneficiários possam desenvolver suas atividades. “Qualquer tipo de incentivo à educação e à pesquisa no Brasil não pode ser feito pela metade, ela não pode ser incompleta”, afirma, ao apontar que é necessário garantir condições mínimas para que pesquisadores possam morar, comer e se locomover durante a permanência no exterior.
Antes de lançar a vaquinha, Rafaella pretendia vender seu único patrimônio, um Fusca 1978 que havia reformado durante três anos. O veículo pegou fogo em 19 de setembro. Sem o carro como alternativa para levantar os recursos, ela decidiu recorrer à arrecadação. Na campanha, Rafaella afirma ter optado por transformar a vaquinha em uma denúncia sobre as condições de trabalho e financiamento da educação e da pesquisa. “A primeira coisa que me veio à cabeça foi transformá-la em um protesto, um protesto-denúncia sobre a precarização, a desvalorização, a falta de respeito com profissionais da educação no nosso país”, afirma.
Para a pesquisadora, a necessidade de buscar recursos entre familiares, amigos e desconhecidos expõe uma contradição na política de internacionalização da pesquisa. “O apoio financeiro tem que vir do próprio governo”, afirma. “Já que é um governo que fala que investe na educação, mas aí você vê as diferenças”, observa. A campanha, lançada nesta segunda-feira (21), se soma à mobilização de pesquisadores que reivindicam mudanças no programa de doutorado sanduíche e pretende chamar atenção para a desvalorização e as condições oferecidas a quem depende de financiamento público para realizar pesquisa fora do país. Rafaella afirma ainda que chegou a considerar não participar do programa caso soubesse previamente das despesas envolvidas. “Se eu soubesse, eu provavelmente nem teria tentado”, relata.

