Ou como abrigar gato e cachorro debaixo de um mesmo palanque no Sete de Setembro

Antigamente, o Sete de Setembro em Vitória era uma beleza de se ver. O capixaba acordava cedo, tomava um café com pão de sal e ia para a Avenida Beira-Mar. A maior polêmica do dia era saber se o iate de algum ricaço na Baía ia atrapalhar a visão das canoas ou se o sol de mormaço ia derreter o gelo no isopor do ambulante. O imperador dava o grito lá longe, o povo comia uma moqueca e a soberania nacional estava garantida até o próximo veraneio em Guarapari.
Hoje em dia, a pátria progrediu tanto que o civismo virou caso de polícia, direito processual e, principalmente, pré-campanha eleitoral. O Sete de Setembro virou o maior reality show político capixaba, onde o principal esporte oficial é testar o nível de falsidade das autoridades por metro quadrado e descobrir quem consegue sorrir com mais dentes enquanto segura um punhal nas costas.
Aqui na capital, o desfile deste ano quase não foi realizado porque a prefeitura resolveu tentar interditar ou barrar os alvarás da avenida em cima da hora. Uma pirueta burocrática tão “surreal” que o governo estadual teve que correr para o plantão do Tribunal de Justiça, provando que, na nossa República, até o patriotismo capixaba precisa de liminar judicial e carimbo do juiz para marchar na rua. No fim, a Justiça mandou abrir a Beira-Mar e o espetáculo do cinismo foi autorizado a começar.
O palanque oficial parecia uma sala de espera de consultório dentário onde ninguém se bica, mas todo mundo mantém o maxilar travado num sorriso para não estragar o feed do Instagram. Lá estava o atual inquilino do Palácio Anchieta, o governador Ricardo Ferraço (MDB), tentando manter a pose de estadista equilibrado e equilibrando-se nas pesquisas eleitorais, enquanto segurava a corda da bandeira com a firmeza de quem não quer largar o cargo. Logo ao lado, vivendo uma verdadeira “Guerra Fria” protocolar, a prefeita Cris Samorini (PP) – escalada de última hora após o titular renunciar para fazer campanha – mantinha uma presença discretíssima, hasteando a bandeira de Vitória e fingindo uma súbita miopia para não encarar o rival antes de ir embora mais cedo.
Enquanto isso, no andar de cima da República, o Grito do Ipiranga nacional, em Brasília, ecoou com o som de notificações do Judiciário e o ranger de dentes do Legislativo. Para os candidatos à presidência, o feriado da pátria foi menos de celebrar a independência e mais de declarar independência dos respectivos processos e ilações. O desfile em Brasília virou uma passarela de sorrisos amarelos: todos calculando quantos votos perdem com a hecatombe que atingiu o Supremo Tribunal Federal e se esse decidir canetear mais um bloqueio de contas, um levantamento indevido, justamente na véspera da eleição. Olhares se cruzam, mas não se encontram. Executivo, Legislativo e Judiciário, todos de bico.
Congressistas divididos entre aplaudir os tanques na avenida ou correr para blindar as emendas de relator, que andam mais ameaçadas que o pão de sal do café da manhã capixaba. Em 2026, a soberania nacional não se mede mais por canhões ou baionetas, mas por quem tem a melhor narrativa no TikTok e o melhor advogado criminalista no WhatsApp. A crise do STF dos últimos dias acobertou qualquer patriotismo estridente. Virou briga de rua, um vale-tudo com direito a dedo no olho e chute nas partes íntimas.
Voltando a Vitorinha, a harmonia cívica era de chorar. O governador discursava ratificando a “independência sem partido”, enquanto a oposição nos bastidores contava quantas viaturas da Guarda Municipal foram posicionadas para garantir que o palanque alheio não ficasse bonito demais na foto de capa dos portais de notícias.
O verdadeiro desfile, porém, era no asfalto e nas calçadas, onde a caça ao voto foi frenética. Lorenzo Pazolini (Republicanos), o ex-prefeito delegado que agora desfila com o apoio oficial de Magno Malta, preferiu a tática do “estou no meio do povo, mas não me misturo com o palanque”. Circulava pela calçada distribuindo apertos de mão com a velocidade de quem precisa garantir o voto evangélico, o da associação de moradores e o do tiozinho vendedor ambulante antes do almoço. Nas redes sociais de Pazolini, os vídeos patrióticos subiam mais rápido que os helicópteros do Notaer. Mas perdeu o trio dos bolsonaristas na Terceira Ponte. Em retaliação, Magno Malta mandou subir Marcos Do Val e o colocou ao lado de Maguinha. Por um dia. Poucas horas. Mas um gesto marcante.
Para não deixar a centro-direita e a direita monopolizarem o verde e amarelo, o deputado Helder Salomão (PT) também botou o bloco na rua. Postando fotos com um civismo “progressista, capixaba e totalmente fiel a Lula”, Helder desfilava sorridente, tentando convencer o eleitor de que a moqueca dele é a única que realmente leva o tempero da verdadeira mudança do trabalhador, sem o “sal” do Palácio Anchieta.
Correndo por fora da polarização tradicional, os “azarões” da disputa faziam o próprio Sete de Setembro alternativo. Breno Barcelos (Missão) gravava conteúdos para as redes sociais, tentando explicar ao eleitor que sua candidatura não é uma miragem, enquanto panfletava com o fervor de quem tem poucos minutos para convencer o capixaba de que a “missão” dele na terra é governar o Estado. Enquanto isso, na ala mais à esquerda da avenida, Rafael Demuner (UP) tentava politizar o desfile, lembrando ao público que a verdadeira independência só viria quando o trabalhador controlasse os meios de produção e o preço do quilo do robalo no Mercado da Vila Rubim.
O termômetro das cinco mil almas presentes na calçada não mentia: se a banda da PM passava, o povo batia palma; se o político acenava, o sujeito fingia que estava ajeitando o boné ou coçando a orelha para não dar corda. A inflação no Espírito Santo não é de preços, é de ego.
A verdade é que o Sete de Setembro já foi uma data boa para se comemorar. A gente celebrava a separação de Portugal e o fim da opressão da Coroa. Agora, a imprensa capixaba assiste à torcida para ver quem vai conseguir empurrar o outro do palanque sem que o Tribunal Regional Eleitoral perceba. Se Dom Pedro I soubesse que o grito heroico terminaria 204 anos depois em uma disputa de liminares para ver quem manda fechar o trânsito da Avenida Beira-Mar, teria mudado o rumo e ido abrir uma pousada em Itaúnas para viver de forró e brisa do mar.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

