
Ou como o Brasil vive em uma realidade paralela
Era uma manhã qualquer em Vitória, mas o noticiário parecia vir de uma galáxia distante. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciava, com pompa e circunstância, que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para 2026 seria de R$ 4,96 bilhões. Sim, bilhões, não milhões. Dinheiro suficiente para construir hospitais, equipar escolas e abastecer viaturas, mas que, por decisão superior, será usado para abastecer candidatos nessas Eleições 2026.
Desse derrame, o PL embolsou R$ 881,6 milhões, o PT R$ 615,3 milhões e o União Brasil R$ 526,2 milhões. Juntos, concentram quase 40% do bolo. Enquanto isso, partidos nanicos recebem quantias que mal pagam o aluguel de um comitê. No Espírito Santo, com suas 10 vagas para deputado federal, num cálculo rápido, cada cadeira equivale a um custo médio de R$ 20 milhões em fundo eleitoral. É como se cada assento viesse com estofado de veludo e direito a mordomia vitalícia. E cada deputado viesse com manual de instruções: “Custa caro, pode não funcionar direito e não tem garantia”.
E não se trata mais de imprimir santinhos, fazer cartazes. Isso é coisa de século passado. Hoje, o dinheiro público financia impulsionamento digital, marketing segmentado, contratação de equipes de mídia, aluguel de estúdios e produção audiovisual. A democracia virou um grande reality show, com candidatos disputando quem tem o melhor jingle no TikTok. E vale fazer dancinha! A melhor dancinha dos famosos leva o prêmio. O cidadão, claro, paga a conta, mas não ganha nem pipoca para assistir.
Segundo os limites de gastos fixados pelo TSE, uma campanha para deputado federal pode gastar até R$ 3,1 milhões por candidato. Multiplique isso pelas dezenas de postulantes em cada Estado e teremos uma cifra que faz corar qualquer banqueiro suíço.
O eleitor brasileiro e o capixaba pagam duas vezes: primeiro o financiamento da campanha, depois têm que bancar pelos escândalos que surgem no pós-eleição. É como comprar ingresso para uma peça ruim e, na saída, ser obrigado a pagar pelo bis. A justificativa oficial é “fortalecer a democracia”. Mas democracia não se fortalece com cifras astronômicas; fortalece-se com transparência, fiscalização e responsabilidade. Três palavras que, curiosamente, sempre aparecem nos jingles eleitorais, mas são quase esquecidas depois dos votos depositados.
O dilema é cruel. Sem financiamento público, o poder econômico privado compraria a política. Com financiamento público nos valores atuais, a política se transforma em um sorvedouro de recursos. Estamos com essa segunda opção. Mas, ao que parece, a dose foi exagerada. O remédio virou veneno. E o Espírito Santo, com os modestos 10 deputados federais e 30 estaduais, paga caro para manter um espetáculo que custa muito mais do que vale.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

