Em poucos meses de mandato, Cris Samorini encara cenário com aumento de cobranças

Na legislatura atual, a bancada de oposição da Câmara de Vitória vinha apresentado dificuldades para se destacar no enfrentamento à gestão municipal, tanto pelo número reduzido de parlamentares quanto pela disposição limitada dos mesmos em comprar brigas. Agora, o cenário começa a se alterar significativamente. Vereadores decidiram mudar de lado, os embates no Plenário ficaram mais acalorados, e a prefeita Cris Samorini (PP), com pouco mais de dois meses do início do seu primeiro mandato político, tem sido alvo frequente de cobranças.
O cenário passou a tomar uma nova configuração ainda na reta final do mandato do ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), que renunciou em abril para poder se candidatar a governador. No período anterior à desincompatibilização, Pazolini “mexeu os pauzinhos” para adiar a eleição da Mesa Diretora da Câmara, que, conforme o Regimento Interno, estava prevista para acontecer em agosto.
Vereadores da base defenderam o adiamento sob o argumento oficial de que seria melhor esperar passar as eleições gerais, para que um processo não impactasse no outro. Nas conversas de bastidores, surgiu a informação adicional de que o ex-prefeito considerava que teria mais influência sobre o pleito da Câmara depois da votação de outubro, considerando um quadro em que ele seria o vencedor na disputa para governador. Mas a verdade sobre as intenções de Pazolini continua no terreno da especulação.
O fato é que, mais do que simplesmente influenciar na escolha do novo presidente, Pazolini buscou interferência nas regras internas da Casa. O movimento desagradou à grande maioria dos vereadores, que formaram o G16, grupo dos que defendiam a manutenção da data do pleito interno. Em meio às disputas, veio a público o áudio de uma suposta ligação telefônica em que o ex-prefeito de Vitória, tratando a si mesmo como “futuro governador”, pressiona o vereador Dalto Neves (SD), interessado no cargo de presidente da Câmara, a desistir de reivindicar a manutenção do pleito em agosto.
Por fim, o atual presidente do Legislativo, Anderson Goggi (Republicanos), aliado de Pazolini, conseguiu uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) impedindo a realização do pleito interno em agosto. Do ponto de vista jurídico, a base governista conseguiu a validação de seu argumento sobre a escolha da nova Mesa Diretora. Na arena política, porém, foi uma “vitória de Pirro”. Goggi demonstrou fraqueza ao apelar para o STF.
Dois meses após a decisão do Supremo, Dalto Neves, agora convertido em opositor da gestão, continua abordando o tema da eleição da Mesa Diretora em discursos no Plenário e intensificando as críticas à gestão municipal. Outros que mudaram de lado foram Camillo Neves (PP) e Aylton Dadalto (Republicanos) – este último, mesmo filiado ao partido de Pazolini, já anunciou publicamente que apoiará Ricardo Ferraço (MDB) para governador.
Dentre os vereadores que já faziam parte da oposição, Pedro Trés (PSB) e Professor Jocelino (PT) elevaram o tom das cíticas e cobranças nas últimas sessões, a ponto de Jocelino ter sido chamado de “mal-educado” por vereadores da base. Em outros tempos, Karla Coser (PT) é quem costumava protagonizar sozinha os embates.
Eleições à vista
Não se deve desconsiderar o impacto das articulações eleitorais na mudança de ânimo na Câmara de Vitória. Mesmo que até pouco tempo apoiassem Pazolini, a maioria dos vereadores é filiada a partidos que compõem a grande frente governista estadual, capitaneada por Renato Casagrande (PSB) e pelo atual governador, Ricardo Ferraço (MDB).
A própria prefeita atual é do Progressistas (PP), partido que compõe esse campo político. Inclusive, Camillo Neves, também do PP, passou a ser cogitado como vice na chapa de Ferraço. Os vereadores que viraram a casaca nem podem ser acusados de “infidelidade ideológica”, já que Ricardo Ferraço é tão direitista quanto Pazolini, ainda que haja diferenças significativas entre os dois.
Atualmente, cinco vereadores permanecem fiéis a Pazolini/Samorini: Anderson Goggi, Davi Esmael e Luiz Emanuel Zouain, os três do Republicanos; Leonardo Monjardim (Novo), líder do governo no Legislativo; e Armandinho Fontoura (PL). Goggi, Monjardim, Zouain e Davi compõem a atual Mesa Diretora. Entretanto, hoje, o risco de eleição de um novo presidente hostil à gestão municipal aumentou – Dalto Neves tem a preferência do G16.
Enquanto o pleito interno e as eleições gerais não chegam, os parlamentares têm reclamado com frequência no Plenário sobre falta de retorno de secretários municipais em relação às suas demandas. Até mesmo Mara Maroca (PP), colocada por Samorini como vice-líder de governo, afirmou na última quarta-feira (17) que não iria “passar pano”, questionando ainda se algumas questões “não estão chegando para a prefeita”.
No fim das contas, o movimento de Pazolini parece ter tido o efeito contrário do que desejava: hoje, sua influência entre os vereadores é menor do que antes. Mas tudo pode mudar novamente depois de outubro.

