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PL faz encontro em Vitória que lembra mais um culto

Com a presença do pré-candidato Flávio Bolsonaro, religião domina o evento; Pazolini adere ao bolsonarismo; e mais

Rubem Roschel

Atraso inicial

O Encontro do PL, no sábado (19), estava marcado para as 9 horas, mas os anfitriões só chegaram por volta das 11 horas. Enquanto quem convidou não chegava, os convidados ficaram ouvindo hinos, cânticos, louvores e jingles de campanha em decibéis acima do suportável, esperando o momento de encontrar o filho ungido representante do bolsonarismo. O Espaço Patrick Ribeiro, contratado para o evento, ficou grande demais para um público que veio de diversas partes do Espírito Santo. Muitas cadeiras vazias davam a impressão de evento esvaziado. Todos já incomodados com o atraso e com a falta de informação. O filho do mito virá mesmo?

Trabalho ambulante

Enquanto isso, o ambulante tentava vender bandeiras, faixas e bonés “bordados a mão” com motivos bolsonaristas, para um público que, em grande parte, ainda permanecia do lado de fora do local. “Esse Bolsonaro mandou me prender e tem um parceiro meu, que também vendia produtos preso nos Estados Unidos. Não confio nesses caras, não. Mas preciso fazer uma grana”, revelou sem apontar qual seria o seu verdadeiro candidato e pedindo anonimato. Em contrapartida, uma senhorinha travestida de alemã, ostentava a mesma tiara utilizada pela deputada federal por Santa Catarina Julia Zanatta, aquele ornamento motivo de tanto debate por ser associado ao nazismo. A deputada já deixou claro que se trata apenas de uma vestimenta alemã, sem qualquer outra conotação. Não dá pra saber se é a mesma interpretação da personagem presente ao encontro do PL. Muitos também com aquela bandeira dividida Brasil/Estados Unidos, marca recorrente de bolsonaristas, mesmo depois do tarifaço imposto ao país pelo Governo Donald Trump.

Velozes e furiosos

Eis que surge uma comitiva com seis veículos em alta velocidade passando pela área de desembarque do aeroporto de Vitória. Sem dúvida, tentavam ganhar alguns minutos, diante do atraso estabelecido. De um daqueles carros todo preto, com vidros fumê e um giroflex vermelho do lado, descem o pré-candidato Flávio Bolsonaro, o senador Magno Malta e a pré-candidata ao Senado Maguinha Malta, representantes do PL. Entram pelos fundos, para diminuir o impacto com o público. Nesse momento, o locutor Carlos Rudiney surge no palco montado, com um telão gigante ao fundo e dois telões laterais, para anunciar a chegada dos anfitriões. “Flávio Bolsonaro está aqui!” E o povo, sentado, levanta-se em júbilo, ao mesmo tempo que a música cresce a volumes estratosféricos, numa apoteose digna de cinema.

Plágio afinado

Mais 15 minutos de músicas, louvores, hinos evangélicos, jingles. “Teu nome é cura, tu és o sol…”, embala o fundo musical. “Uh! Flávio Bolsonaro!”, intercala o locutor. “Teu nome é força, teu nome é cura, tu és meu sol…” “Aquilo que hoje é dor, amanhã vai ser vitória”, encaixa outro hino. “Acredita em Deus, levanta a mão pra cima…”, toca a caixa de som. “Vou dizer uma coisa pra vocês: tentaram enterrar a direita no Brasil, mas a direita é semente. Onde enterraram uma, vai nascer dez”, brada Rudiney, plagiando a fala de Flávio, utilizada anteriormente para defender o pai preso. Na sequência ele pede para repetir o que fizeram em comício de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, durante a campanha passada. “Permitam recordar. Vamos acender os celulares. Vamos emanar essa luz para Jair Messias Bolsonaro”. As pessoas em êxtase acendem as lanternas dos aparelhos, enquanto o fundo musical, mais uma vez, vai às alturas. “Eu falo sempre pro Flávio, seu pai é a árvore, você é o fruto. A raiz é bolsonarista, os galhos são bolsonaristas”. Toca o jingle.

Espera pelo terremoto

Todos esperam pela entrada triunfal dos contratantes, mas o locutor, mais uma vez joga água na fervura. “Agora podem sentar. Só vamos aguardar a entrada do Flávio e aí eu digo: o chão vai tremer!”. E tem música pra acompanhar a fala: “o chão vai tremer… o céu vai se abrir”. Mais jingles, mais hinos, mais louvores. Anunciam e passam os vídeos das cidades visitadas por Flávio e companhia na pré-campanha. “Vitória será a próxima a entrar na filmagem”, anuncia. Eis que, finalmente, quase 40 minutos depois começam as saudações. Ao Partido Novo, ao Democracia Cristã…

Protagonistas tomam acento

E vamos à composição daqueles que estarão no palco, no centro das atenções. Por ordem de chamada: Marcos Caram (DC); Erick Musso (Republicanos); Lorenzo Pazolini (Republicanos); sobe a música, mais jingles, “eu sou Maguinha Malta… meu coração já confirmou… é Bolsonaro também…”. E prossegue o desfile: a suplente do senador Magno Malta Marcinha Macedo (PL); deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ); senador Rogério Marinho (PL-RN); os parlamentares capixabas do PL, o deputado federal Gilvan da Federal, e os deputados estaduais Capitão Assumção, Danilo Bahiense e Lucas Polese; a mãe da Maguinha, Katia Malta, Maguinha (PL) e o senador Magno Malta (PL) entram de mãos dadas. E o grande momento na voz do apresentador: “O filho da esperança. Aquele que vai resgatar a dignidade do Brasil (música atinge o auge): Flávio Bolsonaro!”. E o pré-candidato, ao contrário dos outros protagonistas, decide entrar por baixo, dando a volta no palco. E o locutor com a euforia em grau máximo dispara: “Todo mundo quer tocar, todo mundo quer pegar nele”, em tom apoteótico. “Cadê a música do Flávio?”. E o jingle de campanha invade o salão.

Levantai e orai

“Deus, pátria, família e liberdade. Obrigado, meu Deus, por esse momento”, ressoa o locutor, usando o bordão oficial adotado por quase todos os que tiveram acesso ao microfone. Após a reunião de todos os anfitriões nas cadeiras postadas no palco, é dada a largada para o evento em forma de culto. Comprovando, o locutor pergunta ao povo reunido: “Quantos aqui acreditam em Deus?”, E prossegue: “Posso pedir uma salva de palmas para Jesus?”. E para quem já estava a mais de três horas aguardando pelas falas dos pré-candidatos, serenamente ouve o anúncio de Rudiney: “Quero pedir nesse momento para que todos possam receber o pastor Jucimar Ramos”. E dá-lhe pregação. “Vamos orar, pedir intervenção divina. A gente não ganha nenhum lugar na política sem a intervenção de Deus”, sentenciou, invocando que Deus de Abraão interviesse na vida dos homens ali presentes para governar o Brasil. “Eu oro para que muitos anjos guerreiros sejam designados para cercar esse lugar e estabelecer esse ambiente como um ambiente espiritual para o Senhor Deus de Abraão, o Senhor governa todos os mundos os principados e potestades, os reis e poderosos estão abaixo do teu poder, debaixo da sua intervenção e nós clamamos por essa intervenção, hoje aqui Behan, Yeshua Ramashia. Amém”, finalizou, clamando bençãos para a pré-candidata Maguinha.

Dificuldades com o hino

Volta pro apresentador. “Tem camisa do Brasil, independente da seleção. E tem hino nacional brasileiro”. Toca o hino. Os telões mostram os anfitriões cantando. Mão direita colocada sobre o lado esquerdo do peito para todos. Exceção para o Capitão Assumção, em posição de sentido. Como a câmera focava cada um dos protagonistas, deu pra perceber algumas escorregadelas. A letra do Hino Nacional Brasileiro, de fato, não é tão simples de ser cantada e se torna um desafio considerável, por conta de uma série de fatores, ainda mais diante de um público. A letra, calcada no estilo parnasiano, é longa, traz um vocabulário e frases esdrúxulos, que quase ninguém usa no dia a dia. Ter tudo isso na ponta da língua não é para qualquer um. Se bem que seria minimamente razoável que aqueles que pleiteiam cargos públicos soubessem cantar o hino de frente pra trás.

Multiplicação das sementes

De volta ao clima do evento. “Volta Bolsonaro!”, chama o locutor para a formação do coro. “Tentaram enterrar a direita. Mas somos semente e vamos multiplicar”, repete. Sobe a música. E, finalmente os discursos. Começa pelo mais jovem, o imberbe deputado estadual Lucas Polese. Um discurso incisivo, pontuando as principais bandeiras de momento do PL. Contra o PT, contra Alexandre de Morais, pela anistia aos presos pelo ato golpista de 8 de janeiro, apoio a Maguinha e a libertação do mito Jair. Contou que esteve com o ex-mandatário quando este visitou o Estado para receber honrarias, não esquecendo o momento em que foram comer “casquinha de siri”. “Foi incrível e inesquecível”. Contou também que a admiração por Jair Bolsonaro era muito e revelou que estava com a camisa de campanha por baixo da amarelinha da Seleção Brasileira. “Estou com a minha camisa por baixo. Minha camisa ‘suadinha’. Que eu fiz a campanha no passado”, apresentou uma camisa preta com as feições tracejadas do ex-presidente.

Discursos em série

Na sequência, as falas se sucederam e os temas também. Capitão Assumção, Gilvan da Federal, chamado de a “Muralha Capixaba”, que brada: “Eu não gosto de bandido, Lula é bandido”, com um coro menor na plateia. Cada um tentando ser mais incisivo nas críticas temáticas. Para fechar os discursos: “Deus, pátria, família e liberdade”, provocando um frenesi na plateia. O senador potiguar Rogério Marinho, chamado pelo locutor de “pai de todos”, destoou com a fala mansa e tranquila. Sem deixar de criticar a prisão de Jair Bolsonaro e incitar o povo a gritar com ele: “Mito”. Foi um dos poucos, tirando Flavio a lembrar da presença de Pazolini. “O amigo italiano. Lorenso, né?”.

Leitor

Pazolini aceita o bolsonarismo

Pazolini abraçou as teses da extrema-direita, mas tentou sair do lugar comum ofertando a experiência obtida na Prefeitura de Vitória no combate ao feminicídio. Falou pouco e saiu de cena. Maguinha tentou fazer um discurso contundente. Falou da formação em um lar evangélico, do apoio da mãe, do exemplo do pai, da convivência com internos no programa de recuperação de drogados capitaneado pela família Malta e do chamado de Deus para adentrar na política, coisa que negara a vida toda. Agora, diante da missão, pretende ser a “primeira senadora conservadora do Espírito Santo”. No mais, manteve a linha discursiva e ampliou a crítica a Alexandre de Moraes, chamando-o de “imperador”.  Ao fim, chama o senador Magno Malta e cantam juntos: “Deus te trouxe aqui para te guiar…”.

Magno: o ‘impressionável’

Em seu momento, Magno busca chamar a atenção de todos. “Olha aqui pra mim! Presta atenção! Olha aqui pra mim!”, repete a todo momento. Pede para o público refletir, diante dos pedidos para que saia governador, onde ele estaria melhor nesse momento, se aqui no Estado ou em Brasília. E reforça que permanecerá em Brasília. “Sou impressionável. Ninguém me pressiona”, soltou.  E lançou a necessidade de ter no Senado “45 pitbulls famintos, sem vacina, com sangue nos olhos”. O objetivo seria lutar pelo impeachment de Alexandre de Moraes. Também analisou a situação das pré-candidaturas no Estado. “Temos dez candidatos a deputado federal e temos condições de fazer três”, contabilizou. Sem esquecer de enaltecer a filha, Maguinha, em busca da de uma vaga no Senado. Para não dizer que deixou o futebol de lado, conclamou a todos para torcer pela Argentina. “Não vou torcer pra Espanha, porque o primeiro-ministro lá é de esquerda. Vamos torcer pelo Milei (presidente argentino), que é de direita. Temos que acabar com a esquerda e comemorar os 40 anos de Messi”, se posicionou. Também anunciou que pretende criar o PL 70, “para que os avós possam ensinar aos netos o que é Deus, pátria, família e liberdade”.

Piadinha infantil

E assim passamos para o “gran finale”, o momento tão aguardado, depois de mais de três horas de discursos. Antes, porém, na chamada feita pelo locutor, um pequeno incidente. Rudiney, elevando a voz, lança para Flavio Bolsonaro: “Cada pancada que você leva. Você vai carregar o Brasil nas costas”. O senador então leva a mão ao rosto, tampando a boca, no mesmo momento em que uma voz masculina diz: “Levo picada não, fala pra ele”. A piadinha de quinta série pode ser ouvida por quem estava acompanhando o evento pelo YouTube, e não é possível identificar quem a fez. A assessoria do pré-candidato foi procurada, de acordo com o UOL, mas não confirmou o que teria sido dito ou se foi o senador quem falou. Na sequência, Flávio vira para o senador Magno Malta que está ao lado dele, e confirma que é “pancada”, e não “picada”. Desta vez, é possível ver e ouvir Malta dizendo “pancada”, e Flávio repetindo a palavra.

Palavra de aquecimento

Flávio entra em cena. Calça jeans e camisa da Seleção Brasileira. O celular no bolso traseiro. Se diz triste, por conta das últimas ações do ministro Alexandre de Moraes, que o proibiu de visitar o pai até o final das eleições. “Não é que ele não tem coração. Ele parece sem alma, parece uma potestade, parece um demônio usando uma pessoa pra fazer mal pros outros”, reclamou. Mas decidiu dar uma “palavra” para quem estava ali, “porque hoje vocês aquecem o meu coração de novo”. E leu salmos, citou versículos e garantiu que não vai baixar a cabeça, que não vai se intimidar diante dos últimos acontecimentos. “Isso vai me dar ainda mais força, ainda mais energia. Porque aqui ó (mostra o braço estendido), aqui tem sangue de Bolsonaro nessa porra! Eu não vou baixar a cabeça pra tirano nenhum”, disparou, movimentando a plateia que estava desanimada nesse momento, por conta do tempo do evento e da fome que apertava. Alguns dos participantes, disfarçadamente, abriam sacolas com lanchinhos, dividiam bocadas de sanduíches, para tentar também se equilibrar na mesma frequência dos anfitriões.

Recém-convertido

“Aí eu lembro de um outro versículo. Aqui, eu não sou pastor não, tá gente. Mas é porque eu tô começando a engatinhar. Eu me converti em outubro de 22”, justificou-se o senador, para dar continuidade à pregação. E soltou um Romanos 12:19. “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.” Ato contínuo, críticas ao atual presidente da República, ao PT, mais algumas a Alexandre de Moraes, ao aparelhamento das instituições, ressalvando que os policiais federais voltarão a ter autonomia para trabalhar. “Vocês voltarão a ir atrás de bandidos de verdade. Vocês serão valorizados a partir de 2027. Mas vocês que estão se prestando a um papel de destruir o país, cumprindo ordens ilegais, a lei vai valer para vocês, não tenho a menor dúvida disso”, sentenciou.

Celular vale mais que carro

Projetou que hoje ninguém consegue andar em paz na rua, sem medo de ter um celular roubado. Pegando o celular do bolso de trás da calça, apontou para o aparelho dizendo: “As nossas vidas hoje estão aqui, na palma da nossa mão. Dá mais trabalho pra você, dá mais dor de cabeça, se você tiver um celular roubado do que um carro roubado, uma moto roubada. Tá tudo aqui. Suas senhas, seus aplicativos, sua memória, sua história”, analisou. Nos comparativos, avaliou que quem rouba celular deve ficar preso, porque a diferença entre um furto de celular pra alguém que é assassinado por causa do celular é muito pequena. “Se o marginal não for com a sua cara, você dá o celular, ele leva embora, mas antes dá um tiro na sua cabeça”, refletiu.

Afastando a misoginia

Com os problemas enfrentados na campanha, nos últimos dias, por conta das brigas com Michelle Bolsonaro e falas misóginas de aliados, que tem afastado o público feminino, um dos temas que foi retomado por Flavio no encontro foi a proteção às mulheres. “Falar de quem agride mulheres. Vamos entender, gente. A pauta de defesa das mulheres é da direita. Quem fica feliz ou quem não fica indignado quando você vê um covarde, ex-companheiro de uma mulher, enfiando a porrada nela dentro do elevador, como tem um monte de bicho que todo mundo vê por aí?”, questionou. 
Reforçou que é pai de menina, dizendo ter duas. “Se tem um cara que vai ficar passando a mão na minha filha, vai ficar bolinando a minha filha, vai meter um dedo dentro da minha filha. A vontade que dá é de quebrar na porrada, não é? Mas a gente tem lei no Brasil. Esses marginais vão ter que ficar assim muito mais tempo preso. Não vai mais sair em audiência de custódia”, prometeu. E minimizou a legislação existente. “Esse pedaço de papel, que é a Maria da Penha, não é o que vai defender as mulheres. O que vai defender as mulheres, é o que fez aqui o Lorenzo, enquanto prefeito de Vitória, e que vai fazer no Governo do Estado, porque tem o nosso apoio como pré-candidato a governador do Estado. E é o que nós vamos fazer em todo o Brasil. Usar a tecnologia para proteger as mulheres de verdade”, destacou, dando luz ao projeto anteriormente citado por Pazolini.

Transfobia em pauta

A tentativa de minimizar os ataques à campanha, por conta da pauta misógina, fez com que o discurso em Vitória fosse eivado de referências. “Em média e fisicamente os homens são mais fortes nas mulheres, não são? E as mulheres são muito mais inteligentes do que os homens. Há quem bate palma pra ter uma deputada trans assumindo a presidência da Comissão da Mulher na Câmara”, atirou para a plateia em referência à deputada federal Hérica Hilton. Se houve defesa das mulheres, em determinado grau, ficou latente a transfobia que, desde 2019, é entendida pelo STF, como ato de discriminação, e deve ser tratado como crime de racismo. Caminhando para o fim, sustentou que terá “Bolsonaro subindo a rampa do Palácio do Planalto em 2027.” Aproveitou o momento para levar uma placa com a estampa de Jair Bolsonaro para cima do palco. “Quem está com saudade do Bolsonaro? Daqui a pouco a gente vai matar a saudade dele, em nome de Jesus”, espiritualizou.

As propostas e a fome

Depois, desfiou uma série de propostas de um possível programa de Governo a ser adotado, caso eleito, incluindo o combate à criminalidade, construção de mais presídios e vagas para internos, redução da maioridade penal, inclusive para 14 anos, em casos mais graves, e diminuição dos juros. Entre tantas promessas, destacou-se o fim da reeleição. Algumas pessoas do público buscavam os últimos biscoitos. A fila para a água estava grande e acabaram os copos descartáveis em um dos bebedouros. Dificuldades da plateia à parte, o senador parecia querer encerrar o evento. Mas, decidiu chamar para o seu lado a pré-candidata ao Senado. Convocou-a para fazer parte do Senado, porque essa Casa, segundo Flávio, “foi o grande problema do Governo Bolsonaro”. “Na Câmara, nós temos uma quantidade boa de deputados que são de centro-direita, que nos apoiam, que defendem das nossas bandeiras”, computou.

Música para entreter o estômago

Nesse momento, alguns fieis já eram derrotados pela fome, diante da proximidade das 14 horas. Mas, mesmo assim, de mãos dadas e depois abraçado à pré-candidata ao Senado, Flávio exortou aos dois cantarem uma música e, diferentemente do que fez o senador Magno Malta anteriormente, sem utilizar o playback. E assim foi: “Quando estiver frente ao mar e não puder atravessar, chame este homem com fé. Só ele abre o mar…”. O povo já pensando na janta e o pré-candidato a presidente, depois da cantoria, decide conversar com uma menina de seis anos, levada ao palco. “Eu vou conversar com você rapidinho, pra gente poder liberar o pessoal pra almoçar, que tá todo mundo com fome, sabia?”, disse o senador em um alento para o público. Questiona a garotinha de seis anos se ela gosta do “tio” Bolsonaro. Se o papai e a mamãe dela falam do “tio” Bolsonaro em casa, se ele é bom, se ele é legal? A timidez impede a pequena de se expressar, diante da pressão das perguntas e da plateia faminta. “Você quer dar um recado pro tio Bolsonaro? Tio, não, né, vovô. Você quer falar alguma coisa pra ele? Ele não vai poder ouvir agora”, lamentou o senador, cochichando alguma coisa no ouvido da menina, mas a resposta dela foi praticamente inaudível.

Mezzo show, mezzo culto

Fim? Ainda não, apesar de parte da plateia já ter debandado atrás de suprir as necessidades famélicas. Sobe mais uma criança de colo para abraços e beijos do pré-candidato. “Oi, quem é meu amigo aí? Quem é meu amigo aí? Meu amigo Flávio”. “Pessoal, caminhando aqui pra concluir, então prometo que não vou fazer igual o Magno, que se despediu três vezes antes de devolver o microfone. É de verdade. Vou acabar…”, acelerou o senador. Mas ainda, não. Teve um rito final, onde Flávio levou pela mão todos os que estavam com o protagonismo no palco, num misto de final de musical com copa do mundo. Todos felizes, contentes e saltitantes de mãos dadas para os aplausos e últimas fotos e filmagens. Poucos famintos que ali permaneceram viram. Um show. Ou um culto. Como preferir.

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