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A faxina social silenciosa

O Mapa da Violência 2012 – A cor dos homicídios no Brasil – reflete com precisão o retrospecto do governo Paulo Hartung (2003 – 2010) no que se refere aos (não) investimentos em políticas públicas voltadas às populações mais pobres, sobretudo os jovens negros.

Qualquer dado que se analise no Mapa referente ao Espírito Santo é assustador. Por exemplo, com base nos dados de 2010, o Estado ocupa a segundo posição entre os que ostentam as maiores taxas de homicídios de negros, com 65 homicídios por 100 mil habitantes dessa etnia.

São níveis alarmantes e inaceitáveis, se considerarmos que o Brasil, em 2010, registrou uma taxa geral de 27 por 100 mil. A taxa brasileira, segundo o Mapa da Violência, foi a quinta maior do mundo entre 90 países pesquisados.

Se analisarmos os números absolutos de homicídios, o espanto com os dados capixabas não é diferente. Os jovens negros (o estudo inclui na conta os pardos) das periferias foram as principais vítimas da violência no Estado. Em 2002, foram assassinados 809 negros; em 2006, 1.115; e em 2010, 1.303: um aumento de 61%.

O estudo faz uma comparação com o número de brancos mortos no mesmo período para mostrar que a violência no Brasil tem cor. No caso do Espírito Santo, morreram, respectivamente, 287; 257; 262 brancos no mesmo período estudado: um aumento de 8,7%. Somente no ano de 2010, para cada cinco negros assassinados, morreu um branco no Estado.

O objetivo do Mapa da Violência é mostrar que a população negra, sobretudo os mais jovens, são as vítimas mais vulneráveis da violência. É verdade que no Estado, o segundo mais violento do País, o risco de ser assassinato é grande para negros e brancos, jovens e velhos. Afinal, convivemos com taxas de países que estão em plena guerra civil.

Do estudo se extrai que a falta de políticas sociais preventivas para a população de baixa renda, que na sua maioria é composta por negros e pardos, está diretamente imbricada ao aumento das taxas de homicídio entre esse segmento da população.

Outro dado interessante do Mapa mostra que o índice de vitimização de negros no Espírito Santo é muito maior ao da média brasileira. Nos comparativos 2002, 2006, 2010, percebemos que a taxa de vitimização de negros no Estado sempre foi o dobro da nacional.

O Mapa ainda alerta que o Espírito Santo faz parte do grupo de oito estados que registraram mais de 100 homicídios para cada grupo de 100 mil jovens negros.

Esse dado por si só confirma que o governo Hartung não investiu em políticas sociais preventivas que pudessem, prioritariamente, evitar que esses jovens engrossassem as estatísticas de homicídio nesse segmento.

A realidade é dura e cruel, mas o fato é que a sociedade, de maneira geral, não se importa com as mortes de negros pobres das periferias. Ao se deparar com a notícia de que “mais um jovem foi assassinado por grupos rivais”, a saída mais confortante é atribuir a morte prematura ao problema incontrolável das drogas.

A frase que poderia ser pronunciada diante do corpo inerte em decúbito dorsal sob uma poça de sangue é mais ou menos assim: “Fazer o que, nê? Afinal, quem mandou se envolver com drogas. O fim é sempre esse”.

No imaginário coletivo, a culpa, no final das contas, não é do poder público, da família ou da polícia. A sociedade também está isenta e não precisa carregar nenhuma culpa pela morte prematura daquele jovem. Há os que ainda não tem coragem de verbalizar mas, em pensamento, soltam a frase: “Melhor assim, é um a menos para roubar e matar o cidadão de bem”.

E a faxina social segue silenciosa.

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