O governo acuado, o PT encurralado e a presidenta contestada – eis a síntese dos primeiros oito meses do quarto governo liderado pelo Partido dos Trabalhadores.
Na realidade, a contagem do segundo governo Dilma soma dez meses, tal foi a mudança de tom imediatamente após a vitória eleitoral de fins de outubro de 2014.
Ainda está para ser escrita a crônica completa do transformismo presidencial de 2014 para 2015 mas, considerando o que foi dito por Dilma 1 na campanha e o que passou a ser feito na gestão do governo de Dilma 2, o povo brasileiro tem razão em ficar perplexo.
Parecia que tudo ia bem e, de repente, ficou tudo ruim. Mesmo descontando as manipulações políticas e as distorções midiáticas, foi como a quebra de um encanto.
A Dilma Coração Valente da campanha eleitoral se transformou numa criatura reclusa, como se quisesse fugir do povo que a consagrou como a primeira mulher presidenta do Brasil. Teria se estressado com o jogo eleitoral? Tomou muito remédio para dormir? Perdeu o equilíbrio psicofísico ao fazer um regime radical para emagrecer? (Quem come muito “raditche” corre o risco de ficar com a boca amarga.)
Após as eleições, falou-se inicialmente num estelionato eleitoral que, segundo a oposição frustrada com a derrota, teria sido praticado por Dilma. Logo em seguida, começou a onda em torno da possibilidade de tirar a presidenta do Planalto mediante um processo de impeachment.
Bem que a onda foi engrossada pelo Tribunal de Contas da União e pelo deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, mas nada feito: mesmo sendo reprovada por mais de 70% da população, segundo algumas pesquisas de opinião, Dilma Rousseff não perdeu o direito a ficar no seu cargo até 1 de janeiro de 2019, pois conquistou mais de 50% dos votos de 2014.
E la nave va, com um baita rombo no casco.
Se medirmos a força do governo pelas manifestações de rua, Dilma está levando de 7 a 1, mas a disputa deixou de ser numérica. As passeatas convocadas pelas centrais sindicais na quinta-feira 20 de agosto foram minúsculas perto das manifestações de domingo 16 de agosto que exibiram o descontentamento da classe média e da elite econômica.
O que está claro é que o PT se desgastou a tal ponto que parece não ter a menor chance de disputar a presidência em 2018. O partido está no poder formalmente. A maior parcela do comando político foi passada ao PMDB, cujo objetivo é permanecer no topo e tirar o maior proveito possível da crise.
Se quisermos apelar para uma metáfora, podemos dizer que Dilma 2 deu uma esfriada nas suas relações com o PT e passou a sair com o PMDB. Não é à toa que o vice Michel Temer está todo pimpão.
Enquanto isso, ferve o caldeirão econômico. Com a inflação subindo, a gestão da economia caminha para retirar benefícios e vantagens dos trabalhadores. Como no governo Dilma 1, quem mais ganha com a atual política econômica são os bancos, as empreiteiras de obras públicas e os barões do agronegócio exportador.
A grande mudança no âmbito dos negócios é a investida policial-judicial sobre as relações das empreiteiras de obras com órgãos governamentais. Destampou-se o panelão das negociatas.
Até pouco tempo atrás, era consenso que não havia jeito de controlar a corrupção, que seria endêmica, todo mundo pagando e pegando propina, “é dando que se recebe”, “privataria”, “uma mão lava a outra”, jogo do bicho, bingo, contrabando, sonegação, incentivos fiscais para a implantação de qualquer projeto etc.
É espantoso que os principais processos de corrupção estejam aos cuidados de um único juiz de Curitiba, o qual transformou as instâncias superiores em simples coadjuvantes da Operação Lava Jato deflagrada pelo Ministério Público.
Se a corrupção é de âmbito nacional, por que o aparato judicial inteiro não cai em cima dos malfeitores em todos os cantos do país?
Até parece que os magistrados de Brasília estão com medo de meter a mão nessa cumbuca.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Com a extrema-direita não se brinca, não se alivia, não se tergiversa, não se compactua.”

