A ampliação da participação indígena nas eleições de 2026

Por Jocelino Tupinikim*
Durante muito tempo, decisões que interferem diretamente em nossas vidas foram tomadas sem a presença dos povos indígenas. Falaram sobre nossos territórios, escolheram quais políticas deveriam chegar às nossas comunidades e definiram modelos de desenvolvimento que afetam nossas águas, matas e modos de vida. Em muitos momentos, tentaram falar em nosso nome sem conhecer nossa realidade e sem assumir um compromisso verdadeiro com nossos direitos.
Essa ausência não acontece porque os povos indígenas estejam distantes da política. Pelo contrário: sempre fizemos política. Fazemos política quando nossas comunidades se reúnem para decidir coletivamente; quando defendemos nossos territórios; quando lutamos pela educação escolar indígena; quando exigimos atendimento digno na saúde; quando protegemos nossos conhecimentos; quando organizamos mobilizações e quando cobramos reparação pelos danos provocados por grandes empreendimentos.
O que nos foi negado historicamente foi o reconhecimento dessa atuação e o acesso, em condições de igualdade, aos espaços institucionais onde são aprovadas leis, distribuídos recursos públicos e definidas a agenda de atuação política do Estado.
No Espírito Santo, somos mais de 14 mil pessoas indígenas. Somente em Aracruz, onde se encontra o Território dos povos Tupinikim e Guarani, foram registradas quase 5 mil pessoas pelo Censo de 2022. Ainda assim, nossa presença social, cultural e territorial não encontra correspondência nos principais espaços de decisão política do Estado.
Isso revela uma falha estrutural que ultrapassa as questões indígenas. Ela revela um apagamento histórico e ausência de representação dos povos indígenas e demais comunidades tradicionais dentro da própria máquina do Estado e da democracia brasileira.
A democracia não pode ser medida somente pela possibilidade de votar a cada eleição. Ela também precisa ser analisada a partir de quem participa das decisões, quem consegue apresentar suas próprias propostas e quais setores da sociedade continuam excluídos dos espaços de poder. Uma representação política formada repetidamente pelos mesmos grupos, pelas mesmas famílias e pelos mesmos interesses dificilmente conseguirá compreender e atender toda a diversidade da população capixaba.
Precisamos, portanto, enfrentar anos de uma presença política que pouco nos representa.
Não se trata de afirmar que somente pessoas indígenas podem dialogar com as nossas pautas. Existem aliados importantes, dentro e fora das instituições. Mas a experiência histórica mostra que o apoio de terceiros não substitui a presença dos próprios povos nos lugares onde se decide sobre os seus direitos. É diferente falar sobre um território e falar a partir dele. É diferente conhecer uma comunidade durante o período eleitoral e construir a vida cotidiana dentro dela.
Nossa presença política não começou agora
As candidaturas indígenas não são uma invenção recente nem uma tendência eleitoral passageira. Desde a década de 1960, lideranças indígenas disputam eleições e ocupam espaços institucionais em diferentes regiões do Brasil. Essa trajetória passou por lideranças como Manoel dos Santos (Seu Coco), Ângelo Kretã e Mário Juruna e avançou, nas últimas eleições, com o fortalecimento da presença de mulheres indígenas no Congresso Nacional – como Joenia Wapichana, Célia Xakriabá, Sônia Guajajara e Juliana Cardoso –, além da eleição de diversas outras lideranças indígenas para cargos nas diferentes esferas do Estado.
Essas conquistas não foram concessões dos partidos ou das instituições. Elas resultam de décadas de auto organização e mobilização dos povos indígenas. Em 2026, a Campanha Indígena construída pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e por suas organizações de base política apresenta a disputa eleitoral como uma das estratégias para ampliar a participação dos povos e enfrentar projetos que ameaçam nossos direitos.
Apesar desse avanço, a desigualdade continua evidente. Diagnóstico recente do Tribunal Superior Eleitoral mostrou que as candidaturas indígenas permaneceram abaixo de 1% nas eleições analisadas, situação classificada como uma forma de “inclusão marginal” no sistema político. Ao mesmo tempo, o eleitorado que se autodeclara indígena aumentou 84% entre as eleições de 2024 e 2026. Ou seja, nossa participação eleitoral cresce, mas nossa presença entre aqueles que disputam e exercem o poder ainda permanece muito pequena.
As candidaturas nascem dos territórios
Uma candidatura indígena não deve ser entendida apenas como um nome colocado em uma urna. As lideranças que se dispõem a participar das eleições carregam vivências do território e compromissos políticos construídos coletivamente.
Por isso, fortalecer candidaturas indígenas não significa apenas garantir a filiação em partidos políticos. É necessário conhecer suas trajetórias, ouvir suas propostas e compreender seus compromissos com os direitos indígenas, com os povos e comunidades tradicionais, com os trabalhadores, com a proteção ambiental, com a educação, com a saúde e com o enfrentamento das desigualdades.
A identidade indígena não pode ser utilizada como decoração eleitoral, como preenchimento de uma lista partidária ou como instrumento para acessar recursos públicos. Nossa presença precisa ser respeitada como expressão de um projeto político de Brasil baseado no bem viver.
No Espírito Santo, essa participação é especialmente necessária. A mobilização do povo Tupinikim por reparação diante dos impactos do rompimento da barragem de Fundão ultrapassou 90 dias entre 2025 e 2026. Esse é apenas um exemplo de como decisões empresariais, institucionais e políticas atingem diretamente nossas comunidades, enquanto a garantia de nossos direitos continua sendo violada.
Os povos indígenas e comunidades tradicionais precisam participar dos debates sobre reparação, meio ambiente, desenvolvimento, infraestrutura, direito à cidade, segurança, educação, saúde, cultura e orçamento público não apenas como pessoas convidadas a apresentar demandas, mas também como sujeitos capazes de formular políticas e decidir os caminhos do Estado.
Os partidos também precisam assumir suas responsabilidades
As candidaturas indígenas enfrentam desigualdades dentro das próprias estruturas partidárias. Muitas vezes, recebem menos recursos, menor espaço de propaganda, pouco apoio jurídico e contábil e não participam das decisões centrais sobre as estratégias eleitorais.
Para as eleições de 2026, as regras aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral determinam a distribuição proporcional de recursos públicos e de tempo de propaganda para as candidaturas indígenas. Trata-se de um avanço importante, conquistado após anos de reivindicação do movimento indígena.
Entretanto, a existência de uma regra não garante, sozinha, a igualdade. Os partidos políticos precisam assumir o compromisso de assegurar condições efetivas para a realização das campanhas de candidatos indígenas. Isso inclui apoio jurídico e contábil, estrutura de comunicação, condições de deslocamento, produção de materiais e proteção contra a violência política.
Não é suficiente abrir as portas dos partidos para as lideranças indígenas e, depois, deixá-las sozinhas diante de estruturas políticas marcadas pela desigualdade econômica e pelo racismo estrutural e institucional. A participação indígena não pode depender de favores pessoais, de decisões tomadas sem transparência ou da disposição momentânea de dirigentes partidários.
Falhas administrativas, atrasos, omissões e ausência de apoio podem, na prática, inviabilizar uma candidatura. Quando isso acontece, não é somente uma candidatura que é prejudicada. Todo o Estado perde a possibilidade de ter uma representação política construída a partir da escuta e do diálogo com a população.
Nós, povos indígenas, temos mostrado que qualquer obstáculo à participação de candidaturas indígenas não diminui nossa capacidade de mobilização, articulação e atuação política das lideranças comprometidas com as demandas dos povos e dos territórios.
Nossa participação não começa com um registro eleitoral e não termina diante de um obstáculo burocrático. Ela continua nas aldeias, nas escolas, nas associações, nos conselhos, nas retomadas, nas assembleias, nas mobilizações e em todos os lugares onde nossos povos defendem a vida e constroem coletivamente seus caminhos.
Uma representação que contribui com todo o Estado
Fortalecer as candidaturas indígenas não interessa apenas aos povos indígenas. Nossas experiências apresentam contribuições importantes para toda a sociedade.
A proteção dos territórios está relacionada à preservação das águas, das matas e da biodiversidade. A valorização dos saberes indígenas amplia as possibilidades de enfrentar a crise climática. A defesa das formas coletivas de organização fortalece a solidariedade e a participação popular. Nossas lutas também dialogam com os direitos dos trabalhadores, das comunidades quilombolas, dos pescadores, dos agricultores familiares e de outros grupos historicamente afastados das decisões políticas.
Quando os povos indígenas participam, a democracia se fortalece. Quando apresentam propostas, o debate público se amplia. Quando ocupam os espaços de decisão, deixam de ser tratados apenas como destinatários de políticas e passam a participar diretamente de sua elaboração.
As eleições de 2026 representam uma oportunidade para que o Espírito Santo comece a construir um cenário político diferente. Para isso, a sociedade precisa conhecer, ouvir e fortalecer candidaturas indígenas comprometidas com as lutas coletivas. Os partidos precisam garantir condições reais de participação. E as instituições precisam impedir que desigualdades, omissões ou interesses internos continuem afastando nossos povos da política institucional.
Não queremos que outras pessoas continuem decidindo sobre o nosso futuro. Queremos construir um Estado mais democrático e que avance respeitando a diversidade de seus povos.
Superar o mito da representatividade exige transformar também quem pode falar, propor, votar e decidir. Nossa atuação segue viva, organizada e em movimento. E qualquer novo cenário político no Espírito Santo somente será verdadeiramente novo quando os povos historicamente excluídos puderem participar de sua construção.
A resposta para transformar a política também passa por nós.
*Jocelino Tupinikim é indígena do povo Tupinikim, morador da Aldeia Indígena Caieiras Velha, em Aracruz, liderança com atuação política e comunitária na defesa dos direitos dos povos indígenas. É professor, mobilizador cultural e dedica-se há mais de 20 anos à Educação Escolar Indígena, ao fortalecimento das tradições culturais e à valorização da língua Tupi nas escolas indígenas.

