Ou como o curto-circuito do STF segue sem peça de reposição

Naquela terça-feira, o destino me pregou uma peça doméstica: o micro-ondas resolveu se aposentar sem aviso prévio. Diante da tragédia culinária iminente — afinal, quem hoje sabe aquecer uma lasanha congelada sem recorrer ao botão mágico do aparelho? – não me restou alternativa senão correr até a oficina do seu Josias, mestre dos eletro-eletrônicos da Setec – Serviços Técnicos.
A loja, abarrotada de air fryers, vídeo games e liquidificadores empilhados, tinha uma TV ligada na TV Justiça, transmitindo os últimos minutos da explosiva sessão do STF. Enquanto aguardava o diagnóstico do meu eletrodoméstico, percebi que a oficina e o plenário guardavam semelhanças perigosas: fios desencapados, componentes obsoletos e homens grisalhos tentando consertar na marra o que já passou do prazo de validade.
Seu Josias, com a chave de fenda gasta nas mãos, parecia mais seguro que os ministros. Fiz aquela pergunta tradicional: “A coisa aí tá feia, né?”
“Feia não, meu amigo; difícil mesmo está a situação geral do STF”, disse sem tirar os olhos do capacitor. E tinha razão.
No tribunal, a sessão lembrava reunião de condomínio transmitida pelo YouTube. O tema oficial era o relatório da Polícia Federal trazendo “supostas” mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Edson Fachin abriu os trabalhos com gravidade apocalíptica. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli preferiram se declarar impedidos e sair discretamente, com Toffoli permanecendo apenas como espectador.
Foi então que Gilmar Mendes eletrizou o ambiente com uma questão de ordem, sugerindo que o processo de Moraes corresse com o de André Mendonça. A disposição das cadeiras lembrava três rapazes dividindo o banco de trás de um Fusca em estrada esburacada: Dino, Mendonça e Moraes lado a lado.
Mendonça e Moraes abandonaram a liturgia e engataram um bate-boca transmitido em rede nacional. Moraes lançou a frase do dia: “Quem tem medo da Polícia Federal?”. Mendonça respondeu como despertador desregulado: “mentira, mentira, mentira”.
As acusações escalaram para a existência de uma “PF paralela” e tentativas de golpe. Gilmar Mendes entrou em cena e carimbou Mendonça como “pixuleco eleitoral”. O clima ficou tão amistoso que Flávio Dino sugeriu a Fachin assistir a um esquete de Fábio Porchat, humor em tempos de crise. Fachin recusou, alegando que passava o dia lendo ofícios trocados entre os colegas.
No final, quando a votação indicava vitória apertada pela separação dos casos, Dino pediu vista e adiou o conserto do STF por noventa dias. Cármen Lúcia, exausta, pediu desculpas ao povo brasileiro e confessou estar envergonhada.
De volta à oficina, seu Josias fechou a tampa do micro-ondas e anunciou: “Esse tem salvação. Já o tribunal de Brasília, não tem peça de reposição no mercado”. Saí pensando que o Supremo funciona como nosso velho eletrodoméstico: faz barulho, gira em círculos e, no fim, deixa tudo do mesmo jeito.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

