“O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando”. A frase de Antoine de Saint-Exupéry, estampada atrás de Paulo Hartung, não espelhou o discurso do governador do balanço do seu primeiro ano de governo.
Apesar de a frase do escritor francês sugerir que preparar o futuro significa fundamentar o presente, foi para o passado que o governador mais se voltou durante boa parte da coletiva de imprensa ocorrida na manhã desta terça-feira (29).
Entre as falas sem modéstia que exaltavam sua política de ajuste fiscal, e as tímidas ações desses primeiros 12 meses de governo, transformadas em magníficas entregas, Hartung enxertava ataques duros à gestão do antecessor Renato Casagrande. Chegou a classificar a gestão do socialista como irresponsável, cravando uma frase de efeito para resumir os quatro anos de governo do rival: “As despesas subiram de elevador e as despesas seguiram pela escada”.
Durante 1h29 de coletiva, Hartung voltaria a atacar à gestão do antecessor outras tantas vezes. Curioso é que o mesmo Hartung atribuiu a estagnação do País ao impasse alimentado pelo governo federal e a oposição. Afirmou que Dilma não entendeu que o País saiu dividido das últimas eleições. E culpou a oposição por não ter descido do palanque. Acrescentou que o processo de impeachment esticou ainda mais a corda que já estava extremamente tensionada.
Ora, seria bom que o governador olhasse para o próprio umbigo. Desde o dia primeiro de janeiro de 2015, quando tomou posse, Hartung vem esticando a corda com Casagrande. Essa situação tem obrigado o ex-governador sair em defesa do seu mandato sempre que é atacado. Ou alguém acha que o socialista teria de assistir inerte sua gestão ser espinafrada pelo governador? O silêncio seria a confirmação de que as críticas de Hartung procedem. E quem acompanha mais de perto os fatos sabe que as coisas não são bem assim.
Casagrande está na dele em defender seu legado. Poderia até ser mais incisivo algumas vezes. Quem precisa sentar na cadeira e governar é Hartung. Para quem prometeu durante a campanha “chacoalhar” o Estado, fazer e acontecer, o peemedebista, pode se dizer, fez muito pouco.
Para tentar empalhar o balanço vazio desse primeiro ano, Hartung recorreu à oratória de almanaque para impressionar, com frases feitas e tiradas de efeito. Depois de falar por 35 minutos, Hartung usou as perguntas dos jornalistas, todas muito cordiais, é importante registrar, como trampolim para reforçar alguns pontos de sua enfadonha apresentação, dividida em três eixos centrais: lições sobre ajuste fiscal; as “entregas” realizadas em 2015, supervalorizadas porque foram feitas mesmo na “adversidade”; e as críticas à gestão de Casagrande, que permearam quase todo o discurso.
O balanço vazio, porém, deixou uma constatação intrigante no ar: Hartung teme Casagrande e o identifica como seu principal rival. Só isso pode justificar essa obsessão em querer aniquilar o socialista da cena política. Resta saber se a retórica do governador, que se julga o grande estrategista na arte de fazer política, não estaria obsoleta. Talvez seus mais fiéis eleitores já estejam enfastiados de seu jeito retrógrado de fazer política.

