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Caso Alexandre

O juiz Alexandre de Castro Martins Filho foi morto em março de 2003. Durante todos esses anos o caso tem sido cercado por controvérsias. Vire e mexe aparece um fato novo que põe em xeque a tese oficialmente aceita de que o juiz foi vítima de um crime de mando. 
 
Este jornal, inclusive, foi duramente criticado e chegou a ser até censurado quando passou a dar voz a personagens do caso que contestavam a tese de mando. Qualquer um que defendesse a tese de que o juiz fora vítima de latrocínio era imediatamente classificado pelos partidários da tese do mando como aliado do “crime organizado”.
 
Esse “detalhe”, porém, mando ou latrocínio, sempre fez toda a diferença no Caso Alexandre. Não podia ser diferente. A tese do mando sempre foi defendida por gente graúda. Por isso as revelações feitas pelo juiz aposentado Antonio Leopoldo nesta terça-feira (12), durante a CPI da Sonegação da Assembleia, deve ter mexido com muita gente.
 
As declarações do juiz aposentado são bombásticas. Leopoldo, que na verdade nada tinha a dizer sobre sonegação fiscal, afirmou que a tese de mando da morte do juiz Alexandre foi uma farsa montada pelo desembargador Pedro Valls Feu Rosa. Esse é o fato novo. 
 
Na reportagem publicada por Século Diário, Leopoldo explica que foi cooptado por Pedro Valls para assumir a farsa do mando. Caso aceitasse colaborar com a farsa, o juiz e sua família receberiam identidades falsas para construir uma nova vida na Itália. História bem hollywoodiana, há de se convir.
 
O juiz disse que refletiu melhor e acabou não aceitando a oferta, passando a ser acusado de envolvimento no crime. Em meio à roupa suja que lavou na Assembleia, ele fez denúncias graves. Disse ter sido torturado pelo juiz Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, que atuou na fase inicial do Caso Alexandre, para confirmar a tese de mando.
 
Por meio de nota, o desembargador Pedro Valls justificou que em obediência ao artigo 36, III da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, está impedido de manifestar opinião sobre processo pendente de julgamento, se referindo ao júri do juiz Leopoldo, que ainda não tem data definida. Isso significa que a versão de Leopoldo, pelo menos por enquanto, não será contestada pelo desembargador.
 
As declarações bombásticas de Leopoldo deixam uma série de interrogações no ar. Por que o juiz, que está prestes a enfrentar um júri popular, na condição de mandante do crime, esperou mais de 11 anos para fazer essa importante revelação? Afinal, as declarações de Leopoldo levam o Caso Alexandre à estaca zero. 
 
Se tudo que o juiz disse for comprovado, a Justiça cometeu uma série de lambanças com todos aqueles que foram envolvidos na tese do mando. Se o mando foi uma grande farsa, voltaria a ganhar força a tese de que o juiz Alexandre foi vítima de um latrocínio. Nesse caso, somente Odessi Martins da Silva Filho, o Lumbrigão, e Giliarde Ferreira de Souza, assassinos confessos, e os intermediários Leandro Celestino, o Pardal, que teria emprestado a arma do crime, e André Luiz Tavares, o Yoxito, que teria emprestado a moto usada pelos executores, teriam de fato envolvimento no assalto seguido de morte. 
 
Outros acusados, caso do próprio Leopoldo, do Coronel Ferreira e do ex-policial civil Cláudio Luiz Andrade Baptista, o Calú, de acordo com as novas revelações, seriam inocentes. A propósito, Calú e Ferreira vão a júri popular no próximo dia 25. A repercussão do depoimento de Leopoldo, com certeza, pode influenciar o júri. 
 
É prematuro fazer qualquer ilação sobre as declarações de Leopoldo, mas também não se pode ignorá-las. Alguns pontos merecem uma reflexão mais detida. Por que o juiz aposentado esperou mais de uma década para trazer toda essa história à tona, já que ele seria um dos maiores interessados em revelar a “verdade? Afinal, ele deve ser um dos próximos a se sentar no banco dos réus.
 
Outro ponto. É notório que o presidente da Assembleia Theodorico Ferraço premeditou o depoimento de Leopoldo à CPI da Sonegação. Ferraço arrumou um jeito de encaixar o depoimento na CPI. O deputado contava os dias para vingar a prisão de sua mulher, a ex-prefeita Norma Ayub. Ele sempre atribuiu ao desembargador, então presidente do Tribunal de Justiça, a articulação intelectual da Operação Derrama. Ferraço nunca escondeu que um dia daria o troco a Pedro Valls
 
As declarações de Leopoldo são pouco consistentes em relação às motivações que teriam levado Pedro Valls a construir farsa tão engenhosa. Segundo o juiz aposentado, o desembargador estaria interessado em ganhar notoriedade para conquistar uma cadeira no Supremo. Parece uma tese um tanto ingênua. 
 
O depoimento do juiz Leopoldo, verdadeiro ou não, é mais um motivo para o crime do juiz Alexandre ser urgentemente federalizado. Somente a federalização será capaz de esclarecer todas as perguntas que pairam sobre o Caso Alexandre, especialmente essa última acusação feita pelo juiz Leopoldo em “coautoria” com Theodorico Ferraço, que mudaria todo o caso.

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