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Lavanderia capixaba

Passado pouco mais de um ano das eleições 2014, reportagem do jornal Valor (03/11/2015) mostra que há muita roupa suja para ser levada dessa sangrenta disputa pelo governo do Estado entre Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PMDB).
 
Didática, a reportagem do Valor destrincha os bastidores da peleja e tira do armário esqueletos que continuam assombrando o governador Paulo Hartung
 
Como a “contabilidade criativa” funciona dos dois lados, assertivamente, a reportagem deixa a guerra de números em segundo plano para mostrar que a grande pendenga entre o socialista e o peemedebista é política. Nesse quesito, os fatos não deixam dúvidas de que Casagrande foi mais uma vítima engolfada pelas viradas de mesa de última de Hartung
 
Demonstrando até certa ingenuidade, considerando que o peemedebista sempre escorregou quando o assunto é fidelidade, o socialista acusa Hartung de ter rompido o acordo que daria a ele a prerrogativa de buscar a reeleição. Hartung, ainda pelo acordo, se contentaria com a vaga do Senado. Casagrande apostou a alma nesse pacto, tanto que admitiu: “Ele foi sócio dos resultados [do governo] por três anos e meio”. 
 
É verdade. Embora, entre o fim de 2013 e início de 2014 muitos aliados do então governador já identificassem movimentos de Hartung com vistas a retornar ao Palácio Anchieta. Porém, nem o estudo de Ana Paula Vescovi (hoje, secretária da Fazenda) e Haroldo Rocha (titular da Educação) – integrantes do núcleo duro de Hartung -, que já plantava, no início do 2014, as primeiras sementes de que a gestão do socialista era desastrosa, tirou Casagrande da letargia, que continuou honrando o acordo cegamente.
 
Nas declarações feitas à reportagem do Valor, Hartung não teve constrangimento em revelar que esconder o jogo faz parte da estratégia. “No dia em que você ficar sem mandato, uma vezinha que for, vai saber que gente sem mandato fala muito pouco”. Em outras palavras, ele enganou Casagrande ao adotar uma postura de dissimulação. Aliás, a infidelidade sempre foi uma característica forte no perfil político do peemedebista. A reportagem do Valor, não é pra menos, chega a chamá-lo de “camaleônico”, para mostrar que essas viradas de mesa inesperadas tem sido uma constante na trajetória política de Hartung
 
Mas a cereja do bolo, o crème de la crème, ficou para o final da reportagem. Casagrande joga toda a roupa suja da disputa de 2014 na lavanderia. Surgem as viagens da então (e atual) primeira-dama para o Rio e São Paulo, nos finais de semana; a compra e venda de terrenos em Presidente Kennedy com informações privilegiadas do governo do Estado, que rendeu milhões aos operadores do negócio; a mansão em Pedra Azul, omitida da declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral; além dos ganhos milionários da consultoria Éconos, da qual Hartung era sócio de José Teófilo, ex-secretário da Fazenda do seu governo. A propósito, a Éconos, no período em que Hartung figurou como sócio, amealhou R$ 5,8 milhões em contratos com pelos menos 30 empresas que operavam com o governo. 
 
Todas essas denúncias foram publicadas em Século Diário no decorrer da disputa de 2014. Algumas delas, inclusive, foram alvo de tentativa de censura por parte de Hartung. Em setembro último, a juíza da 1ª Vara Cível de Vitória, Lucianne Keijok Spitz Costa, deferiu o pedido de liminar formulado pelo governador para determinar a retirada do ar da reportagem “Hartung ‘esqueceu’ de dizer que sua mulher tinha outros motivos para ir a SP e RJ”, publicada pelo jornal Século Diário em setembro do ano passado.
 
Hartung recorre à estratégia da censura como último recurso para tentar calar o jornal, que nada mais fez do que cumprir sua função social, que é informar a sociedade. As denúncias, publicadas há mais de um ano em Século Diário, que reacendem a polêmica com a reportagem do Valor, ainda não foram esclarecidas por Paulo Hartung. Em tempos de Lava Jato, nesse esforço concentrado de passar o país a limpo, num momento em que ninguém mais tolera histórias de corrupção, seria imperativo que o governador viesse a público para esclarecer cada uma das denúncias feitas pelo ex-governador. A população do Espírito Santo merece essas explicações. 
 
Na reportagem, porém, Hartung insiste em responder as denúncias com evasivas. “Isso é baixaria, é lamentável, nunca aconteceu na história do Espírito Santo. É apelação. Você vai ver onde isso começou, na reta final da campanha, quando o jogo não virava”. 
 
Baixaria mesmo é processar o jornal que tentou mostrar os fatos à população e engavetar todas as denúncias com a ajuda do Ministério Público e Tribunal de Justiça, para dizer mais tarde que as acusações, todas infundadas, não passavam de chororô de perdedor.

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