É preciso transformar as estruturas antidemocráticas
Por José Carlos Pigatti
A história raramente se move em linha reta. Ela avança por meio de disputas, contradições e grandes encruzilhadas. O Brasil vive exatamente um desses momentos. Nas urnas, a maioria da população escolheu um projeto de reconstrução democrática, inclusão social, valorização do trabalho e retomada da soberania nacional. No entanto, essa vontade popular ainda encontra obstáculos profundos dentro das próprias instituições do Estado brasileiro.
Existe hoje um descompasso evidente entre o projeto político escolhido pela maioria dos brasileiros e a correlação de forças existente no Congresso Nacional. Enquanto o povo optou por um caminho de reconstrução e esperança, parcela significativa do Legislativo continua vinculada a interesses econômicos poderosos, dinâmicas clientelistas e mecanismos que dificultam a implementação de um projeto nacional voltado para a redução das desigualdades.
Não se trata apenas de um problema conjuntural. Trata-se de uma questão estrutural.
Ao longo dos anos, o sistema político brasileiro acumulou distorções que enfraquecem a capacidade de planejamento do Estado e reduzem a força das decisões tomadas democraticamente pela população. Entre essas distorções está o modelo de distribuição de emendas parlamentares, que concentrou parcelas cada vez maiores do orçamento público em mecanismos pouco transparentes e frequentemente desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Quando recursos públicos deixam de obedecer prioritariamente a um planejamento coletivo e passam a ser distribuídos de forma fragmentada, o país perde capacidade de enfrentar seus grandes desafios. Reduz-se a possibilidade de combater desigualdades regionais, ampliar investimentos estruturantes e construir políticas públicas capazes de transformar a vida da maioria da população.
Por isso, é fundamental compreender uma lição histórica: problemas estruturais exigem respostas estruturais.
Não haverá mudanças profundas apenas pela eleição de um presidente comprometido com o povo. Essa é uma condição necessária, mas insuficiente. A disputa de 2026 exigirá também a construção de uma nova maioria no Congresso Nacional, formada por parlamentares comprometidos com um projeto democrático, popular e desenvolvimentista.
Sem essa maioria, corre-se o risco de manter um cenário em que governos eleitos pelo povo permanecem permanentemente limitados por instituições que operam sob outra lógica.
Mas a construção dessa nova correlação de forças não começa em Brasília.
Ela começa nas ruas.
Começa nos bairros, nos locais de trabalho, nas escolas, universidades, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, associações comunitárias e nas redes sociais. É na disputa cotidiana das ideias que se forma a consciência coletiva capaz de sustentar transformações históricas.
A experiência brasileira demonstra que nenhuma conquista social relevante nasceu apenas dos gabinetes. A ampliação dos direitos trabalhistas, a redemocratização do país, a criação de políticas de combate à pobreza e a expansão dos direitos sociais foram resultado direto da organização popular.
Sem povo organizado não existe maioria duradoura.
Sem mobilização social não existe força suficiente para enfrentar privilégios históricos.
Sem participação popular não existe democracia capaz de produzir mudanças profundas.
Por isso, a reforma política precisa voltar ao centro do debate nacional. É necessário reduzir a influência excessiva do poder econômico nas eleições, fortalecer os partidos programáticos, ampliar os mecanismos de participação popular e enfrentar a fragmentação que compromete a governabilidade democrática.
Também é indispensável recuperar a capacidade de planejamento do Estado, reequilibrando a relação entre os poderes e recolocando o interesse público no centro das decisões orçamentárias.
Ao mesmo tempo, os desafios do presente exigem novas respostas. A defesa da democracia continua sendo uma tarefa central diante do avanço global da extrema direita. Mas ela precisa caminhar junto com o enfrentamento das desigualdades produzidas por décadas de políticas neoliberais que concentraram renda, ampliaram privilégios e limitaram a capacidade de investimento público.
Isso significa debater crescimento econômico com distribuição de renda. Significa discutir o papel dos juros elevados, da especulação financeira e da lógica rentista que frequentemente impede o desenvolvimento produtivo do país. Significa também compreender que a disputa política acontece hoje tanto nas ruas quanto nos ambientes digitais, exigindo novas formas de diálogo, especialmente com a juventude.
Mais do que responder aos problemas imediatos, é preciso apresentar um horizonte de futuro.
Um Brasil que produza riqueza sem concentrá-la.
Um Brasil que amplie direitos em vez de restringi-los.
Um Brasil que coloque a dignidade humana acima dos interesses financeiros.
Um Brasil soberano, democrático e socialmente justo.
A grande tarefa do nosso tempo é justamente essa: reconectar a política à esperança.
Não basta vencer eleições. É preciso transformar as estruturas que limitam a própria democracia. É preciso construir uma nova maioria social e política capaz de abrir caminho para reformas profundas e duradouras.
A história ensina que os momentos de mudança surgem quando o povo decide ocupar o centro da cena política. E esse continua sendo o maior desafio e a maior oportunidade do Brasil.
Porque o futuro não será entregue por aqueles que se beneficiam das desigualdades. O futuro será construído por homens e mulheres que acreditam na força da organização coletiva, da democracia e da participação popular.
Nas grandes encruzilhadas da história, não basta esperar pelos caminhos. É preciso construí-los.
E, como tantas vezes aconteceu no passado, será a capacidade do povo brasileiro de se organizar, lutar e sonhar que decidirá o rumo dos próximos capítulos da nossa história.

