sexta-feira, julho 24, 2026
23 C
Vitória
sexta-feira, julho 24, 2026
sexta-feira, julho 24, 2026

Leia Também:

Moradores divergem de justificativa do Grupo Carone para corte de ipê na Barra do Jucu

Empresário cita lei federal; comunidade nega riscos e cobra transparência

O diretor-presidente do Grupo Carone, William Carone Júnior, afirmou que a derrubada do ipê-rosa na Rua Debret, na Barra do Jucu, em Vila Velha, foi amparada por uma alteração recente da legislação ambiental federal que, segundo ele, autoriza a supressão de árvores quando houver risco de acidentes e o poder público não decidir em relação ao pedido em até 45 dias. A justificativa, apresentada após o empresário prestar depoimento à Delegacia Especializada de Proteção ao Meio Ambiente, é rejeitada por moradores da região, que afirmam que os riscos alegados “são uma inverdade” e sustentam que a retirada da árvore faz parte de uma estratégia para viabilizar o acesso do empreendimento Sempre Tem pela Rua Debret. A situação é alvo de investigação do Ministério Público do Espírito Santo (MPES).

“Existe uma legislação nova, a Lei nº 15.299, de 22 de dezembro de 2025. Ela estabelece que não se configura crime o corte de árvore quando o órgão ambiental não atende ao pedido de supressão feito por causa da possibilidade de acidente. Foi exatamente o que aconteceu”, afirmou. Segundo o empresário, o Grupo Carone protocolou o pedido de supressão em dezembro de 2025, logo após a publicação da lei. Ele afirma que a Prefeitura de Vila Velha analisou o caso, elaborou um estudo técnico e emitiu parecer favorável, mas não executou o corte da árvore. Diante disso, diz que a empresa realizou a supressão com base na legislação federal.

“A prefeitura olhou, fez o estudo, deu o ok, emitiu o laudo. Como a legislação me ampara nesse sentido, eu procedi ao corte da árvore”, declarou, acrescentando que o pedido não partiu apenas da empresa. “Os próprios moradores fizeram o pedido de supressão dessa árvore há mais de um ano. Eles mesmos, que hoje estão me denunciando, pediram para tirar a árvore”, sustentou.

Segundo ele, o ipê apresentava riscos à rede elétrica, destruía calçadas e teria rompido uma tubulação de esgoto. O empresário afirma ainda que a controvérsia não gira em torno da árvore, mas do acesso ao empreendimento pela Rua Debret. “Eles estão brigando para impedir que eu exerça o meu direito de usar uma rua pública. Querem privatizar a rua”, criticou.

Como forma de compensação ambiental, Carone disse que o grupo está disposto a plantar novos ipês para os moradores. “Eu planto um ipê-rosa adulto na calçada de cada morador que se sentir prejudicado. Um, dois, quantos eles quiserem”, declarou.

Na avaliação da arquiteta Letícia Serafim, moradora da Barra do Jucu e integrante do movimento contrário à abertura do acesso pela Rua Debret, os argumentos apresentados pelo empresário não correspondem ao histórico da comunidade. “Isso é uma inverdade. O conjunto existe há quase 40 anos e a maioria dos moradores vive ali há mais de 30”, destacou.

Segundo ela, houve apenas um pedido isolado de poda feito por uma moradora há alguns anos, devido a danos na calçada, mas não um pedido coletivo de supressão. “Ela pediu poda, não retirada. Depois de conversar com os moradores, ela mesma desistiu. Passaram-se anos e nada aconteceu. Essa é a maior prova de que a árvore não oferecia risco”, argumenta.

Letícia também rebate a justificativa de que as raízes teriam comprometido a rede de esgoto. “Não existe rede de esgoto funcionando na Rua Debret. A tubulação foi instalada, mas nunca foi ligada. Todas as casas utilizam fossa. Esse risco simplesmente não existe”, reforçou. Ela afirma ainda que o laudo utilizado pela empresa foi produzido por uma consultoria contratada pelo próprio empreendimento. “Eles contratam uma empresa privada [Start Ambiental] que produziu um laudo totalmente parcial. Nós moramos ali há décadas e nunca identificamos esse tipo de risco”, contesta.

Para a moradora, os problemas apontados pelo empresário só surgiram após a implantação do empreendimento. “A fiação que ele cita nem existia antes. Ela apareceu por causa da instalação do empreendimento. Então todos os problemas que ele aponta são decorrentes da própria obra”, analisa. A arquiteta relembra outros conflitos envolvendo o empreendimento Sempre Tem na região. “Eles já suprimiram cerca de 3 mil metros quadrados de APP, receberam uma multa administrativa muito branda e continuam nesse modus operandi: primeiro fazem, depois tentam justificar”, descreve.

Entre os questionamentos da comunidade está a dispensa do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV). “O Sempre Tem tem área maior do que outros supermercados que fizeram EIV e ainda confronta diversas residências. A gente quer entender por que foi dispensado”, afirma a moradora.

Outro ponto criticado é a atuação da Prefeitura. “Mandaram caminhão, máquinas, agentes públicos e equipes para cortar uma árvore cuja autorização nunca foi apresentada à comunidade”, criticou. Segundo Letícia, a interpretação dada à nova legislação federal acaba permitindo que o município deixe transcorrer o prazo sem decidir sobre o pedido de autorização para o corte. “A Prefeitura não autoriza, mas também não responde. Depois o empreendedor usa os 45 dias para alegar que pode cortar. É sempre uma tentativa de contornar as regras”, observa.

Ela também afirma que os moradores temem que novas árvores sejam retiradas futuramente para permitir a circulação de caminhões pela Rua Debret. “Hoje, caminhão nem consegue passar. Se insistirem nesse acesso, vão querer retirar outras árvores usando exatamente o mesmo argumento”, alerta.

A reportagem também procurou a Prefeitura de Vila Velha para comentar as declarações de Junior Carone e informar se a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos realmente emitiu parecer favorável para a supressão do ipê, conforme relatado pelo empresário, além de esclarecer por que o corte não foi executado pelo município. Também foi solicitado posicionamento ao secretário San Clever em relação à existência de pedido anterior apresentado por moradores. Não houve resposta até o fechamento desta edição.

Foto Leitor

Investigação

derrubada de um ipê-rosa na Rua Debret, na Barra do Jucu, em Vila Velha, passou a ser investigada também na esfera criminal, após moradores registrarem denúncia contra integrantes da empresa, em especial o diretor-presidente William Carone Júnior, por suposto crime ambiental. Segundo a comunidade, a Delegacia Especializada de Proteção ao Meio Ambiente intimou o empresário para prestar depoimento.

A informação foi divulgada em nota encaminhada pelos moradores no último dia 20 de julho, na qual afirmam que também foram registrados boletins de ocorrência junto às polícias Militar e Civil, após a retirada da árvore. De acordo com a comunidade, o procedimento criminal está em andamento na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, sob responsabilidade do delegado Marcelo Nolasco de Abreu.

Para os moradores, o objetivo é que a apuração não resulte apenas em sanções administrativas. “O ponto central agora é que a responsabilização não se limite à aplicação de uma multa administrativa”, afirma a nota. A comunidade sustenta que o empreendimento já havia sido autuado anteriormente por intervenções em aproximadamente 3 mil metros quadrados de Área de Preservação Permanente (APP), recebendo, segundo os moradores, apenas penalidades administrativas, consideradas insuficientes para impedir novas intervenções.

Os novos fatos ocorrem enquanto o MPES amplia a investigação conduzida no Inquérito Civil nº 2025.0017.1277-8 para apurar possíveis irregularidades urbanísticas e ambientais envolvendo o empreendimento Sempre Tem, do Grupo Carone. Em despacho assinado pelo promotor de Justiça Gustavo Senna Miranda, a Promotoria de Justiça reconhece que permanecem sem resposta questões centrais levantadas pela comunidade em relação ao empreendimento e determina uma nova rodada de diligências junto à Prefeitura de Vila Velha.

Embora a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Mobilidade (Semdu) tenha encaminhado ao MPES um Relatório de Impacto de Trânsito (RIT) indicando baixo volume de tráfego na Rua Debret e defendendo que o acesso principal de consumidores continuará ocorrendo pela Rodovia do Sol (ES-060), o promotor de Justiça afirma que a resposta não enfrentou diversos pontos levantados pelos moradores.

Entre eles, está a alegação de que o pedido de desmembramento do imóvel seria juridicamente inadequado por se tratar, segundo a comunidade, de um complexo único e integrado. Também permanecem sem esclarecimentos, conforme o despacho, as circunstâncias envolvendo a derrubada de um muro, a instalação de um portão e a supressão de vegetação antes da conclusão dos procedimentos administrativos. O próprio despacho registra que o pedido de desmembramento continua “em análise administrativa, sem decisão conclusiva”, informação repassada pela Semdu.

Mais Lidas