sexta-feira, julho 24, 2026
21.9 C
Vitória
sexta-feira, julho 24, 2026
sexta-feira, julho 24, 2026

Leia Também:

Estado gasta R$ 3 bilhões em segurança, mas tem índices de violência acima da média nacional

Anuário aponta queda das mortes violentas e alta da violência contra mulheres

PMES_agenciabrasil.jpg

Enquanto o Governo do Espírito Santo destinou R$ 3,03 bilhões à Função Segurança Pública em 2025 — o equivalente a 9,8% de todas as despesas realizadas pelo Estado —, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, apesar da redução dos principais indicadores de violência letal, os capixabas ainda convivem com taxas superiores às médias nacionais em diversos crimes, especialmente homicídios, latrocínios, violência contra mulheres e tentativas de homicídio. Os dados também revelam aumento nos registros de crimes motivados por racismo, homofobia e transfobia, além de crescimento da população prisional, do sistema socioeducativo e das notificações de tráfico de pessoas.

O Espírito Santo encerrou 2025 com 907 Mortes Violentas Intencionais (MVI), contra 984 registradas no ano anterior. A taxa caiu de 24 para 22 mortes por 100 mil habitantes, consolidando o menor número de casos da série histórica iniciada em 2012. Ao longo dos últimos 14 anos, o Estado reduziu gradualmente esse indicador, que passou de 1.736 registros em 2012 para 907 em 2025, praticamente a metade do volume observado no início da série.

A queda foi impulsionada principalmente pela redução dos homicídios dolosos, que passaram de 856 para 796 vítimas. Apesar da diminuição, a taxa estadual permaneceu em 19,3 homicídios por 100 mil habitantes, significativamente acima da média brasileira, de 15,4. O mesmo cenário aparece nos casos de latrocínio. O número de ocorrências caiu de 39 para 25, reduzindo a taxa estadual de 1 para 0,6 por 100 mil habitantes. Ainda assim, o índice permaneceu acima da média nacional, fixada em 0,4.

Os registros de lesão corporal seguida de morte cresceram de 11 para 13 casos. A taxa permaneceu em 0,3 por 100 mil habitantes, mesmo patamar observado no conjunto do país. Também houve redução nas mortes decorrentes de intervenção policial, que passaram de 78 para 73 registros no Estado.

Apesar da melhora nos indicadores de mortes consumadas, o Estado continua figurando entre os estados com elevado índice de violência não letal. As tentativas de homicídio diminuíram de 1.383 para 1.340 registros, porém a taxa estadual permaneceu em 32,5 casos por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média brasileira, de 16. Já os registros de lesão corporal dolosa apresentaram leve redução na taxa, de 12,8 para 12,6 por 100 mil habitantes.

Os indicadores relacionados à violência contra mulheres mostram uma realidade contraditória. Embora os homicídios de mulheres tenham caído de 94 para 75 casos e os feminicídios de 41 para 35 ocorrências, o Espírito Santo continuou acima da média nacional em ambos os indicadores. A taxa estadual de homicídios de mulheres atingiu 3,6 por 100 mil habitantes, superior à média brasileira de 3,2. Nos feminicídios, a taxa foi de 2 por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional ficou em 1,4.

A situação tem sido denunciada pelo movimento feminista, que contesta , a narrativa da gestão de Renato Casagrande (PSB), que celebrava, em fevereiro deste ano, a redução da violência, o que seria um “marco histórico”. O Fórum Estadual de Mulheres do Espírito Santo (Fomes) rebateu a afirmação e apontou que o Governo desconsiderou o aumento do total de registros desses casos que constam no Observatório da Segurança Pública, baseando o cálculo apenas nos homicídios consumados e nos registros de feminícidios, para exaltar, respectivamente, “o menor número desde 1996” e “uma queda de 15,4%, o menor índice desde 2017”.

O levantamento também aponta aumento das formas de violência que antecedem os assassinatos. As tentativas de homicídio contra mulheres cresceram de 339 para 372 casos, enquanto as tentativas de feminicídio passaram de 60 para 66 registros. Os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica também aumentaram, saindo de aproximadamente 2,5 mil para 2,6 mil ocorrências.

Outro dado considerado preocupante é o crescimento do número de vítimas de feminicídio que possuíam Medida Protetiva de Urgência (MPU) ativa no momento do assassinato. O total passou de quatro mulheres em 2024 para cinco em 2025.

O Anuário também revela crescimento dos crimes relacionados à discriminação racial e à violência contra pessoas LGBTQIAPN+. O Espírito Santo continua sem apresentar dados sobre injúria racial, mas os registros de racismo aumentaram de 272 para 290 casos. Apesar da alta, a taxa estadual permaneceu abaixo da média brasileira, alcançando 7 ocorrências por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional foi de 15. Os registros de racismo motivado por homofobia ou transfobia cresceram de forma ainda mais expressiva, passando de 62 para 102 casos. Entre os crimes contra pessoas LGBTQIAPN+, também houve aumento das lesões corporais dolosas, que passaram de 459 para 491 registros. Os casos de estupro cresceram de 24 para 30 ocorrências e os homicídios dolosos passaram de dois para três registros.

Na área orçamentária, os investimentos estaduais em segurança pública continuaram crescendo. As despesas destinadas ao policiamento aumentaram de R$ 422,5 milhões para R$ 455,7 milhões. Os recursos destinados à Defesa Civil passaram de R$ 49,9 milhões para R$ 73,3 milhões. As demais subfunções da segurança pública consumiram R$ 2,5 bilhões, frente aos R$ 2,17 bilhões do ano anterior. Somadas, todas as despesas da função Segurança Pública cresceram de R$ 2,65 bilhões para R$ 3,03 bilhões entre 2024 e 2025, representando 9,8% de todas as despesas executadas pelo Governo estadual.

A população privada de liberdade passou de 25,1 mil para 27 mil pessoas. Os óbitos registrados dentro do sistema penitenciário aumentaram de 41 para 42 casos. No sistema socioeducativo, o número de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em meio fechado também cresceu, passando de 557 para 592 jovens. Outro indicador que apresentou alta foi o de notificações de tráfico de pessoas registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os casos passaram de sete para 11 notificações no Estado entre 2024 e 2025.

Embora tenha alcançado o menor número de Mortes Violentas Intencionais da série histórica e ampliado os investimentos em segurança pública para mais de R$ 3 bilhões anuais, o conjunto dos dados revela que persistem desafios estruturais. O Estado continua registrando taxas superiores às médias nacionais em homicídios dolosos, latrocínios, homicídios de mulheres, feminicídios e tentativas de homicídio, ao mesmo tempo em que cresce o número de ocorrências relacionadas à violência doméstica, crimes de ódio, racismo, homofobia, transfobia, encarceramento, medidas socioeducativas e tráfico de pessoas.

Mais Lidas