
Em total desencontro com o momento atual, leio uma crônica do Lima Barreto. Quem? O ilustre personagem está na honrosa lista dos cinco maiores cronistas da língua brasileira, outrora cognominada portuguesa, mas já atingiu identidade própria. Com ela rabisco essas bem-intencionadas linhas. Pois o Lima escrevia coisas estranhas no final do século passado. Sua obra mais famosa foi o romance ‘O triste fim de Policarpo Quaresma’. Final feliz só mesmo em Hollywood.
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O Brasil é um país rico, o Barreto nos informa em uma crônica com esse título. Mas não está elogiando, que o autor tinha língua afiada e sensibilidade apurada. Sobre a situação das guarnições fronteiriças: “Desoladora: Não há quartéis e os regimentos de cavalaria não têm cavalos… O que faz o governo? Raciocina Bras Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalos…”
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Nesse ritmo segue o autor, a reclamar da eterna desculpa dos donos do poder sobre a falta de verbas em um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas sofre de escassez de escolas, e o governo informa: Não temos verbas! “Nas ruas da cidade… bandos de pequenos vadios andam a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas…” Confesso que revirei a Internet tentando encontrar o significado de ‘calariça’ e não encontrei. Se você sabe, favor informar. Mas não há dúvidas quanto às sarjetas.
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A Internet enumera os cinco maiores cronistas da literatura brasileira: Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade. O prezado leitor percebe alguma contradição nessa lista? Onde esconderam nosso velho Braga, pai da crônica moderna? Os capixabas deviam fazer um protesto coletivo contra esses formadores de opinião mal formados e de curta memória. O pequeno Cachoeiro se cala e o Itapemirim chora.
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Lima Barreto era negro e morreu pobre. Sua obra só foi reconhecida muitos anos depois. Prosseguindo, “O Brasil é tão rico que apesar de não cuidar dessas coisas que estou enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios”.
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O ilustre cronista está censurando o governo por bancar um ‘jogo de bola’ no exterior. E aqui deixo o enigma para quem puder decifrá-lo: a que jogos de bola no estrangeiro ele se refere? Barreto morreu em 1922, e o primeiro jogo da Copa do Mundo foi no Uruguai, em 193O. Talvez as Olimpíadas? Só sei que nada sei, disse o juiz quando o time adversário marcou o gol da vitória. Deles.

