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Piada de mau gosto?

Durante a campanha eleitoral que o elegeu governador do Espírito Santo pela terceira vez, Paulo Hartung prometeu que sua prioridade seria investir pesado na área social, especialmente na educação — reconhecidamente negligenciada nos seus dois primeiros mandatos (2003 a 2010).
Acabou não investindo em coisa nenhuma, mas sacou da manga o Escola Viva, programa que chegou prometendo revolucionar a educação capixaba. Forjado num vigoroso plano de marketing, a estratégia do governo era lançar um programa de vitrine com pouco dinheiro, mas o tiro saiu pela culatra. O programa até ganhou visibilidade antes mesmo de chegar à sala de aula, mas de maneira negativa. 
Com a certeza de que o projeto seria “carimbado” pela Assembleia num piscar de olhos, o governo correu para o abraço antes de a bola entrar. Voz dissonante na Assembleia, o novato deputado Sérgio Majeski (PSDB) pôs a pé na frente, postergando a manobra palaciana. A essa altura, as críticas do deputado já reverberavam nas ruas. Pais, alunos e professores não repeliam propriamente a escola em tempo integral, mas a imposição do programa sem o obrigatório debate com a comunidade escolar.
O Escola Viva acabou passando pela Assembleia, mas já nasceu maculado. Desgastado, o governo se apressou para implantar a unidade piloto do programa em São Pedro, Vitória. A estratégia era pôr logo a escola para funcionar e deixar o resto, mais uma vez, por conta do marketing, que já deve ter levado bem mais dinheiro do que o programa em si. 
As campanhas publicitárias foram pesadas. Pulularam rádios, jornais, internet e TV. A imprensa corporativa se encarregou de criar “mídia espontânea” para emprestar credibilidade ao programa. 
Sem qualquer avaliação de resultado, em menos de um semestre de aulas, a mídia (publicidade e imprensa) se encarregou de comunicar que o programa é um sucesso indiscutível. Tanto que o governo já confirmou três novas unidades para 2016: Serra, Ecoporanga e Muniz Freire.
Meta muito aquém da anunciada em abril, quando o secretário de Educação Haroldo Rocha projetava implantar cinco unidades ainda este ano. Conseguiu pôr em funcionamento, a trancos e barrancos — faltavam alunos e professores —, apenas a unidade de São Pedro, que atende 480 alunos. Isso representa módicos 0,41% dos cerca de 116 mil alunos matriculados no ensino médio na rede pública estadual.
Haroldo promete implantar 30 unidades do programa até o final do governo (2018), o que representaria 29 mil alunos matriculados no Escola Viva. A meta ambiciosa atenderia 25% dos alunos da rede pública matriculados no ensino médio. Esse percentual não foi definido ao acaso. O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece que 25% dos alunos da rede estejam cursando escola em período integral até 2022. O governo Hartung, caso cumpra a promessa, anteciparia a meta em quatro anos.
O balanço do primeiro ano de governo, porém, mostra que Hartung praticamente não fez entregas de maneira geral, tampouco na educação. Com sua obsessão em cortar despesas, Hartung não só estagnou o Estado como o fez andar em marcha à ré. Por isso o deputado Sérgio Majeski reagiu tão efusivamente à reportagem de A Gazeta (26/12/2015), que afirma que na educação o “saldo foi positivo”. 
“É uma piada de mau gosto? No caso da Educação foi um ano extremamente negativo: cerca de 500 turmas fechadas durante o ano, corte de cerca de 70% no PEDDE [Programa Estadual Dinheiro Direto na Escola], PEE [Plano Estadual de Educação] aprovado aos trancos e barrancos, um concurso de remoção maluco no meio do ano, grande parte das escolas com graves problemas e estrutura e infraestrutura, nenhum centavo de reposição salarial para os profissionais, diretores e professores ameaçados”, resumiu Majeski no Facebook.
Respondendo ao deputado, não parece piada de mau gosto. Deve ser soberba mesmo. Muita autoconfiança de que uma boa estratégia de marketing é capaz de transformar um programa ilegítimo, que sequer foi discutido com a sociedade, na última palavra em educação. 

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