Mais desejado que pão de queijo, mais útil que água encanada

Preciso urgentemente falar com…não importa com quem ou quantos, e recebo a primeira mensagem gravada: Um momento, por favor…nessa situação, “momento” pode significar 20 minutos ou 20 horas. Meu assunto é urgente, portanto, aceito meu destino cantando a canção: “Fumando espero”. Como não fumo, faço uns sanduíches ou asso um bolo. Esperar é preciso. Uma voz impessoal informa que estão muito interessados no assunto que pretendo discutir, mas devo esperar alguns minutos porque nesse momento estão com um grande número de chamadas…mas não desligue, sua chamada é muito importante para nós…
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“Por favor, aguarde na linha, um de nossos representantes vai atender assim que…”mais das vezes, entra aquela musiquinha chatíssima comum a todas as empresas com acúmulos de chamadas ou escassez de funcionários. Ou ambos. Ponho o fone no viva-voz e vou cuidar da vida, enquanto a mensagem se multiplica…”sua chamada é muito importante para nós…por favor, aguarde na linha”…”mais das vezes a gente tem que desligar; preciso usar o telefone para assuntos mais urgentes, como encomendar o bolo para o aniversário do filho em dezembro ou comprar o vestido para o casamento da prima em 2039.
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Houve um tempo em que a comunicação entre os seres humanos era bem mais simples – podia-se usar o “moleque de recados” sempre à disposição, esperando uns trocados, ou um motoqueiro, idem; podia-se usar um pombo-correio ou sinais de fumaça; podia-se simplesmente calçar o tênis e ir pessoalmente dar conta do assunto. Simples, rápido e confiável. Aí inventaram o telefone e achamos que todos os problemas acabaram; qualquer assunto ou querela poderia ser resolvido rapidamente, desde que se pague a conta no fim do mês. O que nem sempre acontecia, mas dava-se um jeitinho.
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Se o telefone preso na parede foi considerado a melhor coisa já inventada, qual não foi nossa euforia quando o sem fio e sem parede veio mudar nossos meios de comunicação e estilo de vida. Mais cobiçado que cirurgia plástica, mais desejado que pão de queijo, mais útil que água encanada. O preço, porém…”ah, muito caro”. Pela primeira vez no planeta, ricos e pobres se igualaram: todo mundo tem um, sabe Deus com quantos sacrifícios! “Cadê o dinheiro pro leite do minino, Zé? A conta do telefone, Zefa…ah, tá bom…vou pôr mais água no leite em pó.
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Foi um tempo feliz, mesmo para quem tinha o telefone que só recebia. Foi quando inventaram as mensagens eletrônicas, ou atendentes-fantasmas: ‘Por favor, deixe sua mensagem; atenderemos logo que for possível!”. E o vulgo inventou o ditado: De esperar morreu um burro. Disco o número da emergência policial e lá vem a musiquinha…”sua mensagem é muito importante para nós, por favor aguarde na linha…”. Se fosse um ladrão, teria roubado a casa toda; se fosse um Serial Killer, teria matado a escola inteira.
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Dia desses resolvi contar…23 vezes: “Sua mensagem é muito importante”…40 vezes: “aguarde na linha”… Oito vezes: “Esse número não existe”…Uma coisa tenho que admitir: as vozes sem donos são sempre educadas e suaves, entonação perfeita, conjugações corretas. Até que, horas (ou dias) depois, alguém com ouvidos de verdade resolve atender: “Desculpe a demora, em que posso lhe ajudar?”. Tenho que ser breve, ou desligam antes que eu possa expor…”Sinto muito, não é nesse departamento”…
PS. Ainda dizemos “discar” para chamadas no celular de última geração.

