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A esquerda nas cordas

A nível federal ou estadual, campo progressista tem perspectiva eleitoral preocupante

Ricardo Stuckert

Quando esteve em Vitória, em fevereiro, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Psol), foi questionado numa coletiva de imprensa sobre o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto para presidente, e reagiu com certo deboche. “O Flávio Bolsonaro desmaiou no debate lá no Rio de Janeiro [para prefeito, em 2016]. Imaginem como é que ele vai ficar no debate com Lula”, comentou.

Boulos também deu a entender que, no momento de votar, a população vai conseguir enxergar as coisas com clareza. “Quem é que está defendendo o fim da escala 6×1? O Lula. Nós. Quem é que está contra? O bolsonarismo. Veja o que o seu Valdemar Costa Neto [presidente do Partido Liberal] disse esses dias numa plateia de empresários, de que vai trabalhar dia e noite para poder não deixar votar o projeto da escala 6×1. Na hora da eleição, em outubro, quando o povo for decidir, o povo vai lembrar disso”, acrescentou.

Natural que o ministro quisesse transmitir a sensação de que o lulismo estava no controle da situação. Mas a verdade é que, desde aquela entrevista, o cenário só piorou. Flávio Bolsonaro já aparece à frente de Lula no segundo turno, segundo a maior parte das pesquisas, ainda que em empate técnico. A desaprovação do Governo Lula chegou a 52%, segundo pesquisa da Real Time Big Data divulgada na semana passada pela imprensa nacional. Esse enfraquecimento fez com que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se sentisse à vontade para articular uma derrota histórica, com a primeira rejeição de uma indicação para ministro do STF em 132 anos.

Isso acontece em meio a um cenário socioeconômico aparentemente positivo no Brasil: menor taxa de desemprego da série histórica, baixa inflação, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), elevação da renda. O que é, então, que o povo não está enxergando? Por que parecemos cada vez mais próximos de uma volta da extrema direita à Presidência?

A economista Juliane Furno poublicou um texto no portal The Intercept Brasil no último 13 de abril, apontando algumas hipóteses interessantes, e alertando contra análises superficiais do tipo “o povo é burro”. Juliane argumentou que uma das respostas estaria no alto grau de endividamento das famílias, o que se deve em grande medida à alta taxa de juros praticada pelo Banco Central, a segunda maior do mundo. Nesse cenário, muitas pessoas talvez nem estejam vendo a cor do dinheiro, tendo em vista que o que ganham é para arcar com as dívidas anteriores.

Juliane Furno também chamou a atenção para a situação da juventude, campo em que a desaprovação de Lula é maior. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elencados pela economista, um em cada três trabalhadores do Brasil tem formação acima da exigida para a função que ocupa, e o salário médio de trabalhos que exigem ensino superior caiu 12% nos últimos 12 anos. Os jovens que chegaram às universidades por conta das políticas petistas de expansão do ensino superior agora se depararam com empregos precários, muito por conta da desindustrialização do país nas últimas décadas, que tornou as atividades produtivas menos complexas.

Adicionando mais um ponto em relação à análise de Juliane Furno, vale destacar, ainda, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua), divulgados nessa sexta-feira (8), de que o rendimento médio dos trabalhadores brasileiros atingiu valor recorde em 2025, mas a desigualdade cresceu junto. Ou seja, existem certas estatísticas ocultas em meio aos números oficiais que precisam ser levados em consideração.

E se isso deixa o cenário ruim para a esquerda no Brasil em geral, pior ainda no Espírito Santo. Por aqui, o PT indicou para a disputa para governador o seu nome com maior capital eleitoral, o deputado federal Helder Salomão, mas que parece ter colocado no sacrifício. Sem espaço dentro do projeto de Ricardo Ferraço (MDB), o Partido dos Trabalhadores se viu obrigado a erguer um palanque próprio, mas que enfrenta um alto nível de rejeição. Hoje, os candidatos mais bem colocados nas pesquisas representam dois projetos de direita: de um lado, um bolsonarista envergonhado (Lorenzo Pazolini); do outro, um antipestista ferrenho que mantém certo diálogo com figuras identificadas como de “centro” ou “progressistas” (Ricardo Feraço).

Em relação ao Senado Federal, quem quiser pode ver o copo meio cheio ou meio vazio. O favorito na disputa é o ex-governador Renato Casagrande (PSB), um homem tido como de centro ou centro-esquerda (ou “socialista”, segundo o bolsonarismo delirante), mas pragmático o suficiente para escolher como sucessor uma pessoa que passa longe de ser progressista (no caso, Ricardo Ferraço). A segunda candidatura de esquerda mais bem colocada é a do senador Fabiano Contarato (PT), eleito em 2018 a partir de certo engano, já que muitos o consideravam apenas um delegado linha-dura. Não vai ser fácil repetir a dose.

Nas disputas proporcionais talvez estejam as maiores esperanças, mas aqui também cabe uma reflexão importante. Lula e outros petistas falam com certa frequência sobre a necessidade de eleger figuras de esquerda para o Congresso Nacional, de forma a permitir que o governo dependa menos de acordos com o Centrão. Mas como construir novas candidaturas competitivas se é o próprio governo que está empoderando figuras do Centrão em detrimento de sua própria base? A conta não fecha.

Tudo isso nos leva a um cenário preocupante para o campo progressista, e não há soluções fáceis para reverter. O Governo Lula tem investido com força na pauta do fim escala 6×1. Talvez não tenha resultado eleitoral significativo por ser uma medida cujo impacto não é sentido de imediato. De qualquer forma, é bom que a esquerda leve a sério reformas estruturantes que contribuam com a elevação real do padrão de vida da população.

Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem Ciclo Sentidos da Loucura, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

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