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Um milagre de Natal

Maria tem um filho de 7 anos, Maurício, cujo pai deu no pé, como se dizia antigamente, e nunca mais deu notícias. Maria trabalha nas Lojas Americanas e mora com os pais – ele gari aposentado da prefeitura, a mãe  ‘do lar,’ o que significa fazer brigadeiros e salgadinhos para as festas do bairro, apertar ou alargar roupas, encurtar ou esticar bainhas, pregar botões perdidos, etc.
 
O trabalho nas Lojas Americanas não é assim um cargo na ex-Petrobras, mas tem piores e Maria agradece aos céus por ter um emprego e receber um salário, mesmo que mínimo. No mais, é uma jovem alegre e de boa índole, prestativa com as colegas e gentil com a freguesia. E acha divertido ver gente com dinheiro fazendo compras – no âmbito do restrito orçamento de seu restrito mundinho, qualquer um que saia da loja com dois pesados sacolões é rico.
 
Em dezembro o ritmo acelera, promoções, arrumações, decorações natalinas, trabalhar até tarde. A vantagem são as horas extras, que permitem comemorar o Natal com alguns luxos, ou ‘como manda o
figurino’, como diz a mãe. Mas esse ano o natal de Maria será um pouco diferente dos outros 26 natais de sua vida. Tudo por causa do Baltazar, o novo gerente da loja em que trabalha. Justo o nome de um dos reis magos, e só faltou o camelo para ser mais mágico – até barba ele tem.
 
Maria divide o pagamento das horas extras com a precisão de um cientista partindo um átomo – o presente do filho, o presente dos pais, um sapato para si mesma. Natal não é sinônimo de milagre: o pai queria uma camisa mas vai ganhar um par de meias; a mãe sonhava com algo pessoal, mas já ganhou uns pratos bonitos para usarem na ceia. Em vez do gameboy que tanto queria, Maurício vai ganhar uma calça jeans, que a dele já viu dias melhores.
 
Maria abre mão do sapato para comprar o presente do Baltazar, que aceitou um tanto surpreso o convite para jantar na casa dela.  Não sabe se ele vem, mas já foram ao cinema duas vezes, e se ele vier, tem que ganhar um presente, esse é o Espírito do Natal. Maria sai da loja e corre para ajudar a mãe nos últimos
preparativos da ceia, mas nem precisava, que quando chega a casa está decorada, a mesa arrumada, dois frangos assando no forno. O pudim foi feito de véspera.
 
Natal pode ser sinônimo de milagre. Baltazar chega na hora, apesar do trânsito, cheio de sorrisos e embrulhos coloridos – uma camisa para o pai, um perfume para a mãe, o gameboy para Maurício, e um sapato com bolsa combinando para Maria. “Ele veio!” pensa Maria, sorrindo. “Meu primeiro presente de Natal”, sorri Baltazar, emocionado. E deseja a todos o melhor dos natais.

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