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Cemitério do Pedro Fontes sofre abandono em meio a desmembramento

Área histórica ligada à memória da hanseníase segue sem delimitação definida

Leonardo Sá

Familiares de pessoas enterradas no cemitério do antigo Hospital Colônia Pedro Fontes, em Padre Mathias, Cariacica, denunciam que continuam tendo direitos violados pela falta de preservação do local, ausência de identificação das covas e movimentação de ossadas sem informações claras. A cobrança voltou a ganhar força diante da falta de respostas do poder público sobre o futuro do complexo histórico após a publicação, em fevereiro deste ano, do decreto que autorizou o desmembramento de parte da área para alienação.

Um deles é Helder Luiz Fernandes, que busca informações sobre os pais enterrados no cemitério do antigo hospital. Ele relata que máquinas e coveiros remexeram as covas sem comunicação às famílias, que ficaram sem saber onde estão os restos mortais de seus entes. A falta de preservação do cemitério representa um desrespeito à memória das pessoas que viveram e morreram no hospital, reforça, ao defender que as famílias tenham direito à memória, à identificação das sepulturas e ao descanso digno de seus parentes. “A lembrança não pode morrer”, resume.

A situação é agravada pela ausência de manutenção e segurança no cemitério. “Não tem o mínimo de manutenção, e a identificação daquela cova, daquela família, some”, explica a advogada Lívia Poubel, voluntária do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan). Ela afirma ainda que, durante visita recente ao local, não havia vigilância ou controle de acesso. “Qualquer um pode entrar ali, qualquer um pode vandalizar”, observa.

Segundo familiares e integrantes do Morhan, desde a publicação do Decreto nº 029, de 5 de fevereiro de 2026, não houve comunicação pública da Prefeitura de Cariacica sobre estudos de impacto, delimitação das áreas protegidas ou medidas de preservação do sítio histórico e arqueológico ligado ao antigo hospital-colônia. O documento aprovou o desmembramento de um terreno urbano de propriedade do município no bairro Padre Mathias, dividindo a área em duas partes: a “Gleba A – Remanescente” e a “Área B – Desmembramento”, esta última com 70,1 mil metros quadrados destinada à empresa Innova Park Organização Logística Ltda, para implantação de um polo industriual.

A ausência de informações oficiais sobre os impactos da medida ampliou a preocupação de famílias que já denunciavam abandono e violações de direitos no cemitério do complexo. Lívia questiona se houve estudo de impacto de vizinhança antes da autorização do desmembramento e se órgãos responsáveis pela proteção patrimonial foram consultados.

“O mínimo que deveria ter acontecido ali era um estudo a respeito de quais são as áreas de interesse público que devem ser protegidas antes de fazer a divisão em glebas. Será que houve análise do impacto de vizinhança ou consulta aos órgãos para saber se ele poderia fazer essas glebas? A população não sabe, porque não tem governança pública na área” reitera.

Em agosto de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) embargou atividades realizadas pela Prefeitura de Cariacica no cemitério Padre Mathias, após identificar impactos sobre o sítio arqueológico Cemitério Pedro Fontes e possíveis danos ambientais na região próxima ao manguezal e à baía de Vitória. A medida, formalizada por meio da nota técnica nº 45/2025, determinou a paralisação das intervenções até que fossem adotadas medidas de proteção ao patrimônio cultural existente no local.

Durante vistorias, o órgão constatou a abertura de covas, terraplanagem e escavações feitas sem ações preventivas e mitigatórias previstas na legislação, além da presença de vestígios históricos, como fragmentos de cerâmica, vidros, faiança e conchas. O Iphan também apontou a necessidade de preservação da Capela de São Francisco e do entorno tombado como patrimônio histórico municipal desde 2021.

O Hospital Colônia Pedro Fontes integra um dos capítulos mais violentos da política sanitária brasileira do século XX. Criado em 1937, o espaço foi utilizado para o isolamento compulsório de pessoas diagnosticadas com hanseníase, então chamada de lepra, muitas vezes retiradas de forma forçada do convívio familiar e social. Os filhos dos internos eram encaminhados ao Educandário Alzira Bley, também em Cariacica, fundado em 1940. Há ainda o cemitério onde pacientes foram enterrados ao longo das décadas.

A política de segregação marcou profundamente a trajetória de milhares de brasileiros e, por isso, movimentos sociais, pesquisadores e familiares defendem que o complexo seja reconhecido como espaço de memória, reparação histórica e preservação patrimonial.

Lívia Poubel protocolou, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um pedido de tombamento federal do conjunto histórico do Hospital Colônia Pedro Fontes. O requerimento também solicita o reconhecimento da área como patrimônio cultural de relevância nacional, a realização de estudos para demarcação do perímetro de proteção e a inclusão do local no Programa Nacional de Resgate e Preservação da Memória das Antigas Colônias de Hanseníase no Brasil.

No pedido, a advogada argumenta que o complexo “representa um capítulo importante da história sanitária e social do país” e afirma que preservar o espaço é também preservar a memória das pessoas submetidas à política de isolamento compulsório.

Ela também solicitou ao Iphan a realização de uma vistoria técnica patrimonial urgente para avaliar as condições de conservação do conjunto histórico e identificar possíveis danos ao patrimônio arqueológico. Entre os pontos levantados estão a ausência de demarcação clara da área protegida, falta de plano estruturado de preservação arquitetônica e paisagística e inexistência de sinalização pública adequada.

Parte do complexo já possui reconhecimento patrimonial. O cemitério Pedro Fontes foi identificado pelo próprio Iphan como sítio arqueológico no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos. Além disso, o município homologou, em 2021, o tombamento do sítio arqueológico Pedro Fontes, abrangendo o cemitério São Francisco, a capela e uma área de mais de 70 mil metros quadrados no entorno.

Apesar disso, segundo Lívia, ainda não houve definição pública sobre os limites efetivos das áreas protegidas nem implementação concreta de medidas de preservação. “Nem a área de tombamento municipal, nem a área ligada ao Iphan identificaram ainda o perímetro. Isso não está publicado”, afirma.

A advogada também aponta que o avanço do desmembramento ocorre enquanto o próprio futuro do complexo segue indefinido, apesar de já existir decisão judicial determinando que o Estado dê destinação adequada ao Hospital Colônia Pedro Fontes. Ela informa que houve recurso, mas a sentença foi mantida em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo. “Se tem que existir uma destinação desse complexo, o mínimo que deveria ser feito era a população ter acesso a esse tipo de destinação”, pontua.

A preocupação com a preservação também foi expressa em um primeiro pedido de tombamento apresentado em 2008 por professores e estudantes da então Faculdade Brasileira (Univix). Em 2010, a Câmara de Patrimônio Arquitetônico do Conselho Estadual de Cultura emitiu parecer favorável ao tombamento, considerando que o sítio histórico possui “especial importância no resgate e preservação da memória e história das políticas públicas de saúde e da história do Espírito Santo”. O processo, no entanto, acabou paralisado por anos e só voltou a tramitar em novembro de 2025.

As discussões também chegaram ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que recebeu denúncias sobre intervenções na região de Padre Mathias apresentadas por pesquisadores, arqueólogos, integrantes do Iphan, ex-internos do hospital e pela vereadora Açucena (PT).

Agora, familiares temem que a falta de transparência sobre a divisão das glebas e sobre os empreendimentos previstos para o entorno aprofunde o processo de descaracterização do complexo histórico e agrave as violações já denunciadas por pessoas que têm parentes enterrados no cemitério.

“A população só vê máquina, só vê trator ali naquele lugar”, aponta Lívia. “O local que tem uma área tombada, que é de interesse público, não é minimamente conservado, não é minimamente protegido. Mas para fazer a divisão das glebas e a venda dos terrenos adjacentes, isso aconteceu rapidamente”, completa.

Século Diário procurou a Prefeitura de Cariacica, sob gestão de Euclério Sampaio (MDB), para pedir um posicionamento oficial sobre as denúncias de violação de direitos de familiares de pessoas enterradas na antiga colônia. Também foi questionado se foram realizados estudos de impacto de vizinhança e avaliações arqueológicas antes do desmembramento da área, mas não houve retorno até o fechamento da edição.

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