Empossado há pouco mais de um mês, novo governador muda orientanções na gestão

Pouco mais de um mês após ser empossado como governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) começa a mostrar suas preferências tomando decisões que contrariam, ao menos em parte, o direcionamento de seu antecessor, Renato Casagrande (PSB). O exemplo mais emblemático disso foi o decreto, publicado nesta semana, que transferiu a responsabilidade pela mediação de conflitos de terra da Secretaria de Direitos Humanos para a de Segurança Pública. Além disso, foi retirada a obrigatoriedade da presença de órgãos como Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público do Espírito Santo (MPES), Defensoria Pública da União (DPU) e Defensoria Pública do Estado (DPES) nas reuniões. O próprio texto da norma apresenta uma visão reacionária sobre a questão, ao utilizar a expressão “ocupações ou invasões”.
Goste-se ou não do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e de outros movimentos sociais, a mudança significou, objetivamente, um retrocesso absurdo, e que pode ser questionado pela via judicial, devido à violação de normativas nacionais e internacionais sobre o tema, conforme abordado em matéria publicada em Século Diário.
Antes do decreto, Ferraço havia trocado a secretária de Direitos Humanos: saiu Nara Borgo, entrou Marcela Bussinguer. Nara já estava desgastada com movimentos sociais. De qualquer forma, a mudança sinalizou que o governador pretende imprimir “estilo próprio” ao tema. Pouco tempo após as mudanças na pasta, houve o episódio da exoneração da assistente social Suellen Cruz do cargo de subsecretária de Estado de Políticas para Juventude, pura e simplesmente por pressão de bolsonaristas que, aparentemente, usaram o caso para testar as credenciais direitistas do novo chefe do Executivo estadual.
São mudanças pontuais de orientação, mas que dizem muito. O viés progressista das gestões de Renato Casagrande estava justamente no tratamento dado a questões sociais e de direitos humanos – até mesmo porque, do ponto de vista político-econômico, não há diferença substancial entre Casagrande e outros governantes de direita ou centro-direita. O próprio programa estadual de segurança pública, Estado Presente, tem como premissa combater a violência sem deixar de lado as questões sociais – em que o pese o fato de continuar prevalecendo uma imensa desproporção entre baixo investimento social e o reforço a medidas policiais repressivas.
Com Ricardo Ferraço, pelos sinais emitidos até agora, o viés progressista em questões sociais e de direitos humanos parece estar em vias de desaparecer. O governador tem se notabilizado por apelar para um discurso repressivo na segurança pública, chegando a defender a tese de classificação de facções criminosas como terroristas, uma invenção que tem como único objetivo justificar invasões estrangeiras em território latino-americano. Não deixa de ser irônico que o mesmo homem que, há pouco tempo, publicou vídeo dizendo que não se considerava um político “populista”, no fim das contas, acabe apelando para um populismo penal descarado.
De modo que chegamos à pegunta do título do texto: existiria alguma diferença real entre Ricardo Ferraço e seu principal adversário nas eleições deste ano, o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos)? Se olharmos apenas para as afinidades ideológicas pessoais de cada um, provavelmente não. Ambos se consideram “homens de família”, conservadores, defensores do setor empresarial, contrários a “invasões” de propriedade privada, e etc. Porém, precisamos nos atentar para o fato de ninguém sustenta um governo somente a partir de preferências imediatas.
Nesse sentido, vale uma comparação entre as trajetórias de cada um e os acordos alinhados até aqui. Completando 63 anos em 2026, Ricardo Ferraço elegeu-se para o primeiro cargo político aos 19 anos, vindo de uma família já estabelecida entre as elites político-sociais do Estado. Desde então, foi vereador, deputado estadual, vice-governador e senador.
No Senado, Ricardo pôde demonstrar suas orientações ideológicas com mais clareza: como presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, utilizou a posição para ajudar na pressão a governos de esquerda da América Latina; votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Teto de Gastos Públicos, em 2016; em 2017, foi relator da reforma Trabalhista.
Ou seja, Ricardo é inegavelmente um homem de direita, mas tem uma trajetória mais identificada com o establishment da Nova República, tendo transitado por diferentes grupos políticos (de Hartung, Casagrande, etc.). Ferraço faz parte de uma frente partidária que até conta com siglas de origem progressista, como PSB e PDT, mas que, atualmente, servem mais como plataformas para projetos individuais de seus integrantes do que para a defesa de pautas coletivas históricas. O progressismo está presente na frente comanda por Ferraço/Casagrande, mas de forma residual apenas. Não à toa, o atual chefe do Executivo estadual se sente desobrigado de fazer concessões à esquerda. A tendência de conservadorismo no eleitorado capixaba acaba reforçando essa posição.
Lorenzo Pazolini, ao contrário de Ricardo, é, de certa forma, um novato. Atualmente com 44 anos e carreira anterior na Polícia Civil, elegeu-se para deputado estadual em 2018, tendo se notabilizado por participar do grupo que invadiu o Hospital Dório Silva durante a Covid-19, em 2020, a partir dos estímulos de “fiscalização” do então presidente Jair Bolsonaro (PL). Depois, elegeu-se e reelegeu-se como prefeito de Vitória. Amparado pelo ex-governador Paulo Hartung (PSD), mantém discursos de equilíbrio fiscal nas contas públicas, além do apelo ao endurecimento contra a “criminalidade”. Ele está atento às pautas da extrema direita, ainda que prefira evitar ser associado ao “bolsonarismo raiz”.
A diferença entre Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini, portanto, talvez esteja mais na forma do que no conteúdo. De um lado, um representante de uma direita mais “tradicional”; do outro, um nome da “nova direita”, que entrou em cena junto com a onda conservadora pós-junho de 2013. É provável que, no segundo turno para governador do Espírito Santo em 2026, essas sejam as nossas duas únicas opções.
Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro “A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra “Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem “Ciclo Sentidos da Loucura”, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

