Suellen Cruz ocupava subsecretaria e foi alvo de ataques de deputados bolsonaristas

O deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos) discursou nesta segunda-feira (27), na Assembleia Legislativa, tomando para si os créditos pela exoneração da assistente social Suellen Cruz do cargo de subsecretária de Estado de Políticas para Juventude. Na semana passada, ele o colega de Legislativo Lucas Polese (PL) fizeram publicações nas redes sociais com ataques à servidora, um episódio cujo desfecho revela que a gestão do novo governador Ricardo Ferraço (MDB) está suscetível à pressão da extrema direita.
Em suas publicações nas redes sociais, Âlcantaro e Polese exibem trechos de uma palestra de Suellen, na qual ela fala sobre a influência de pastores evangélicos na população, e questiona o que fazer para ir “contra isso”. Um outro registro mostra a assistente social abordando o contexto do Brasil colonial, em que levanta questionamentos sobre como os negros conseguiam resistir, a ponto de “matar branco pra caramba”.
Os deputados bolsonaristas divulgaram uma interpretação das falas como se Suellen estivesse estimulando “intolerância” contra cristãos e incentivando uma “guerra entre brancos e negros”. E, dessa forma, seus ataques tiveram ampla repercussão. Entretanto, diversas organizações e políticos do campo progressista se manifestaram em solidariedade.
O Conselho Regional de Serviço Social do Espírito Santo – 17ª Região divulgou uma nota denunciando a “manipulação” das falas de Suellen, proferidas durante uma palestra de anos atrás. A entidade afirmou que o recorte do vídeo “desconfigurou” as contribuições da assistente social.
“Os ataques dirigidos a Suellen Cruz não podem ser compreendidos como fatos isolados ou meramente circunstanciais, mas como expressões concretas de uma sociabilidade marcada pelo racismo estrutural e pelo sexismo que historicamente incidem sobre mulheres negras em posições de visibilidade e poder. Suellen em seu trabalho na defesa dos Direitos Humanos reafirma o compromisso ético-político do Serviço Social com a defesa intransigente do mesmo”, diz a nota.
Doutoranda em Política Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Suellen foi nomeada para o cargo de assessora especial da Secretaria de Estado de Direitos Humanos em 21 de maio de 2025, onde desempenhava funções relacionadas aos contratos das entidades responsáveis pelos Centros de Referências das Juventudes (CRJ).
No último dia 2 de abril, ela foi designada subsecretária de Políticas para Juventude, mas apenas por um curto período: de 8 de abril a 7 de maio. O primeiro vídeo de Âlcantaro foi postado na semana passada, quase 20 dias após a publicação no Diário Oficial do Estado. Após o estardalhaço dos bolsonaristas, na última quinta-feira (23), a nomeação de Suellen para a subsecretaria foi tornada sem efeito, e a recém-empossada secretária estadual, Marcela Conti, a exonerou da posição de assessora especial.
Os deputados bolsonaristas difundiram a informação de que Suellen era um quadro do Partido Socialismo e Liberdade (Psol). Entretanto, segundo apuração de Século Diário, a assistente social se desfiliou do partido há alguns anos. Chama atenção a preocupação da extrema direita com uma pessoa que ocupa um cargo técnico na secretaria, com pouca ou nenhuma incidência sobre o direcionamento das políticas públicas da área. É ainda mais digno de nota que o Governo do Estado se submeta a esse tipo de pressão.
Estamos em um ano eleitoral, e Ricardo Ferraço tem sido questionado pelos bolsonaristas quanto às suas credenciais de “legítimo direitista”. O prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), tem feito movimentos para garantir o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus ao governador – vale destacar que a denominação religiosa é ligado ao partido Republicanos, do rival Lorenzo Pazolini. Nesse contexto, aparentemente, qualquer gesto que ajude apagar dúvidas sobre os posicionamentos ideológicos do governador está valendo.
Século Diário solicitou informações à Secretaria de Estado de Direitos Humanos sobre a exoneração de Suellen Cruz, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. Suellen, por sua vez, não quis se manifestar sobre o assunto.

