Jovens denunciam desmonte e problemas recorrentes de gestão nos equipamentos
O Centro de Referência das Juventudes (CRJ) de Cariacica voltou a ter suas atividades suspensas pela segunda vez em menos de um ano, em meio a uma crise de gestão da organização responsável pelo equipamento e relatos de desorganização administrativa, atrasos e esgotamento de trabalhadores. A informação foi apresentada durante reunião que reuniu representantes da juventude do território, conselhos de juventude e integrantes do governo do Estado, nessa quarta-feira (3).

Durante a reunião, o jovem Arthur Jeremias, que pratica jiu-jitsu no equipamento e acompanha a rotina do CRJ, afirmou que a situação do espaço se agravou ao longo dos últimos meses, com dificuldades operacionais e acúmulo de problemas de gestão. Em resposta, ele relata que o subsecretário de Políticas para a Juventude (Subjuv), Fabrício Neves, informou que a organização da sociedade civil (OSC) Avante, responsável pela gestão do espaço, entregou um plano de ação e solicitou um prazo de até 15 dias para reorganizar a equipe, corrigir falhas estruturais e retomar integralmente as atividades do equipamento. A execução do plano ainda depende, porém, de avaliação e acompanhamento da Secretaria de Direitos Humanos do Estado, que deve monitorar o cumprimento das ações propostas.
A paralisação reacende a instabilidade na rede de CRJs do Estado, que já havia enfrentado um período de fechamento em 2025, quando unidades ficaram sem funcionamento por meses devido ao encerramento de contratos e atrasos na formalização de novos termos de colaboração. Em Cariacica, o CRJ é um dos principais equipamentos de referência para juventude em territórios de vulnerabilidade social, oferecendo oficinas culturais, atividades formativas e acompanhamento social. Antes da suspensão mais recente, o espaço registrava média de cerca de 1,2 mil atendimentos mensais, como destacaram participantes da reunião.
Os relatos apontam que a combinação de atrasos, desorganização e acúmulo de demandas resultou em esgotamento da equipe e na saída de parte dos profissionais por falta de condições de trabalho adequadas e dificuldades recorrentes para execução das oficinas, devido à falta de estrutura e à desorganização interna, o que afetava diretamente o funcionamento dos atendimentos.
O CRJ de Cariacica já havia passado, ano ano passado, por um período de fechamento após o encerramento de contrato da gestão anterior e atraso na formalização de uma nova organização responsável. Na ocasião, o espaço ficou sem funcionamento por meses, impactando diretamente jovens do território que o utilizavam como referência para atividades culturais, esportivas e formativas. A retomada ocorreu após nova contratação de organização da sociedade civil, mas a instabilidade administrativa e contratual continuou sendo apontada como um problema recorrente na política pública.
Antes da suspensão, o CRJ de Cariacica ofertava cerca de dez oficinas, incluindo atividades como jiu-jitsu, capoeira, barbearia, manutenção de computadores e ações de autocuidado. Com a interrupção das atividades, essas oficinas foram suspensas, afetando diretamente jovens que utilizavam o espaço como ambiente de formação, convivência e acesso a políticas públicas.
Arthur Jeremias alerta que o equipamento cumpre papel central na oferta de oportunidades para juventudes em contextos de vulnerabilidade social. O equipamento é visto por ele como uma alternativa para jovens oom trajetórias marcadas pela violência e pela falta de perspectiva, onde podem construir pertencimento social. “O CRJ mudou muita coisa na minha vida. Se eu não tivesse essa oportunidade, eu poderia ter me perdido no crime, como acontece com muitos jovens aqui”, destaca.
Instabilidade recorrente
A rede de Centros de Referência das Juventudes (CRJs) do Espírito Santo voltou a enfrentar risco de descontinuação, com contratos distribuídos em diferentes prazos de encerramento ao longo de 2025 e 2026, sem garantia pública de renovação em parte dos equipamentos. Entre os casos mais imediatos estavam os CRJs de Guarapari, na região metropolitana, de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, e de Aracruz, no norte, cujos contratos tinham previsão de término no último mês de maio, o que colocou essas unidades entre as primeiras na lista de atenção para possível descontinuidade.
No caso do CRJ de São Mateus, segundo informação de uma ex-coordenadora da unidade, o contrato não teria sido encerrado e estaria em processo de renovação, com previsão de novo termo a ser firmado em julho, indicando que a situação da unidade segue em atualização dentro do calendário contratual da rede.
Em setembro de 2026, vencem os contratos dos CRJs do Território do Bem e de São Pedro, ambos em Vitória. Em outubro do mesmo ano, chegam ao fim os termos de São Torquato, em Vila Velha, e Flexal, em Cariacica. Já em dezembro de 2026, encerram-se os contratos de Feu Rosa, na Serra, e Terra Vermelha, em Vila Velha. Os prazos mais longos são exceção, com vigência prevista até março de 2027, em unidades como Novo Horizonte, em Cariacica, e Colatina, na região noroeste.
Segundo levantamento da deputada estadual Camila Valadão (Psol), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, nove das 14 unidades da rede têm contratos previstos para encerrar ao longo de 2026, o que pode atingir a maior parte dos equipamentos em funcionamento e reacender o risco de descontinuidade da política pública.
O estudo aponta ainda concentração de vencimentos em curto intervalo de tempo e ausência de informações consolidadas sobre novos editais e prorrogações, ampliando a insegurança entre trabalhadores e jovens atendidos pelos serviços.
Para usuários e organizações que acompanham a política, o cenário recorrente de encerramentos e renovações de contrato reforça a avaliação de que os CRJs ainda funcionam como uma política de governo, sujeita a ciclos administrativos e à troca de gestão, e não como uma política de Estado, o que comprometeria a continuidade e a estabilidade dos serviços oferecidos à juventude.

